A 5 de maio assinala-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Este ano não foi exceção, embora tenha sido notório um certo desencanto em relação à lusofonia enquanto fator de identidade e comunhão entre nações que partilham a mesma língua. No seio da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), parece não haver hoje um desígnio comum e mobilizador.

A lusofonia tem vindo a perder apoio político, dinamismo económico e reconhecimento social. Já era assim antes da pandemia, tendo-se agudizado com a instabilidade causada pela crise sanitária. Portugal debate-se com uma queda histórica do PIB, Angola viu agravar-se a sua complexa crise económica, Moçambique enfrenta a violência jihadista na região Norte do país, Guiné e Timor vivem processos de democratização titubeantes, o Brasil está num crescendo de tensão política e social…. Enfim, o contexto não é o melhor para o estreitar de relações e a promoção de projetos no quadro da CPLP.

Ainda assim, a apoteótica receção ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, na Guiné-Bissau mostra bem como há um sentimento de irmandade entre os povos lusófonos. Sentimento, esse, que decorre da partilha da mesma realidade histórica, cultural e linguística e se mantém vivo para lá da transitoriedade das conjunturas políticas e económicas.

No cerne da lusofonia está a língua portuguesa, com os seus vários cambiantes nacionais. “A minha pátria é a língua portuguesa”, escreveu Fernando Pessoa. A frase está muito batida, mas continua a ser pertinente e inteiramente fundamentada. De facto, a língua portuguesa constitui o elemento mais forte de união entre os países lusófonos e um dos seus mais importantes fatores de afirmação geopolítica, projeção cultural e potencial económico.

O português é uma das línguas mais difundidas no mundo, com mais de 265 milhões de falantes espalhados pelos cinco continentes. É a 4.ª mais falada como língua materna (3,7% da população mundial) e a 5.ª mais utilizada na internet. Estamos, pois, perante uma língua de vocação global, cosmopolita, capaz de unir cidadãos dos quatro cantos do mundo.

Por tudo isto, a língua portuguesa encerra um grande potencial económico. À partida, a partilha do mesmo idioma fomenta as trocas comerciais, facilita o investimento, promove a internacionalização, estimula as parcerias entre empresas e simplifica a transferência de conhecimento. De resto, as nove economias da CPLP valem, em conjunto, cerca de 2.700 milhões de euros, o que corresponde à 6.ª maior economia do mundo.

Todavia, o potencial económico da língua portuguesa carece ainda de cabal materialização em investimento, exportações, internacionalização, emprego e inovação. As nossas relações económicas com os países lusófonos estão em banho-maria, depois da euforia que rodeou, até há poucos anos, os investimentos em Angola, Moçambique ou Brasil. Muitos julgaram ter encontrado o Eldorado nestes países, os mesmos que, hoje, são vistos como destinos a evitar para fazer negócios.

Mas não devia ser assim. A ideia de lusofonia, designadamente enquanto espaço de oportunidades económicas, mantém-se pertinente e merece os nossos melhores esforços. É preciso reforçar as sinergias entre os países da CPLP, sem saudosismos nem megalomanias. As relações económicas no espaço lusófono devem agora basear-se nos fatores críticos da economia do conhecimento, como o talento e a criatividade, o empreendedorismo e a inovação, as tecnologias digitais e a sustentabilidade ambiental.

A partir desse património indelével que é a língua, há que relançar a lusofonia e criar as bases de uma nova relação, mais pragmática mas igualmente ambiciosa, dentro da CPLP.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso... Ler Mais