Opinião

O verão da espera: escolher um curso enquanto se aguarda uma nota

Anabela Possidónio, fundadora da Shape Your Future
Foto: Anabela Possidónio

Esta semana li uma entrevista ao professor Luís Catela Nunes, da Nova School of Business and Economics, no Jornal de Negócios, e há uma frase que não me sai da cabeça: escolher um curso é apenas o primeiro passo a dar.

Parece óbvio, mas confesso que ao longo destes anos a acompanhar jovens na Shape Your Future percebi que é precisamente isso que muitos deles, e muitos pais, esquecem. Vivem a candidatura ao ensino superior como se fosse a decisão final, a última peça de um puzzle, quando na verdade é apenas o início de um percurso muito mais longo e muito menos linear do que a maioria imagina.

Escrevo isto a meio de julho, numa altura em que centenas de milhares de jovens em Portugal vivem talvez a espera mais desconfortável dos seus dezassete ou dezoito anos. E este ano a espera ainda se alongou mais um pouco. As dificuldades informáticas no processo de classificação eletrónica levaram o Ministério da Educação a adiar a afixação das pautas para 17 de julho e a empurrar a segunda fase dos exames nacionais para o período entre 20 e 24 de julho. Não creio que valha a pena entrarmos aqui na discussão sobre responsabilidades ou sobre o que correu mal num processo que é, de facto, complexo e ainda recente. O que me interessa sublinhar é outra coisa: o efeito que estes dias extra de espera têm na cabeça de quem já vinha, há semanas, a contar os dias até saber uma nota.

Quem trabalha com adolescentes sabe que a ansiedade não se mede em dias, mede-se em incerteza. E adiar uma data, por mais justificado que esteja, é sempre acrescentar incerteza a um processo que já era, por si só, avassalador. Há jovens que tinham tudo planeado ao pormenor, o dia da nota, o dia da candidatura, e agora até as tão desejadas férias de verão, aquelas que se seguiriam ao fim dos exames, ficam comprometidas ou pelo menos adiadas para muitos deles. Não é uma tragédia, mas é mais um fator de pressão numa fase em que já não faltava pressão nenhuma. E acho importante nomear isto, não para culpabilizar ninguém, mas para que os pais e os adultos à volta destes jovens percebam que a ansiedade que sentem em casa, agora, tem também esta explicação muito concreta.

Voltando à entrevista que li, há um ponto que considero essencial e que gostava que chegasse a todos os jovens que neste momento sentem a pressão de escolher um curso “com saída”. Catela Nunes lembra que o ensino superior continua a compensar, os licenciados entre os 23 e os 26 anos ganham, em média, mais 28% do que quem ficou pelo secundário, mas insiste que a verdadeira vantagem não está no nome do curso, está na capacidade de desenvolver competências, de se adaptar e de continuar a aprender ao longo da vida. É exatamente isso que digo aos jovens que passam pela Shape Your Future. Os que se saem melhor não são necessariamente os que escolheram o curso mais badalado ou mais bem pago à saída, são os que perceberam cedo que a escolha de um curso é uma direção, não uma sentença, e aqueles que apostam no desenvolvimento das suas competências pessoais.

Este ano há mais vagas do que no ano passado, mais de cento e sete mil em todo o país, e há também mais flexibilidade nas provas de ingresso, o que deveria, em teoria, aliviar um pouco a pressão. Mas sei bem que a teoria e a vivência de um jovem de dezoito anos, sentado à espera de uma nota que ainda nem foi publicada, são coisas muito diferentes. Por isso, se há coisa que gostava de deixar aqui, é um convite à paciência, não porque a ansiedade não seja legítima, é, e muito, mas porque vale a pena lembrar que este verão de espera, por mais desconfortável que esteja a ser, não define quem estes jovens vão ser. Define, quando muito, o sítio onde vão começar.

E aos pais, que sei que também vivem este adiamento com o coração nas mãos, deixo o mesmo que já escrevi noutras alturas. Não têm de ter todas as respostas nem de aliviar toda a angústia dos filhos. Basta estarem presentes, disponíveis para ouvir, e prontos para lembrar que uma nota, uma data ou um curso não são o retrato final de ninguém. São apenas o primeiro passo de uma história que ainda agora começa.

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Anabela Possidónio

Anabela Possidónio

Anabela Possidónio é fundadora e diretora-geral da Shape Your Future, que tem como missão ajudar jovens e adultos a tomarem as melhores decisões académicas e profissionais. Assume também o cargo de diretora-geral da Operação Nariz Vermelho. Tem uma vasta carreira corporativa de mais de 25 anos, onde assumiu posições de liderança em diversos setores (Saúde - CUF; Educação - The Lisbon MBA; Retalho - Jerónimo Martins e Energia - BP), em diferentes países (Inglaterra, México, Espanha e Portugal) e empresas... Ler Mais..

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