Opinião
Pessoas de fracos recursos partilham as boas ideias
Tendo visto muitas pessoas descobrirem soluções para seus problemas, notei uma tendência comum: quando põem em prática uma ideia que facilita as suas vidas, elas partilham-na com entusiasmo, divulgando-a e ensinando outras pessoas que também enfrentam dificuldades parecidas.
Observei, em contrapartida, que aqueles que não viveram dificuldades na sua vida, ou cujos problemas tinham soluções imediatas, sem stress financeiro ou de outra natureza, não sentiam a mesma necessidade de partilhar. Isso parece típico de pessoas ricas, que não precisam procurar soluções, pois o dinheiro resolve tudo e elas têm-no. Alguém comentou que os ricos não sabem o que é ter fome. Por isso, não têm necessidade de pôr em comum as suas “descobertas” para os outros.
Deparei com um artigo sobre Mina Devi, do Estado de Bihar (Índia), que, após uma vida de dificuldades, tentou cultivar cogumelos para vender e obter um rendimento. Inicialmente, ela utilizou uma solução caseira para cultivá-los em caixas, que colocava debaixo da cama, devido à falta de espaço.
Mas ela depressa percebeu que “o negócio” exigia um controle rigoroso de temperatura, da humidade e higiene, e que isso necessitava de um certo treino. Ela entrou em contato com a Universidade Agrícola de Bihar, onde recebeu a orientação necessária. Então, iniciou uma produção de cogumelos mais “científica e rigorosa”, que começou a vender com valores bem razoáveis, na sua casa.
“Na aldeia ofereceram-nos bons preços, entre 200 e 300 rúpias por quilo e a produção cresceu”, a ponto de conseguir proporcionar uma boa educação aos seus filhos e não apenas alimento. O seu filho mais velho estuda agora Engenharia, e os outros três estão a sair-se bem. O seu próximo passo foi partilhar o seu sucesso com cogumelos e ensinar outras mulheres da sua aldeia a tentar obter certo rendimento com a produção de cogumelos.
Além disso, passo a passo, ela chegou a mais de 100 aldeias vizinhas, ensinou e incentivou mais de 70.000 mulheres rurais das áreas próximas a aprender e começar a praticar a produção de cogumelos para vender”. “Quando as mulheres conquistam independência financeira, a sua auto-estima aumenta. Elas ganham confiança em si mesmas e o seu lugar na família e na sociedade melhora”, comentou Bina.
Com tantas mulheres mobilizadas e uma produção em quantidade torna-se imprescindível criar uma organização de produtoras para fins de venda, garantindo que nenhum intermediário fique com a maior parte dos lucros, deixando uma margem insignificante para quem trabalhou na produção. Isso permite preços de venda que proporcionam uma margem razoável para as produtoras, ao mesmo tempo que garantem um preço final aceitável para incentivar a venda em grande escala.
A renda obtida com a venda de cogumelos foi suficiente para Bina Devi custear a educação dos seus quatro filhos. Além do seu negócio e de ensinar colegas interessadas na área, ela também ocupou o lugar de Sarpanch (Dirigente local), em Dauri, na sua terra natal. Além disso, a gratidão das pessoas inspiradas a produzir foi reconhecida e ela também recebeu um importante reconhecimento de entidades oficiais pelo seu trabalho.
Em 2018, ela recebeu o Prémio Mulher Agricultora, seguido pelo Prémio Kisan Abhinav, em 2019.
Não satisfeita com o que já conquistou, agora Bina Devi concentra a sua atenção na agricultura orgânica, ensinando-a às suas colegas, utilizando produtos naturais e orgânicos, e evitando fertilizantes e pesticidas químicos.








