Opinião

“Quero resultados agora”: porque continuamos a reinventar rodas?

Rui Ribeiro, Partner Aiteris e professor da Universidade Lusófona/IPLuso
Foto: Rui Ribeiro, Partner Aiteris e professor da Universidade Lusófona/IPLuso

Há uma frase que ouço com frequência crescente vinda da boca de CEOs, administradores e líderes de unidades de negócio: “Quero resultados agora.”

E têm razão. Não porque a estratégia tenha deixado de importar. Importa mais do que nunca. Mas porque, num contexto de pressão permanente, margens apertadas, concorrência global, disrupção tecnológica e equipas sobrecarregadas, já ninguém tem paciência para projetos longos, diagnósticos eternos e apresentações bonitas que não mudam a realidade.

As empresas não precisam de mais meses para descobrir que têm problemas. Precisam de semanas para perceber quais são prioritários, o que fazer primeiro e como transformar as decisões em impacto.

Ao longo de quase 30 anos de experiência profissional em empresas, ensino, consultoria e gestão, uma conclusão tornou-se evidente: os problemas empresariais mudam menos do que parece. Mudam os contextos, as tecnologias, os nomes das ferramentas, a velocidade e as siglas da moda. Mas os desafios fundamentais repetem-se.

Alinhar tecnologia com negócio. Ganhar produtividade. Reduzir desperdício. Melhorar processos. Criar modelos de governação. Preparar pessoas. Escalar inovação. Controlar risco. Aumentar resiliência. Transformar dados em decisão. Transformar até o negócio porque o atual tem “os dias contados”.

Tudo isto continua no centro das organizações.

Então por que razão continuamos tantas vezes a começar do zero?

Por que razão cada projeto parece precisar de redescobrir a pólvora, reinventar a roda e repetir erros que já foram pagos por outras organizações, noutros contextos e noutras décadas?

A realidade é simples: muitas organizações continuam a valorizar excessivamente a originalidade e insuficientemente a experiência acumulada. Existe uma tendência a acreditar que os seus desafios são únicos, quando, na verdade, são frequentemente versões atualizadas de problemas que já foram enfrentados centenas de vezes. E… há um grave problema de partilha entre gestores de empresas distintas, porque acreditam que só eles têm fragilidades e não podem mostrá-las… quando, na realidade, todos as têm.

Projetos internos ou iniciativas apoiadas por consultoria devem deixar de ser apenas exercícios de análise e tornar-se aceleradores de decisão. O seu valor não está em produzir mais documentos ou em realizar mais reuniões. Está em trazer método, experiência, comparação, frameworks testados e capacidade de execução.

Não se trata de aplicar receitas cegas. Cada organização tem a sua cultura, maturidade, arquitetura, mercado e ambição. Mas também não faz sentido fingir que todos os problemas são inéditos. Muitos não são. São variações de padrões conhecidos, agora potenciados por novas tecnologias.

O que se exige hoje é velocidade com profundidade. Rapidez sem superficialidade. Modelos estruturados, mas adaptáveis. Resultados rápidos, mas alinhados com a estratégia de médio e longo prazo.

Porque o CEO que pede “resultados agora” não está apenas a pedir pressa. Está a pedir foco. Está a pedir clareza. Está a pedir que separemos o essencial do acessório. Está a pedir que a organização deixe de discutir eternamente o caminho e finalmente comece a andar.

Um bom projeto deve ajudar a fazer exatamente isso: acelerar sem desgovernar, simplificar sem empobrecer, executar sem perder visão.

Frameworks, metodologias e modelos existem para reduzir incerteza, evitar erros repetidos e organizar prioridades. A inteligência artificial, a automação, os dados, a cloud ou a cibersegurança não devem ser modas coladas aos projetos. Devem ser instrumentos para resolver os problemas de hoje, alinhados ao posicionamento estratégico de amanhã.

Aprender com os erros é uma obrigação. Não os repetir é uma vantagem competitiva.

As organizações que continuam a começar sempre do zero perdem tempo, dinheiro e energia. As que aprendem, adaptam e melhoram rodas existentes chegam mais depressa, com menos risco e maior impacto.

Porque, no final, os líderes não procuram projetos. Procuram resultados.

E os resultados raramente aparecem quando passamos demasiado tempo a reinventar aquilo que já sabemos que funciona.

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Rui Ribeiro

Rui Ribeiro

Atualmente Partner Aiteris e professor da Universidade Lusófona/IPLuso, tendo tido várias atividades profissionais, entre as quais Head of Consulting & Technology na Auren Portugal, diretor-geral da IPTelecom, diretor comercial da Infraestruturas de Portugal S.A., diretor de Sistemas de Informação na EP - Estradas de Portugal S.A. e Professional Services Manager da Sybase Inc. em Portugal. Na academia é diretor executivo da LISS – Lusofona Information Systems School, e docente da ULHT. Rui Ribeiro é doutorado em Gestão Empresarial Aplicada, na... Ler Mais..

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