Entrevista/ “Portugal tem projetos com ambição suficiente para atrair capital de grande escala”
“Não queremos um lugar na gestão nem impor estratégias. Chegamos com capital, com uma rede global presente em mais de 50 países e com a convicção de que as empresas crescem melhor quando os fundadores e gestores têm espaço para liderar”. A explicação é de Fernando Fraga que recentemente assumiu o cargo de Country Manager da JTA Investment Holding.
A JTA International Investment Holding, uma holding de investimento e private equity sediada no Catar, alargou a sua atuação ao mercado português como parte da sua estratégia de expansão internacional em mercados europeus selecionados. Para liderar liderar as operações locais, coordenar o desenvolvimento de projetos e estabelecer parcerias estratégicas com os principais intervenientes e investidores, a escolha recaiu sobre Fernando Fraga, antigo diretor de Crescimento e Aceleração da Startup Portugal.
Em entrevista ao Link to Leaders, o Country Manager da JTA Investment Holding para em Portugal, traça os objetivos da holding o mercado nacional e explica as motivações que levaram a empresa do Catar a estabelecer-se em Portugal, e o perfil de projetos em que está disposta a investir. Da JTA Investment Holding, o mercado empresarial nacional pode esperar “um parceiro que entra no capital para ficar”.
Como responsável da JTA Investment Holding em Portugal, quais os objetivos definidos para o mercado nacional? Qual vai ser o modus operandi da empresa no nosso país?
A JTA procura projetos icónicos, ou seja, projetos que já definem ou vão definir o país onde investe. Em Portugal, é exatamente isso que faço: identificar e selecionar para investimento os projetos com fundamentos reais para avançar. Tenho já um pipeline alargado em análise, que continua a crescer.
Em termos práticos, o modus operandi é simples. Os projetos que pretendam candidatar-se a investimento da JTA podem contactar-nos através do email ou formulário do FX2 Group, o meu grupo empresarial responsável pela representação da JTA em Portugal. Após uma análise inicial do meu escritório, os projetos que fizerem sentido são encaminhados para uma análise mais detalhada por Doha e pelas subsidiárias especializadas da holding.
Esta presença permanente em Portugal é, por si só, uma proposta de valor. Existem poucos operadores com esta capacidade instalada no país e, na maioria dos casos, quem pretende aceder a capital desta natureza tem de recorrer a fundos sediados em Londres ou Paris, sem presença local, sem conhecimento do terreno e sem capacidade de acompanhar os projetos de perto. Ter um interlocutor em Portugal que conhece a realidade das empresas, analisa com esse contexto e mantém proximidade com os projetos investidos muda a relação entre o capital e quem o recebe. Isto vale tanto para projetos de grande escala como para empresas em fases mais iniciais de desenvolvimento, para as quais estamos igualmente disponíveis.
Para referência de escala do que a JTA considera projetos icónicos, basta olhar para alguns dos projetos recentes da holding, como um complexo desportivo e de entretenimento de 4,5 mil milhões de dólares no Sudeste Asiático, uma potencial participação de mil milhões de dólares na VinFast, ou negociações para aquisição de clubes de futebol na La Liga espanhola. É com essa ambição que olhamos para Portugal, embora estejamos igualmente disponíveis para projetos de dimensão mais reduzida.
“Estar em Lisboa é estar a meio caminho entre a Europa, o Atlântico, África e os mercados lusófonos. Para uma holding com presença em mais de 50 países, isso tem valor real”.
Porquê Portugal para instalar um novo escritório na Europa? É um hub estratégico?
Portugal tem algo que poucos mercados europeus conseguem oferecer em simultâneo: solidez económica, abertura ao investimento internacional e uma posição geográfica que não é apenas simbólica, mas operacional. Estar em Lisboa é estar a meio caminho entre a Europa, o Atlântico, África e os mercados lusófonos. Para uma holding com presença em mais de 50 países, isso tem valor real.
