Opinião

Tempo de reconstrução

Carlos Vasconcellos, presidente executivo da Quantico SA

O ano de 2020 chegou ao fim e deixou um mar de destroços a todos os níveis: sanitário, sentimental, familiar e empresarial. O ano de 2021 começa com uma luz de esperança devido ao início de programas de vacinação em todo o mundo e, naturalmente, também em Portugal.

Sabemos que temos à nossa frente meses ou anos de angústia e espera, até atingirmos na maior parte dos países do mundo níveis de imunidade coletiva confortáveis.

Em Portugal, poderemos esperar que até ao fim do ano, a maioria das pessoas que quiserem ser vacinadas, terão essa oportunidade, e em 2022, no que respeita à Covid-19, pensamos vir a ter uma solução sanitária estabilizada. Entretanto, o efeito devastador deste último ano e próximos meses na economia é avassalador, sendo os países do sul da Europa, onde se inclui Portugal, os que mais tempo levarão a retomar os índices de desenvolvimento económico de 2019.

Esta situação é tão mais preocupante para o nosso país se considerarmos que nas últimas décadas temos vindo a ser ultrapassados em termos de capacidade de produção de riqueza por quase todos os países europeus, e muitos outros a nível global.

Esquecendo o sistema político – que em nossa opinião deveria ser muito mais “amigo do investimento” (particularmente na fase pós-Covid) – os nossos calcanhares de Aquiles chamam-se: produtividade e inovação.

Trabalhamos mais horas, mas produzimos muito menos do que a maioria dos nossos concorrentes e parceiros comerciais. Nos últimos 10 anos, o crescimento de faturação média das empresas em Portugal foi 0%! Este número é assustador, e se não tomarmos medidas profundas de alteração estrutural do tecido produtivo, dentro de uns anos somos ultrapassados por todos os países da Europa e um largo número de países a nível mundial.

Os motivos são variados, mas claramente acentuaria dois: o enorme défice de gestão das empresas portuguesas e o baixo grau de digitalização/inovação das mesmas, com destaque para as PMEs que constituem quase todo o tecido empresarial.

O caos de 2020, deve, porém, servir para tirarmos algumas importantes conclusões:

  1. Os sistemas de saúde estão profundamente desajustados aos riscos da nossa sociedade e necessitam de níveis de investimento e modernização profundos, que só uma inteligente colaboração entre o setor público e privado permitirá, sendo indispensável um aumento de qualificação dos recursos humanos. Este é um setor absolutamente prioritário em termos de investimento, já que a Covid-19, no mínimo, veio-nos dar uma lição de humildade e expor, tanto em Portugal como em todo o mundo, as enormes debilidades dos atuais sistemas de saúde.
  1. As empresas mais do que nunca precisam de investir em conhecimento, experiência e inovação disruptiva. Há que alterar profundamente os modelos de negócio e conseguir que as nossas empresas tenham crescimento sustentado.
  1. A janela de oportunidade é curta e muito competitiva, pois as ajudas europeias para a reconstrução das economias são limitadas no tempo e disputadas por muitos. É absolutamente imperativo que todo o dinheiro que venha da Europa, nas suas variadas formas, seja investido para conseguir alterar esta estagnação empresarial portuguesa que é uma verdadeira espada sobre as cabeças das gerações do futuro, particularmente se nos recordarmos que atingimos os maiores níveis de endividamento de sempre.
  1. Ganhos importantes de produtividade só são possíveis com uma forte aceleração dos processos de digitalização das empresas e políticas de inovação que permitam a única saída para o Portugal que queremos para as próximas gerações: crescimento económico e produção de riqueza.

Do que precisamos para aproveitar o que aprendemos com os erros cometidos e desafios sentidos? Vontade de melhorar, capacidade para inovar e competências de gestão para assegurar a eficácia das estratégias definidas e processos de mudança. Em Portugal tudo isso existe.

Somos um povo que sempre foi curioso e propenso a aceitar o novo, que ao longo dos séculos foi capaz de descobrir o que ninguém pensava que existisse e conseguiu desenvolver processos diferentes… e temos, nos dias de hoje, um enorme potencial de capacidades de gestão em gestores experientes e com provas dadas que estão prontos para assegurar o sucesso desta próxima reinvenção do nosso país.

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Carlos Vasconcellos, gestor e empreendedor com vasta experiência em gerir negócios em mais de 20 países, é fundador e Presidente Executivo da Quantico-SA.

Com experiência na gestão de empresas cotadas e não cotadas, foi CEO de algumas das maiores empresas portuguesas e brasileiras, entre as quais PT Comunicações, PT Internacional, Telesp Celular e Global Telecom. Também foi membro do Global Board de uma das maiores empresas multinacionais de serviços de informação e consultoria, a DUN & Bradstreet Corporation, EUA.

Tem igualmente, experiência em pequenas e médias empresas e start-ups, além de ser membro do conselho de administração de várias empresas nacionais e internacionais, nomeadamente de um grande fundo imobiliário.

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