O meu artigo deste mês é uma reflexão sobre uma das lições mais importantes que aprendi com o meu filho: que vale a pena trabalhar em “modo pesadelo”.

A semana passada, o meu filho começou (e acabou) um videojogo chamado Sekiro, Shadows die twice. O Sekiro pertence a uma categoria de videojogos chamada jogos tipo Souls. O nome desta categoria vem de uma série de jogos chamada Dark Souls. É uma categoria de jogos de combate estupidamente difíceis em que é preciso combater contra o mesmo adversário dezenas de vezes até conseguir finalmente ganhar. A atração deste tipo de jogos é a sensação de realização quando se consegue finalmente derrotar um adversário depois de tentar e falhar vezes e vezes seguidas, durante várias horas, e às vezes vários dias. No Dark Souls, não dá para escolher. O jogo é mesmo difícil. Mas é possível replicar a experiência do Dark Souls em muitos outros jogos, escolhendo jogar o jogo no “modo lendário” ou “modo pesadelo”.

Olhando para trás, acho que a minha motivação na minha vida profissional é mais ou menos parecida com o que leva o meu filho a gostar de jogar o Dark Souls ou o Sekiro. A minha carreira como investigador e escritor resultou num número relativamente pequeno de artigos publicados em revistas científicas onde é extremamente difícil para mim publicar. Foi um processo parecido com lutar contra um monstro gigante e assustador, em que perdi muitas vezes. Mas depois, quando consegui ganhar houve uma verdadeira sensação de vitória.

Tal como nos jogos, muita gente gosta de ter uma carreira no modo de dificuldade “normal”. E não há nada de errado nisso. É uma carreira em que as pessoas fazem aquilo em que são boas. O sucesso vem da aplicação de talento e conhecimento. E para este tipo de carreiras que somos empurrados desde pequenos com a ajuda dos pais e dos orientadores vocacionais, das notas na escola e das promoções a aumentos no trabalho. Os “memes” motivacionais também ajudam, como aquele bonequinho do ikigai que diz que o que devemos fazer na vida é aquilo em que somos mais competentes.

Uma carreira em modo de dificuldade “pesadelo” parece muitas vezes uma série de fracassos com uma vitória de vez em quando. Parece não fazer sentido nenhum. Parece ser uma estupidez. Parece ser muito pior do que fazer aquilo em que somos bons. Mas o que eu aprendi com o meu filho é que em cada derrota aprendemos um bocadinho mais, até aprendermos o suficiente para derrotar um monstro que ao princípio parece ser impossível -o meu filho demorou um par de semanas a passar o primeiro Dark Souls que jogou. Passou o Sekiro em três dias.

Para muita gente não vale a pena. O Sekiro tem muitas críticas negativas a dizer que o jogo é demasiado difícil. As vezes a nossa carreira também pode ser assim. Mas a recompensa é enorme quando conseguimos falhar o suficiente para derrotar cada um dos “monstros impossíveis” que vão aparecendo no caminho. Conseguimos vencer um desafio que muitas outras pessoas não se atrevem sequer a tentar. Por isso, eu acho que vale a pena jogar o jogo do trabalho em “modo pesadelo”.

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João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais