É sabido que a linguagem não é estanque, evolui. Os significados das palavras mudam mais rápido do que as atualizações dos dicionários e as utilizações que fazemos das mesmas vai variando. Para além disso, como se costuma dizer, “a língua portuguesa é traiçoeira”. E não é apenas para a malandrice.
Regresso das férias deste verão para uma notícia triste. Um dos pensadores contemporâneos que mais admiro faleceu no passado dia 3 de forma inesperada, sem que se conheça a causa à data em que escrevo.
“Só sei que nada sei” é a célebre e mal citada frase de Sócrates, o grego que terá vivido há mais de 2000 anos, para não haver confusões. Alegava o ateniense que só em relação à dúvida e ao desconhecimento é possível estarmos certos; a consciência da própria ignorância era, portanto, a última virtude.
A decisão de escrever este texto não foi isenta de tormento e de dúvida. O respeito que tenho pelo tema e o receio de ser mal interpretado fizeram sentir o seu peso. Com o progresso pandémico do vírus, que rapidamente se espalhou pelo mundo e nos está a mudar as vidas e as rotinas de forma radical, a indecisão tomou proporções ainda maiores.
Estou espantado com a quantidade de pessoas à minha volta que andam “numa busca pela sua verdade” ou que, já a tendo encontrado, a utilizam como argumento que se equipara aos usados numa birra infantil: “(…) pois, mas é a minha verdade”, como quem diz “temos pena” ou “é sim porque sim” ou “não porque não”.
Como em todas as eras, as evoluções tecnológicas que foram surgindo continham promessas de poupança, de recompensa e até de libertação. Os seres humanos seriam (serão?) os principais beneficiários da sua inventividade e do seu engenho.
Escrevi em tempos um outro texto sobre este mesmo tema. O facto de ter dado o mesmo título escusar-me-ia de escrever a primeira frase. Ainda assim, a bem da clareza, da transparência e dos links internos (dizem que favorece a descoberta dos textos novos), desta forma possibilito o acesso a um pouco mais de contexto a quem tome contacto com esta perspetiva pela primeira vez.
Recentemente conversava com duas colegas sobre uma experiência de aprendizagem que uma delas tinha conduzido para um grupo de pessoas de um cliente nosso. Perguntara-lhe como tinha corrido. A sua resposta fez despontar a tal conversa. Procurávamos entender e definir o que tornaria as nossas experiências de aprendizagem diferentes de tantas outras. Como tínhamos chegado a estes modelo e estilo?
Desenvolvimento pessoal. Conceito abrangente, demasiado abrangente, onde tudo cabe e quase tudo serve. Sempre a apontar para o progresso, com mais e melhores competências que são arrumadas em modelos ora simples e pragmáticos, ora complexos e sofisticados. Procuram-se estados tão díspares como a produtividade, a eficácia, a tranquilidade, a felicidade, o equilíbrio, o sucesso. A lista poderia continuar até se atingir o limite de caracteres deste artigo.
Da minha experiência no mundo das organizações, o politicamente correto continua a fazer das suas. E, sim, no contexto das relações interpessoais, em grande parte das empresas portuguesas, acredito que continua a produzir resultados bastante negativos. Voltemos à merda.
Alerto-o/a, caro/a leitor/a, que, com a exploração que vou propor sobre os muitos efeitos negativos que tenho encontrado em quem segue, com exagero e extremismo, a doutrina do “politicamente correto”, correrei o sério risco de enveredar pelo caminho contrário.
Nas férias li dois livros muito diferentes um do outro: “A história natural da estupidez”, de Paul Taboori, e “A utilidade do inútil”, de Nuccio Ordine. As suas diferenças parecem evidentes em diversos sentidos.







