Entrevista/ Bloop quer democratizar o social shopping e levar recomendações de compra além dos influenciadores

Francisco Rodrigues, fundador e CEO da Bloop
Foto: Bloop

“O social shopping tem vindo a afirmar-se como a próxima tendência do e-commerce, mas os modelos atuais existentes estão orientados para influenciadores com grandes audiências. A Bloop distingue-se por democratizar este conceito”, explica Francisco Rodrigues, fundador e CEO.

Fundada no final do ano passado, a Bloop combina marketplace e rede social num modelo inovador que recompensa todos os consumidores pelas suas recomendações de compra. Em menos de seis meses de operação já alcançou mais de 60 mil downloads e cerca de 200 vendedores ativos, e captou 2 milhões de euros junto de mais de 150 investidores.

Recentemente, alargou a sua atuação ao mercado espanhol, “um passo natural”, uma vez que “80% dos vendedores portugueses presentes na plataforma já vendiam para Espanha e cerca de 10% dos vendedores ativos são espanhóis”, explica Francisco Rodrigues, fundador e CEO da Bloop. Mas a ambição do projeto vai mais longe geograficamente, uma vez que a marca já está registada em França, Itália, Alemanha e Brasil.

Francisco Rodrigues confidencia ainda que o “objetivo a um ano é levantar uma ronda de capital Seed, com fundos de capital de risco”, para acelerar a expansão para o resto da Europa e para o Brasil, e entretanto uma ronda intermédia de financiamento para acelerar o crescimento.

Depois de pouco mais de seis meses de atividade, qual o balanço que faz do projeto que criou?

Tem sido um percurso muito positivo. Em menos de seis meses, alcançámos mais de 60 mil downloads e cerca de 200 vendedores ativos. Conseguimos dois milhões de euros junto de mais de 150 investidores, numa das maiores rondas de financiamento realizadas em Portugal antes mesmo da empresa gerar vendas.

Mais do que os números, o que nos dá maior confiança é a forma como os utilizadores estão a aderir ao modelo: 60% fazem publicações na plataforma e 43% das compras correspondem a recompras. São indicadores que validam aquilo que temos estado a construir.

Como surgiu a ideia de criar um marketplace/rede social de compras?

A ideia nasceu de uma pergunta simples: e se toda a gente pudesse ganhar com as suas recomendações online? Não apenas os influenciadores profissionais, mas qualquer pessoa. Todos influenciamos quem nos rodeia, sejam amigos, familiares ou colegas, e as nossas recomendações têm um impacto real nas decisões de compra. A Bloop nasceu para dar voz e remunerar a essa influência que todos praticamos no dia a dia. A plataforma funde os conceitos de marketplace e rede social, permitindo que qualquer utilizador ganhe créditos que poderá descontar em compras futuras, apenas por recomendar produtos e serviços adquiridos no próprio marketplace.

“A adesão tem sido muito positiva, mas explicar o modelo foi o primeiro grande desafio”.

Os consumidores portugueses estavam preparados para este conceito?

A adesão tem sido muito positiva, mas explicar o modelo foi o primeiro grande desafio. Havia três dúvidas recorrentes: a primeira era a ideia de que os vendedores praticavam preços acima do mercado para financiar os créditos atribuídos aos utilizadores, o que não corresponde à realidade. Os nossos preços são competitivos com os preços praticados em outros marketplaces; a segunda prendia-se com a perceção de que o ganho se limitava à publicação inicial e não ilimitadamente por cada recomendação, como acontece e a terceira era a de que a plataforma se destinava à venda de produtos em segunda mão.

À medida que fomos esclarecendo estas questões e reforçando a comunicação sobre o funcionamento da plataforma, a adesão cresceu de forma consistente.

Quais têm sido os maiores desafios enfrentados, enquanto empreendedor, para pôr o projeto em funcionamento?

Pôr a bloop em funcionamento tem sido uma jornada fascinante, mas altamente exigente. Sendo o social shopping um conceito relativamente novo em Portugal, os nossos maiores desafios dividiram-se em três grandes frentes. Em primeiro lugar, o conhecido dilema do “Ovo e da Galinha”: se criar um marketplace tradicional já exige equilibrar a oferta (vendedores) e a procura (compradores), no nosso caso o desafio foi triplicado. Tivemos de construir, em simultâneo, uma base sólida de marcas/vendedores, atrair consumidores e, além disso, fomentar uma rede social ativa onde os utilizadores quisessem partilhar as suas compras de forma orgânica. Romper a inércia inicial e criar este ecossistema exigiu muita tentativa-erro e rapidez em aplicar essas aprendizagens.

Depois, a educação sobre a mecânica de “Credit-Back”, isto é, o nosso modelo assenta numa mecânica altamente viral em que o utilizador compra, partilha na nossa rede e recebe até 10% de credit-back só com a publicação. Se outros comprarem a partir dessa publicação, ele pode reaver mais 10% por cada venda gerada através da sua recomendação. Explicar esta proposta de valor disruptiva, provando que não era ‘bom demais para ser verdade’, mas sim um modelo sustentável baseado na descentralização do orçamento de marketing, foi um desafio de comunicação. Tivemos de iterar várias vezes sobre a experiência de utilizador para que o utilizador percebesse o valor imediato no primeiro contacto.

Finalmente, escalar operações e manter a qualidade da retenção, pois crescer depressa é o sonho de qualquer start-up, mas gerir esse crescimento com eficiência consome uma energia enorme. Nos primeiros 6 meses de mercado, alcançámos mais de 40.000 utilizadores registados e um volume de transações (GMV) de 350 mil euros.

