“Somos o ponto de encontro do ecossistema fintech, juntando reguladores, bancos, empreendedores, especialistas, prestadores de serviços, investidores, estudantes e media”. É desta forma que Mariana Gorjão Henriques, Head da Fintech House, define o papel da Portugal Fintech que hoje, seis anos depois de iniciar a atividade, inaugura novas instalações e define novas metas para se posicionar como um dos principais hubs na Europa.

A Portugal Fintech inaugura hoje as suas novas instalações, um espaço de 2500 metros quadrados e 10 pisos preparado para acolher start-ups nacionais e internacionais, cumprindo o objetivo de chegar às 100 start-ups até ao final do ano e a missão de ser um dos principais hubs europeus de fintechs. Em entrevista ao Link To Leaders, Mariana Gorjão Henriques faz uma retrospetiva da atividade desenvolvida e fala das metas e tendências que prevê para os próximos anos no setor das fintech em Portugal, país que cada vez mais é visto como um centro de inovação fintech e um mercado atrativo para projetos internacionais.

A Portugal Fintech completou o sexto ano de atividade. Metas iniciais atingidas?
Num balanço dos primeiros seis anos da associação, sem dúvida consideramos ter alcançado as metas desenhadas. Mas, acima de tudo o propósito e a meta para o qual a Portugal Fintech foi criada efetiva-se no dia a dia. Atualmente, nós somos o ponto de encontro do ecossistema fintech, juntando reguladores, bancos, empreendedores, especialistas, prestadores de serviços, investidores, estudantes e media. Conseguimos oferecer serviços a start-ups em todas as frentes e áreas de desenvolvimento e essa era a real missão a que nos propusemos.

Com tem sido este percurso?
Na génese, a Portugal Fintech é uma associação sem fins lucrativos, não governamental e centrada em fazer crescer o ecossistema fintech português. Enquanto centro de empreendedorismo fintech, somos uma plataforma para todas as empresas fintech, insurtech, regtech e cybersecurity em Portugal interagirem com reguladores, legisladores, consultores, bancos, investidores e outras entidades relevantes.

A associação começou o seu percurso com eventos no Web Summit, em 2016, com o objetivo de ajudar as start-ups nacionais a ganhar tração junto de investidores internacionais. Em 2018, lançamos o primeiro Portugal Fintech Report, um estudo do ecossistema fintech português, com as principais start-ups e estatísticas do setor e que se tornou uma publicação anual.

Em 2019, lançamos em conjunto com os reguladores financeiros – Banco de Portugal, CMVM e ASF – o Portugal FinLab, o primeiro canal dedicado à comunicação entre as autoridades reguladoras portuguesas e os inovadores, sejam eles novos intervenientes no mercado ou instituições já existentes com projetos ou produtos financeiros inovadores de base tecnológica. Através deste programa, as autoridades fornecem orientações aos participantes sobre como navegar e operar no sistema regulatório.

Em 2020, nasceu a Fintech House, o hub, em parceria com a maior rede de coworks nacional, o sitio, pela necessidade de juntar num único local todo o ecossistema fintech. No primeiro ano, chegamos a 15 start-ups, ainda durante o período de pandemia, no segundo aumentamos para 40 e este ano temos mais de 80 start-ups, de todos os níveis de maturidade, o que demonstra a procura e o crescimento do setor fintech em Portugal.

Em 2021, é criada a Fintech Solutions, o braço de inovação da Portugal Fintech, criando uma oferta também para grandes instituições financeiras, como bancos e seguradoras, que procuram inovar com start-ups e criar novos produtos digitais.

Atualmente, a  Fintech House acolhe 35 start-ups presenciais e 45 remotamente. Quais as perspetivas de crescimento?
O objetivo é ajudar cada vez mais start-ups a crescer, e chegarmos às 100 start-ups até ao final do ano. Para tal este ano, mudamo-nos para um novo espaço de forma a conseguir chegar a esse objetivo. A nova sede, na Avenida Duque de Loulé, é um moderno edifício de 10 pisos, com 2500 metros quadrados e com 400 postos de trabalho disponíveis.

São várias as áreas desenhadas a pensar na colaboração: o piso 7 com lounge, copa e rooftop, para socialização entre as várias empresas; as salas de reunião disponíveis para receber investidores e parceiros; o auditório e sala de workshops que irão permitir que a Fintech House se mantenha o palco de eventos relevantes no setor.

No entanto, o espaço não servirá apenas a comunidade, sendo o piso 0 aberto com cafetaria, business lounge e open space, o local de trabalho ideal para conseguirmos receber mais digital nomads.

“A Fintech House oferece todas as ferramentas em contínuo para que uma start-up possa crescer (…)”.

O que é que efetivamente, e em termos práticos, a Fintech House pode fazer pelas start-ups que atuem neste segmento?
A Fintech House oferece todas as ferramentas em contínuo para que uma start-up possa crescer: acesso a talento e a investimento, conexão com players maduros como bancos e seguradoras, e suporte com a regulação. Cada start-up recebe oportunidades semanais, que vão desde convites para feiras de recrutamento, conferências, sessões de pitch a investidores, workshops sobre investimento e regulação, e sessões de mentoria.

Para ser membro da comunidade Fintech House existem duas formas, ou ter uma modalidade de espaço com o nosso parceiro sitio, que pode ir desde opções mais flexíveis como acessos a espaços comuns de trabalho ou a um escritório privado; ou ser um membro virtual, que apesar de não ter acesso ao espaço, tem acesso à comunidade e às diversas oportunidades.