Acresce que Portugal tem registado um crescimento económico consistentemente acima da média europeia, o que sinaliza um mercado dinâmico e com fundamentos sólidos. Do meu lado, a decisão da JTA também reflete o facto de trazer um conhecimento do terreno que leva anos a construir, desde empresas a instituições e setores com maior potencial. Não é uma aposta no país em abstrato, é uma aposta num mercado concreto, com projetos identificados e relações estabelecidas.
Qual o potencial e oportunidades de investimento em Portugal? Quais as áreas que estão na vossa mira (tecnologia, transição energética, infraestruturas e imobiliário…)?
O mandato que tenho não define fronteiras setoriais. O critério é a qualidade e o impacto do projeto, não a indústria em que se insere. Dito isto, há áreas onde o desfasamento entre o que Portugal tem para oferecer e o capital que consegue atrair é mais evidente. O turismo, por exemplo, gera mais de 29 mil milhões de euros em receitas anuais e é uma referência mundial, mas a próxima geração de projetos de grande escala, aqueles que criam destinos e não apenas alojamento, ainda não encontrou os parceiros financeiros certos.
Na energia, Portugal é já líder europeu em produção renovável, mas o armazenamento, o hidrogénio verde e a mobilidade elétrica representam uma oportunidade significativa onde o capital paciente pode fazer a diferença.
A tecnologia não é apenas um setor isolado, mas uma componente estrutural dos grandes projetos. Um resort integrado hoje é também um projeto de gestão de dados e eficiência energética, e uma infraestrutura de mobilidade depende das plataformas digitais que a suportam.
Há ainda um vetor particularmente relevante, a infraestrutura económica regional, ou seja, projetos fora dos grandes centros urbanos com potencial para transformar territórios inteiros, mas que raramente atraem capital com a paciência necessária. Portugal tem ainda muitas outras oportunidades por explorar.
E o que é que o mercado empresarial português pode esperar da JTA Investment Holding em termos de soluções de investimento?
Um parceiro que entra no capital para ficar. O modelo da JTA complementa o ecossistema de investimento existente. Há projetos que se enquadram no venture capital tradicional ou no private equity clássico, e há projetos que precisam de algo diferente, com um horizonte mais longo, maior escala e um parceiro sem plano de saída predefinido. É nesse espaço que a JTA atua.
Não queremos um lugar na gestão nem impor estratégias. Chegamos com capital, com uma rede global presente em mais de 50 países e com a convicção de que as empresas crescem melhor quando os fundadores e gestores têm espaço para liderar.
“O que ainda falta é capital verdadeiramente orientado para empresas e projetos, e não apenas para ativos físicos”.
Quais são os ativos que em Portugal ainda não estão a ter a atenção internacional, em termos de investimento, que merecem?
Portugal tem atraído investimento estrangeiro de forma crescente, e os dados do Banco de Portugal confirmam isso. O imobiliário destaca-se como um dos setores mais procurados, o que é natural. O que ainda falta é capital verdadeiramente orientado para empresas e projetos, e não apenas para ativos físicos.
Há setores onde essa lacuna é mais evidente. A economia do mar é um deles, com uma das maiores zonas económicas exclusivas do mundo ainda subaproveitada em termos de investimento privado de escala. O agronegócio de valor acrescentado, sobretudo no interior, é outro. E o ecossistema tecnológico em fases de crescimento, entre o seed e as grandes rondas, continua a não ter capital suficiente para acompanhar a ambição dos melhores projetos portugueses. Portugal tem ainda muitas outras oportunidades por explorar.
“Na Europa está em negociações avançadas para a aquisição do Getafe CF na La Liga espanhola”.
Considerando que têm uma presença ativa em mais de 50 países, qual é neste momento o mercado global mais interessante para a JTA Investment Holding? Porquê?
A JTA tem uma abordagem diversificada e não depende de uma geografia específica para gerar resultados. O historial recente da holding mostra essa amplitude. Além dos projetos no Vietname, nas Filipinas a JTA anunciou a intenção de investir cerca de 3 mil milhões de dólares em infraestruturas, energia e turismo. Na Europa está em negociações avançadas para a aquisição do Getafe CF na La Liga espanhola. No setor energético, tem participações em empresas como a Nikoil na Indonésia e a Sepidan no setor de petróleo e gás. O critério não é a geografia, mas sim a qualidade e o impacto do projeto. É essa lógica que também aplicamos a Portugal.