O grande desafio aqui foi operacional: garantir um bom serviço de entregas dos vendedores, uma descoberta de produtos equitativa para todos os vendedores, um sistema sem falhas para todos os consumidores e, acima de tudo, manter os utilizadores ativos e “engaged”, algo que superámos com sucesso, registando uma taxa de retenção onde 43% das encomendas vêm de clientes recorrentes. Superar estes desafios iniciais só foi possível graças à resiliência da equipa e ao apoio estratégico dos nossos investidores e parceiros.

Como tem sido a adesão do público português à vossa proposta? Está a correr como previa?

Está a correr muito bem. 60% dos utilizadores fazem publicações na plataforma, o que é um indicador muito forte do seu envolvimento com o modelo. Além disso, 80% dos utilizadores que acumulam créditos voltam a utilizá-los em novas compras, e 43% das compras correspondem a recompras.
São números que demonstram que o modelo está a funcionar como prevíamos e que a proposta de valor da Bloop está a ser bem recebida.

Qual o perfil da comunidade Bloop? Direcionam-se para que tipo de consumidor?

O nosso público principal é constituído por utilizadores das gerações Z e Millennial. São pessoas habituadas às redes sociais, que valorizam a partilha e a descoberta de produtos através de recomendações de pessoas em quem confiam e que procuram tirar partido dos incentivos da plataforma.

“80% dos vendedores portugueses presentes na plataforma já vendiam para Espanha (…)”.

A Bloop entrou recentemente no mercado espanhol. Como está a correr essa operação?

A entrada em Espanha era um passo natural. 80% dos vendedores portugueses presentes na plataforma já vendiam para Espanha e cerca de 10% dos vendedores ativos são espanhóis. De certa forma, essa ligação já existia antes de oficializarmos a entrada no mercado.
Estamos confiantes na recetividade do mercado espanhol. A experiência em Portugal demonstrou a aceitação do modelo e acreditamos que a Bloop tem tudo para conquistar uma forte adesão também em Espanha.

Porquê a aposta na internacionalização em tão pouco tempo de atividade?

A Bloop foi criada desde o início com uma visão internacional, e foi essa a razão pelo sucesso da ronda de capital. Portugal funcionou como o nosso laboratório, o mercado onde testámos e validámos o modelo. Por isso, a internacionalização não resulta de uma decisão precipitada. Faz parte da estratégia definida desde o primeiro dia.

Temos a marca registada em Portugal, Espanha, França, Itália, Alemanha e Brasil, e os resultados alcançados em Portugal deram-nos a confiança necessária para avançar para esta nova fase.

O nosso objetivo a um ano é levantar uma ronda de capital Seed, com fundos de capital de risco”.

Depois da ronda de investimento em que captaram 2 milhões de euros, mais alguma ronda no horizonte?

Sim. O nosso objetivo a um ano é levantar uma ronda de capital Seed, com fundos de capital de risco. Esse capital vai permitir acelerar a expansão  para o resto da Europa e para o Brasil, nos próximos anos. Até essa ronda Seed, contamos ainda levantar uma ronda intermédia de financiamento para acelerar o nosso crescimento, que esperamos comunicar em breve.

Qual o potencial de crescimento da Bloop nos próximos anos?

O objetivo imediato passa por ultrapassar os 100 mil utilizadores registados em Portugal ainda este ano e continuar a expandir a rede de vendedores, com cerca de 100 novos por trimestre. Vamos também alargar a oferta com o lançamento de novas categorias de experiências, começando pela restauração e depois spas, atividades turísticas e concertos, diversificando a proposta de valor da Bloop e respondendo a um conjunto mais amplo de interesses dos utilizadores.

Qual a próxima ambição europeia da Bloop?

Depois de Espanha, o plano passa pela entrada em outros países europeus e no Brasil, ao longo dos próximos anos. A visão é construir uma rede social de compras onde os consumidores descubram produtos de vendedores de diferentes países através das recomendações de outros utilizadores, num modelo orgânico, impulsionado pela própria comunidade, que acreditamos poder posicionar a Bloop como referência mundial do setor.

A Bloop está a revolucionar o panorama do social shopping? Que mudanças trouxe na relação entre marcas e consumidores?

O social shopping tem vindo a afirmar-se como a próxima tendência do e-commerce, mas os modelos atuais existentes estão orientados para influenciadores com grandes audiências. A Bloop distingue-se por democratizar este conceito: qualquer utilizador pode recomendar produtos e beneficiar dessas recomendações, independentemente do número de seguidores.

Isto altera a relação entre marcas, vendedores e consumidores, uma vez que o cliente deixa de ser apenas comprador para passar a desempenhar um papel ativo na promoção dos produtos que usa e aprecia.

Quais as próximas etapas para se afirmarem como referência mundial de um modelo nativo de social shopping?

A expansão internacional é uma prioridade, onde a missão passa por conectarmos compradores e vendedores de geografias diferentes através de uma rede social de recomendações autênticas. Um consumidor irá poder procurar moda em itália ou restaurantes de sushi em Madrid através das partilhas de consumidores nestes mercados. Mas a nossa visão vai muito além disso. Acreditamos que cada consumidor é uma marca pessoal, caracterizado pelas suas  preferências, gostos, sítios que frequenta, atividade que pratica, etc… e queremos fazer crescer essas marcas.

A Bloop tem uma visão rica e extensa e assente num modelo de crescimento orgânico, impulsionado pelos próprios utilizadores, e é essa visão que orienta os próximos passos da Bloop e a ambição de nos afirmarmos como referência internacional no social shopping.

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