No início do ano 2020, mais precisamente a 5 de fevereiro, ainda sem termos entrado na pandemia, elencámos aqui três áreas que poderiam ser alvo de reformas de modo a termos uma sociedade melhor para os cidadãos: i) sistema jurídico legal célere; ii) desburocratização no relacionamento entre o cidadão e as instituições publicas e privadas; e iii) cultivo de um relacionamento de confiança e de boa-fé entre todos.

Passado que foi o ano de 2020, completamente atípico e fora de qualquer previsão humana, importa compreender o que ocorreu em, pelo menos, duas dessas áreas. Primeiro, no domínio da desburocratização, a pandemia veio provar que é possível desburocratizar os processos, com ganhos de eficiência e mantendo, pelo menos, os mínimos padrões de qualidade, segurança e fiabilidade. Desde tarefas mais simples como a renovação de um documento, até tarefas mais complicadas como o desenvolvimento e aprovação de uma vacina, passando por empréstimos e linhas de crédito, lay-off simplificado, tudo foi possível graças à simplificação e desburocratização e a digitalização. Sim, a tecnologia fez a diferença, mostrando que os procedimentos podem ser simplificados, as etapas redundantes desnecessárias podem ser suprimidas. Com a eventual retoma da normalidade (nova ou velha) importa não perder o que se ganhou em termos de digitalização e desburocratização, desde que reforçada a cibersegurança.

Segundo, no domínio do relacionamento da confiança e da boa-fé, também a pandemia veio a revelar o melhor e o pior da humanidade. Primeiramente, vamos ao melhor; foi comovente ver a empatia e consideração entre os que estiveram na linha da frente do combate e o resto da população com manifestações de solidariedade e de apreço; foi de se louvar a solidariedade internacional aquando do fornecimento de equipamentos hospitalares e equipamentos de proteção individual (EPI) aos países mais pobres, oferecidos até por individualidades.

Vamos ao reverso da moeda: também foi triste ver relatos de desvios internacionais de carregamentos de EPI e de ventiladores no auge da primeira vaga, ao mesmo tempo que vários países proibiram a exportação de bens críticos para se lidar com a pandemia. Mais recentemente, com as vacinas a situação não melhorou ao ponto do Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) ter afirmado, no dia 18 de janeiro, que o mundo “está à beira de um fracasso moral catastrófico” se os países ricos não partilharem vacinas contra a Covid-19 com os mais pobres. Chamadas de atenção semelhantes têm sido feitas pelo Secretário-Geral da ONU.

Outro assunto que tratamos em 2020 foi a necessidade do recomeço (Reset) onde ficou evidente a necessidade de novos modelos de negócios (alguns negócios certamente teriam de falir, infelizmente, devido ao facto de não serem economicamente viáveis num contexto de distanciamento social). Além de novos modelos ou padrões de interação social (distanciamento físico), ficou patente que o modelo tradicional de globalização (internacionalização das cadeias de fornecimento ou supply chain) iria sofrer alterações. Um ano depois, os países procuram produzir internamente, na medida do possível, alguns bens e serviços críticos. Da mesma forma se confirma a tendência de diversificação de fornecedores e/ou localização da produção. Por isso, a aposta no setor primário e na re-industrialização ganhou relevo no desenho de políticas públicas. Uma nota importante foi o facto do desenvolvimento da tecnologia permitir as economias emergentes entrarem no fornecimento de serviços para o resto do mundo.

Outras tendências que referíamos na altura dizem respeito à reforma dos serviços nacionais de saúde, que deveriam mudar o conceito para sistema nacional de saúde, envolvendo uma complementaridade de esforços entre o público, o privado e o social, devidamente enquadrado do ponto de vista legal e financeiro. Mas não estamos a falar simplesmente de mudança de nome, mas sim do conceito, pois na essência, um sistema é diferente de um serviço, ou seja, um sistema produz um serviço.

A outra tendência aqui mencionada dizia respeito ao confinamento: até à imunização de grupo, seria necessário recorrer ao confinamento, mas agora não de uma forma cega, mas sim pontual e localizada e em alternância, naquilo que os pesquisadores epidemiologistas do Harvard definem como confinamento intermitente.

Destacamos também aqui que, antes da situação pandémica melhorar com as vacinas, entraríamos num período muito mais difícil em que exigiria lideranças fortes e concentradas e focadas naquilo que seria mais importante para combater a epidemia e as suas consequências económicas e sociais (perda de vidas, perda de rendimentos, perda de ocupação). Fazendo a analogia com os jogos de computador, o próximo nível iria ser mais difícil e delicado e que seria necessário mudar o cenário ou a situação real mudaria os jogadores. Efetivamente, alguns líderes manifestaram não estar preparados para este nível mais exigente e começaram a ficar para trás e a serem substituídos ou ultrapassados – game over!

Concluindo, o ano de 2020 foi um ano extraordinário em termos de desafios e de aprendizagem e de descoberta de novos caminhos para a humanidade, para os países, para as organizações, para as famílias e para os indivíduos. Foi o ano em que todos foram chamados a exame sem prévio aviso e em que as notas não têm data para serem publicadas.

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Carlos Rocha é economista e atualmente é presidente do Fundo de Garantia de Depósitos de Cabo Verde. Foi administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi administrador executivo da CI -... Ler Mais