Globalmente, como avalia o trabalho que tem sido feito em Portugal em matéria de investimento e apoio de longo prazo às empresas?
Portugal fez um caminho notável na última década. O investimento direto estrangeiro acumulado atingiu 200 mil milhões de euros no final de 2024, representando 71 por cento do PIB, um valor que duplicou desde 2008 e que está acima da média da OCDE. O PIB cresceu consistentemente acima da média europeia e a consolidação das finanças públicas reforçou a credibilidade do país junto dos mercados internacionais.
Ainda assim, persistem desafios. Os processos de licenciamento continuam a ser um entrave para projetos de grande escala, com prazos que muitas vezes não acompanham a realidade dos investidores internacionais. A burocracia associada a infraestruturas e energia é outro obstáculo relevante.
Há ainda um ponto que considero crítico, a preparação da rede consular para apoiar processos de vistos de investidores internacionais. A inconsistência neste domínio cria dificuldades desnecessárias na atração de capital, talento e projetos. Melhorar este ponto teria um impacto direto e significativo.
O que é que este novo desafio profissional, a liderança da JTA Investment Holding em Portugal, representa para si?
É a evolução natural de um percurso longo. Apoiar empresas e o ecossistema de inovação em Portugal sempre foi uma missão que fui construindo ao longo dos últimos 15 anos, em diferentes setores e geografias. No setor privado, através da Second Wings e do FX2 Group. No terceiro setor, na direção da Acredita Portugal, onde trabalhei com mais de dez mil projetos por ano. No setor público, como adjunto da vereadora da Economia de Matosinhos, contribuindo para políticas como o Matosinhos Invest e o Greater Porto. E a nível nacional, na Startup Portugal.
A entrada no investimento através do Angels Way foi um primeiro passo. Hoje, o FX2 Group permite investir desde a fase pré-seed até projetos de grande escala. A JTA acrescenta a dimensão de investimento estrutural. O objetivo é claro: apoiar e investir em oportunidades independentemente da fase ou dimensão, desde uma ideia inicial até projetos que transformam regiões inteiras. A JTA é uma peça fundamental nesse caminho.
Qual a mais valia que a sua experiência profissional em organizações como a Startup Portugal ou a Second Wings, traz para este novo projeto?
Há dois tipos de conhecimento essenciais para este papel. O primeiro é o conhecimento profundo do lado português, desde o ecossistema empresarial até à forma como as empresas crescem, onde estão os obstáculos e onde estão os projetos com potencial ainda por descobrir. A Startup Portugal e a Acredita Portugal deram-me uma visão transversal do tecido empresarial que poucos têm. A experiência em Matosinhos acrescentou a perspetiva territorial e institucional.
O segundo é o conhecimento dos mercados asiáticos e do Médio Oriente. A Second Wings, com presença no Paquistão, Vietname, Tailândia e Líbano, permitiu-me perceber como se constroem relações de confiança, como se tomam decisões e o que estes investidores valorizam. Essa capacidade de operar entre contextos diferentes é essencial para uma holding com presença global como a JTA.
O que é que a holding ambiciona concretizar no mercado português nos cinco próximos anos?
A ambição da JTA é investir nos projetos mais icónicos do país, independentemente da sua dimensão. A minha ambição pessoal é posicionar Portugal como um centro de referência para o investimento da JTA na Europa e demonstrar internacionalmente a qualidade dos projetos portugueses. Nos próximos cinco anos, o objetivo é ter investimentos concretizados em áreas estruturantes, com impacto na criação de emprego, no desenvolvimento regional e na projeção internacional das empresas portuguesas. Portugal tem projetos com ambição suficiente para atrair capital de grande escala. O meu papel é fazer essa ligação acontecer e ajudar a elevar o nível de ambição do ecossistema empresarial português.








