Há uma coisa que todos os livros de auto-ajuda tem em comum e que é mentira. Cada livro que nos quer ensinar a ser melhores líderes, melhores empreendedores, melhores colaboradores e até melhores pessoas tem um conjunto de receitas muito diferente.

Há livros que nos dizem que o segredo é organizar melhor o nosso tempo. Dizem que temos que fazer menos coisas urgentes e mais coisas importantes. Que temos que procrastinar menos e produzir mais. Que temos que equilibrar a nossa vida pessoal com a nossa vida profissional.

Há livros que nos dizem que temos que mudar a nossa atitude. Dizem que temos que olhar para tudo de forma mais positiva. Que temos que acreditar em nós próprios. Que temos que ser cada vez mais e cada vez melhores, mesmo quando sabemos que o que fazemos todos os dias conta muito pouco.

Apesar de cada um dos livros de auto-ajuda ter receitas muito diferentes há uma coisa que todos têm em comum. Todos estes livrinhos dizem que o nosso crescimento, que o nosso desenvolvimento, que o nosso sucesso só depende de nós. Nós somos o nosso maior inimigo, somos nós que criamos todos e cada um dos obstáculos no nosso caminho para a felicidade.

Eu já li a minha dose de livrinhos de auto-ajuda e sempre que tentei aplicar o que aprendi descobri que não conseguia sozinho. Era por causa das outras pessoas. Por melhor que seja a minha gestão do tempo há sempre pessoas com problemas urgentes para resolver, pessoas que vêm meter conversa, e todas as outras interrupções que fazem parte do dia-a-dia de trabalho.

Depois há aquela frase que diz que antes de se diagnosticar como incompetente, assegure-se que não está rodeado de imbecis. A nossa atitude depende dos outros. E isso não é um problema. Deve ser mesmo assim. Não devemos conviver com pessoas injustas ou pessoas que gostam de fazer mal aos outros e continuar a manter uma atitude positiva, como se nada fosse. Até nas empresas, ou se calhar nas empresas mais do que em qualquer outro sítio, são precisas pessoas que lutem contra a injustiça e a maldade. Ignorar não é otimismo, é cobardia.

Mas mais importantes do que todas as dificuldades que os outros criam, é toda a ajuda e toda a energia que podemos ganhar com os outros e toda a ajuda que os outros nos podem dar.

Esta é a mentira dos livrinhos de auto-ajuda. É que temos que fazer tudo sozinhos, que o melhor é dependermos de nós próprios. Que a melhor maneira de melhorar é sozinhos, connosco próprios, a melhorar a nossa atitude e as nossas competências. Não é nada. É melhor com os outros. É melhor juntos.

Quando trabalhamos juntos, ajudamo-nos uns aos outros a fazer o que é importante e apoiamo-nos uns aos outros na difícil tarefa de recusar o que é urgente. Quando trabalhamos juntos aprendemos uns com os outros que não faz mal ficarmos tristes com as contrariedades. Juntos conseguimos resistir melhor à opressão do positivismo e do otimismo. Mas mais importante do que tudo, é que com os outros descobrimos o valor humano de nos focarmos no desenvolvimento dos outros em vez de nos centrarmos em nós próprios.

Esta conclusão pode parecer óbvia, mas então porque é que achamos que é em nós que reside o problema e que sozinhos somos a solução. Não somos. É mentira.

Está na hora de parar de ver TED talks e de ler livrinhos de auto-ajuda e começar a encontrar o nosso grupo. Não é para fazer networking. É para crescermos. Juntos.

Nota: Caros leitores, quero dar-vos a oportunidade de reconhecerem o meu trabalho quando escrevo um texto de que gostem. É fácil, basta usar a minha página ko-fi. Obrigado.

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João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais