Opinião

O ensino profissional como instrumento do diálogo social

Teresa Damásio, administradora do Grupo Ensinus
Foto: Teresa Damásio, administradora do Grupo Ensinus

O Estado Social constitui uma das marcas identitárias mais relevantes da União Europeia. A promoção da coesão social, da igualdade de oportunidades, do desenvolvimento sustentável e da valorização do capital humano são princípios estruturantes do projeto europeu e exigem respostas concretas por parte dos sistemas educativos.

Neste contexto, o ensino profissional assume-se hoje como uma das mais importantes ferramentas de inclusão, qualificação e desenvolvimento económico. Durante décadas, foi frequentemente associado a percursos alternativos destinados a alunos excluídos do ensino científico-humanístico. Contudo, essa visão encontra-se amplamente ultrapassada. O ensino profissional transformou-se numa opção de excelência, escolhida por milhares de jovens e famílias que reconhecem o seu valor educativo, formativo e profissional.

A crescente procura desta modalidade de ensino demonstra uma mudança profunda do paradigma normativo. Atualmente, os cursos profissionais acolhem alunos provenientes de diferentes contextos sociais, económicos e culturais, muitos dos quais fazem desta a sua primeira opção formativa, cada vez mais. Esta realidade resulta da capacidade do ensino profissional em oferecer uma aprendizagem mais próxima da realidade, em que o conhecimento teórico se articula com a aplicação prática e com a resolução de problemas concretos, contribuindo para uma maior motivação por parte dos alunos e, consequentemente, para o sucesso educativo.

Num contexto europeu marcado pela transição digital, ecológica e pelo cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimentos Sustentável (ODS) existe uma crescente necessidade de técnicos qualificados em áreas estratégicas, bem como escolas mais próximas dos alunos, das famílias e das comunidades locais, tornando o ensino profissional um instrumento essencial para concretizar as metas europeias de competitividade, inovação e sustentabilidade.

O contributo do ensino profissional vai muito além da empregabilidade. Ao qualificar jovens em áreas estratégicas, contribui diretamente para o aumento da produtividade, da competitividade empresarial e da inovação. Em muitas regiões do país, as escolas profissionais desempenham igualmente um papel decisivo na fixação de talento, no combate

ao abandono escolar e na promoção da coesão territorial. As escolas assumem-se como pólos de atração e de criação de talento, promovendo percursos educativos e profissionais diferenciados, sustentados numa visão profundamente humanista da educação.

Importa ainda reconhecer que o ensino profissional deixou de ser uma via exclusivamente orientada para a integração no mercado de trabalho. Cada vez mais diplomados prosseguem estudos no ensino superior, demonstrando que esta modalidade proporciona percursos flexíveis, capazes de responder às aspirações e aos projetos de vida de cada estudante. Os números confirmam-no.

A génese das escolas profissionais em Portugal remonta a 1989, quando os Ministérios da Educação e do Trabalho identificaram uma lacuna no sistema educativo e promoveram a mobilização de diversos atores sociais, públicos e privados. Nasceu então uma visão inovadora que procurava aproximar a educação da sociedade civil, das empresas e das comunidades locais. Este modelo representou uma profunda transformação na relação entre o Estado e os diferentes atores sociais, criando uma rede de instituições comprometidas com a formação de cidadãos qualificados, autónomos e socialmente responsáveis.

Mais de três décadas depois, as escolas profissionais continuam a afirmar-se como espaços de inovação pedagógica, de criação de conhecimento e de desenvolvimento comunitário. São instituições profundamente enraizadas nos territórios onde atuam, mas simultaneamente abertas ao mundo, às parcerias internacionais e aos desafios globais.

Num momento em que a União Europeia enfrenta desafios sem precedentes relacionados com a qualificação da sua população ativa, a competitividade económica e a sustentabilidade dos seus modelos sociais, o ensino profissional assume uma relevância estratégica crescente. Não apenas porque responde às necessidades do mercado de trabalho, mas porque promove mobilidade social, cria oportunidades e contribui para uma sociedade mais justa e mais preparada para o futuro.

A questão que aqui se coloca é saber se Portugal e a Europa estão preparados para colocar o ensino profissional no centro das suas estratégias de desenvolvimento económico, inovação e coesão social, colocando o ensino ao serviço da Europa e do mundo.

Bibliografia:
Azevedo, J. (2014). O ensino profissional em Portugal, 1989-2014: Os primeiros vinte e cinco anos de uma viagem que trouxe o ensino profissional da periferia para o centro das políticas educativas. In M. L. Rodrigues (Coord.), 40 anos de políticas de educação em Portugal: A construção do sistema democrático de ensino (pp. 411–468). Almedina.

GEPE (2008). Estatísticas da Educação. Lisboa: Ministério da Educação.

GETAP – Orvalho, L., Graça, M., Leite, E., Marçal, C., Silva, A. & Teixeira, A. (1992). A estrutura modular nas escolas profissionais. Quadro de inteligibilidade. Porto: GETAP-ME.

UNESCO (1988). Rapport National du Portugal. Genève: UNESCO/Ministério da Educação.

 

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Teresa Damásio

Teresa Damásio

Teresa Damásio é Administradora do Grupo Ensinus desde julho de 2016, que faz parte do Grupo Lusófona, o maior grupo de ensino de língua portuguesa no mundo. É também Administradora do Real Colégio de Portugal e do Grupo ISLA. Presidente do Conselho de Administração da Universidade Lusófona da Guiné-Bissau e Membro do Conselho de Administração do ISUPE Ekuikui II, em Angola. Presentemente, integra a Direcção da AEEP. Foi fundadora da Internacionalização do Grupo Lusófona, passou pela Assembleia da República como... Ler Mais..

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