Com a situação no terreno a mudar constantemente, não é possível prever qual será a duração, a intensidade ou o nível de dispersão da epidemia de coronavírus. Consequentemente, também não é possível termos uma estimativa credível do seu impacto económico.

A nível global, a redução da procura nas áreas mais afetadas e as perturbações nas cadeias de abastecimento são já uma realidade, bem como os efeitos nas atividades relacionadas com o turismo. O impacto também é visível nas bolsas mundiais e nos preços do petróleo, que caíram mais de 20% desde janeiro, refletindo perspetivas de uma redução da procura.

Em Portugal, os efeitos ainda são limitados. As perturbações no funcionamento das empresas por falta de matérias-primas ou componentes importados são, para já, pontuais e, de uma forma geral, têm sido supridas (embora implicando agravamento de custos). No entanto, os setores ligados ao turismo sentem já uma redução significativa da procura, com cancelamentos de reservas e um sentimento generalizado de retração do mercado.

Não ficaremos, decerto, imunes a efeitos mais gravosos, num futuro próximo.

Tendo em conta as quatro a seis semanas de que demora o envio, por via marítima, de um contentor da China para a Europa, os efeitos das paralisações chinesas serão sentidos na Europa com um atraso considerável. Espera-se, por isso, ao longo deste mês, o agravamento de perturbações nas cadeias de produção das empresas europeias que dependem de fornecedores chineses. Essas perturbações implicarão, por sua vez, reduções de encomendas dirigidas a empresas portuguesas. Tudo depende de como a situação venha a evoluir, da retoma da atividade industrial na China, que parece estar já em curso.

É essencial seguir de perto a situação dos fornecedores e clientes para avaliar com realismo eventuais perturbações que possam surgir para a atividade. A partir dessa avaliação, haverá que antecipar soluções, procurando, se for caso disso, alternativas no mercado ou ajustamentos na produção.

Quanto aos efeitos da difusão da epidemia na Europa [já declarada pandemia pela Organização Mundial de Saúde*] e, em particular, em Portugal, a incerteza ainda é grande. Em todo o caso, estou confiante que a situação é gerível. Exige, certamente, prudência e prevenção, mas nunca alarmismos contraproducentes, para que não se crie o pandemónio a anteceder a pandemia.

Tudo indica que, embora significativo, o impacto económico seja passageiro, uma vez que não estamos perante uma crise de natureza estrutural. A recuperação dos efeitos nas empresas será mais dilatada no tempo do que a normalização da situação em termos de saúde pública, mas não deixará de se materializar.

Contudo, este episódio vem demonstrar (se tal fosse ainda necessário) que as profundas mudanças na organização da produção mundial trazem consigo novos riscos.

Num mundo em que a produção de bens e serviços se fragmentou em redes densas, complexas e geograficamente dispersas, as economias tornam-se mais interdependentes e as empresas estão mais vulneráveis a perturbações que possam surgir em qualquer um dos inúmeros elos das cadeias de valor onde se inserem.

Neste contexto, a adaptabilidade e flexibilidade das empresas nas respostas a alterações imprevisíveis dos mercados tornam-se vantagens competitivas cada vez mais relevantes nos mercados mundiais. Esta é uma realidade que deve estar presente tanto na gestão das próprias empresas como nas decisões políticas que afetam a sua envolvente.

Outra lição que poderemos retirar é a dos riscos decorrentes da grande dependência da produção industrial da Europa relativamente à China. A União Europeia precisa de conceber e implementar uma estratégia capaz de inverter o declínio e assegurar o fortalecimento da sua base industrial. Uma base industrial que não poderá deixar de estar inserida em cadeias de valor globais, mas que deve salvaguardar a necessária autonomia, evitando, sobretudo, dependências excessivas de uma única economia.

Espero que a estratégia industrial que em breve será apresentada pela Comissão Europeia sirva de facto para reforçar a liderança da Europa na era da globalização.

* Nota da redação do Link To Leaders.

Comentários

Sobre o autor

Avatar

António Saraiva nasceu em novembro de 1953 em Ervidel. Diretor da Metalúrgica Luso-Italiana desde 1989 e administrador a partir de 1992, adquiriu a empresa ao Grupo Mello em 1996, sendo atualmente presidente do conselho de administração. Começou a sua carreira... Ler Mais