O comércio eletrónico acelerou fortemente em Portugal com a pandemia. Há dados que apontam para um crescimento de 80% neste último ano e meio, valor que traduz um aumento exponencial quer do número de compradores online, quer do volume e frequência das compras digitais.

A crise sanitária impulsionou a transformação digital dos negócios, ao mesmo tempo que alterou profundamente os hábitos dos consumidores.

Contudo, no comércio a retalho a aceleração da transição digital não terá sido tão vigorosa como noutros setores. Em 2021, a Sage publicou um estudo que concluía que 65% das empresas portuguesas de comércio a retalho não realizam vendas online e 45% não têm qualquer tipo de presença na net. Ou seja, não dispõem de um website ou de redes sociais próprias, limitando a sua atividade ao comércio mais tradicional.

Ora, com ou sem pandemia, o digital já nem é sequer uma questão de opção ou de oportunidade. Trata-se, sim, de uma inevitabilidade para quem queira fazer negócios num mercado global em que, cada vez mais, as compras se realizam pela internet. A questão está, portanto, na forma como as nossas empresas retalhistas se vão adaptar à revolução digital, de modo a responderem aos novos hábitos de consumo e a explorarem as potencialidades das inovações tecnológicas.

Os grandes obstáculos à transição digital no retalho são, segundo o mesmo estudo, a ausência de conhecimento e competências internas nas empresas, aliada à incapacidade financeira para investir no comércio eletrónico. O panorama não difere muito dos restantes setores, que vêm adiando a transformação digital dos seus negócios por falta de know-how e capital. A boa notícia é que o PRR prevê substanciais apoios à transição digital, quer sob a forma de incentivos financeiros, quer de ações de formação e qualificação.

No processo de transição digital do setor retalhista há vários fatores a ter em conta, desde logo a complementaridade entre as estruturas físicas de venda e as lojas virtuais. Não é de prever a imediata extinção do comércio tradicional, pois até a Amazon está a apostar em lojas físicas. Os dois tipos de comércio, tradicional e online, vão coexistir, embora as lojas físicas tendam a ser apetrechadas com mais tecnologias digitais. É disso exemplo a primeira loja autónoma (sem caixas de pagamento) do Continente, que abriu recentemente.

Acresce que o ecommerce tem levado à multiplicação de novos métodos e ferramentas de pagamento, que apresentam em comum a desmaterialização do dinheiro. Ora, esta tendência abre a porta a outro desafio para as empresas: a cibersegurança. Qualquer empresa que queira prosperar no comércio eletrónico tem de garantir segurança nas transações e transmitir confiança aos e-shoppers, caso contrário perderá irremediavelmente clientes.

Por fim, o ecommerce obriga as empresas a repensarem as suas cadeias de abastecimento. Além dos softwares de análise big data, há hoje um conjunto de tecnologias que prometem revolucionar as redes de logística e distribuição. A internet das coisas, os drones ou os veículos sem condutor, por exemplo, são uma realidade ao virar da esquina e vão modificar radicalmente a forma como os produtos chegam aos consumidores.

Notícias recentes que dão conta da abertura de lojas autónomas, lojas scan & go, darkstores, provadores virtuais e espaços click & collect parecem indiciar que algo está a mudar no retalho português… Mas há ainda um longo caminho a percorrer e a chave do sucesso pode estar na capacidade de adaptação. As empresas têm de saber acompanhar a evolução dos hábitos e necessidades dos consumidores, assumindo as soluções de ecommerce mais adequadas ao seu caso.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso... Ler Mais