A responsabilidade individual não se esgota na nossa existência ou na quantidade de dióxido de carbono que individualmente produzimos. O que nos torna responsáveis, para além do cumprimento do quadro legal e regulamentar da sociedade em que estamos inseridos, adquire-se quando agimos em função do próximo e do coletivo, para assegurar o futuro. Porém, só o asseguramos se garantirmos o presente.

Garantir o presente obriga-nos a desenvolver a responsabilidade de possuir, efetivamente, uma responsabilidade individual e coletiva. Mas essa responsabilidade individual não existe quando pagamos os nossos impostos, quando respeitamos e cumprimos as regras de trânsito, quando separamos o lixo ou quando cumprimos o dever de participação em cada ato eleitoral, por exemplo? Sim. Mas concordaremos que se todos os cidadãos assumissem e concretizassem, verdadeiramente, alguns destes deveres de cidadania, a sociedade estaria diferente e os desígnios seriam outros.

A responsabilidade de existir uma responsabilidade individual e coletiva, remete-nos para a noção do “cuidado” que devemos ter com cada um de nós e com aqueles com quem interagimos e nos relacionamos. Por entre os deveres profissionais e familiares, o “eu” tornou-se a grande urgência da ação. O que podemos fazer de diferente para melhorar o “eu” esteve, decerto, no pensamento de milhões de seres humanos que, na entrada do novo ano, projetaram desejos e mudanças. Qualquer que seja o nosso lugar na sociedade, a urgência da vida das pessoas exige determinação, lucidez, coragem, introspeção e ética.

Ética. A palavra de origem grega ethos, que significa “conduta”, “modo de ser”. A ética reporta-se a um conjunto de valores e de princípios que guiam e norteiam o caráter de cada um de nós. Mas estaremos, efetivamente, a calcorrear o caminho de acordo com os valores que possuímos? A urgência do “eu”, que permite assumir a responsabilidade individual e avançar para a responsabilidade coletiva, carece de muitos dos valores, das condutas e do modo de ser de cada ser humano.

Ainda que abordada na formação cívica, no ensino básico, e mais tarde na disciplina de filosofia, no ensino secundário, a ética não “se ensina”. Não é como o teorema de Pitágoras que nos instrui que “o quadrado da hipotenusa é igual a soma do quadrado dos catetos”. Nas instituições públicas e nas organizações corporativas e profissionais o conceito ético surge-nos na comunicação institucional, como elemento basilar e de referência estrutural, escrito com ênfase e envolto por adjetivos vigorosos.

Todavia, a cada dia que passa aumenta a velocidade com que desenvolvemos a capacidade mental, o conhecimento e a técnica. Essa velocidade é inversamente desproporcional quando identificamos a urgência de concretizar uma responsabilidade individual e coletiva.

A escola pode e deve ser o motor para resgatar o valor individual do ser humano, conferindo-lhe valores e práticas de sociabilização que reforcem a importância da ética, do “eu”, do “outro” e do “nós”, enquanto sociedade. Ainda que na génese da educação tenha estado o desígnio de “propiciar ao corpo e à alma toda a perfeição e beleza que podem ter”, como escreveu Platão, hoje, à escola, à educação e às estruturas de ensino superior, exige-se, por exemplo, que os professores façam investigação científica e escrevam artigos…

É difícil compreender porque é que se insiste em desenvolver o hominídeo em torno de uma falsa segurança de sobrevivência (com cada vez menos músculos, unhas e dentes) e se descura a importância da ética e dos valores mais puros e nobres da essência humana.

Sabemos que existem algumas instituições de ensino básico e secundário que estão conscientes e atuantes em torno deste desiderato individual e social. Mas são poucas, perante a premência do desafio da própria sobrevivência humana.

Há uma pergunta que fica para reflexão: quando é que devolvemos à escola e à educação a obrigatoriedade de resgatar a ética, a estética e a virtude humana?


João Caldeira Heitor é licenciado em Português/Inglês pelo Instituto Jean Piaget, tem um doutoramento em Turismo pela Universidade de Lisboa, é mestre em Educação e Administração Escolar pela Universidade de Évora e pós-graduado em Gestão de Bibliotecas Escolares, pelo Instituto Superior de Línguas Aplicadas.

Paralelamente é investigador colaborador do Centro de Investigação, Desenvolvimento e Inovação em Turismo (CiTUR Leiria). Além das diversas publicações efetuadas também é orador em vários congressos nacionais e internacionais. Ao longo do seu percurso profissional desenvolveu atividades de docência em diversas instituições de ensino superior. Atualmente é o secretário-geral do Instituto Superior de Gestão (ISG).

Comentários