Sendo uma associação sem fins lucrativos, qual o vosso modelo de negócio? Que parceiros estão neste projeto?
A Fintech House nasceu da colaboração da Portugal Fintech, associação sem fins lucrativos, com o sitio. O sitio é a maior rede nacional de coworks e responsável pela gestão toda do espaço. Contudo, contamos também com seis parceiros oficiais, essenciais para o funcionamento da Fintech House. São eles o Banco BPI, Fidelidade, INCM, KPMG, Morais Leitão e VISA, que apostam continuamente na inovação e tecnologia, trabalhando de forma próxima no apoio destas startups, com reuniões mensais de mentoria, conferências e workshops que promovem um diálogo aberto e partilha de conhecimento.

Têm conseguido pôr em prática os vossos planos de ligar o ecossistema português ao mundo? De que forma e com que iniciativas?
O ecossistema fintech está bastante globalizado e a ligação ao mundo surge impulsionada pelas nossas start-ups. A Fintech House contacta de forma regular com as suas congéneres europeias. Para além disso, enquanto membro da rede nacional de incubadoras, recebe start-ups de quase todas as partes do mundo como Brasil, Ucrânia, Espanha, França, Suíça, Reino Unido, entre outros.

Somos também o palco de inúmeros eventos internacionais, um deles o Ethereum Lisbon Hackathon que aconteceu em Lisboa no ano passado, e que mais uma vez pôs Portugal no mapa na área de cripto e blockchain. E ainda várias conferências do setor financeiro, onde se debateram temas como o euro digital, open banking, ESG, com participantes internacionais.

Neste momento, estamos também a preparar uma agenda própria para o Web Summit, com vários eventos paralelos, e que nos vai permitir acolher as fintechs que cá estarão durante a estadia.

“(…) este ano tivemos mais de quatro unicórnios fintech oriundos de outros países a expandirem-se para Portugal”.

Nos últimos tempos temos assistido à instalação em Portugal de muitas fintechs internacionais. Sendo Portugal um país geograficamente pequeno, de poucos consumidores, qual é na sua opinião o atrativo nacional para esta aposta de projetos internacionais no país?
Portugal tem sido visto cada vez mais como um centro de inovação fintech e um mercado atrativo para projetos internacionais. A prova disso é que este ano tivemos mais de quatro unicórnios fintech oriundos de outros países a expandirem-se para Portugal.

Há vários fatores chaves que explicam este fenómeno como a qualidade do talento do ensino superior em áreas tecnológicas e digitais, aptidão para línguas e o crescente número de talento altamente qualificado. Aliado claro a fatores cruciais como a qualidade de vida, segurança e clima.

Finalmente, Portugal é cada vez mais visto como uma porta de ligação à Europa, principalmente para países de língua oficial portuguesa. Como país geograficamente pequeno, permite que uma fintech conseguia testar o seu produto rapidamente e perceber se tem tração no mercado.

Portugal já pode afirmar-se como hub fintech a nível europeu? Porquê? O que nos caracteriza para atingir esse estatuto?
A motivação da Fintech House é ser um dos principais hubs na Europa para desenvolver start-ups fintech. Apesar do ecossistema estar a crescer a um ritmo acelerado e de ser cada vez mais visto como um destino de eleição para fintechs internacionais, o ecossistema português de start-ups ainda é a jovem.

Contudo, já há vários fatores que diferenciam Portugal a nível europeu, como o facto ser um hub de experimentação, de atuar enquanto porta de entrada na Europa para muitos países de língua portuguesa e de ter cada vez mais players maduros abertos a colaborações.

Por outro lado, nos últimos anos, Portugal tem-se destacado a nível europeu como um hub de criptomoedas e blockchain, concentrando um número crescente de empreendedores nestas áreas. De acordo com um estudo da Chainalysis em 2021, Portugal mostrou um volume total de transações em moeda criptográfica superior ao que se esperava considerando a dimensão da economia portuguesa. Em adição, no final do ano, Lisboa será palco também de vários eventos relevantes para a comunidade de blockchain e criptomoedas.

Porém, devemos também reconhecer que o percurso ainda é longo e que Portugal ainda não pode ser comparado a capitais europeias como Londres, mas é já um parceiro de eleição para colaboração.

“(…) o reforço da cibersegurança se torna essencial. Não há de ser por acaso que o primeiro unicórnio fintech português seja a Feedzai, uma empresa de cibersegurança”.

O setor das fintech tem sido rico em inovações e está a mudar forma como as pessoas lidam com as questões financeiras. Perante este cenário, como olha para as questões relacionadas com a cibersegurança?
À medida que os serviços financeiros se vão tornando cada vez mais digitais, a proteção de dados passa a ser uma preocupação maior, pelo que o reforço da cibersegurança se torna essencial. Não há de ser por acaso que o primeiro unicórnio fintech português seja a Feedzai, uma empresa de cibersegurança.

As start-ups beneficiam de uma vantagem a este nível, visto que não têm de lidar com sistemas legacy e estão preparadas para operar em ecossistema, por exemplo, em cloud. Obviamente não as isenta de riscos e a segurança no ecossistema fintech é crítica devido à perceção de confiança nos utilizadores. Veja-se o exemplo de plataformas de Exchange de criptomoedas, onde a confiança tem um papel fundamental, devido ao receio de perdas ou furto de ativos.

Porém, importa destacar também um tema que de alguma forma se relaciona com a cibersegurança – a literacia financeira e digital. A evolução rápida dos serviços digitais não tem sido acompanhada por uma igual evolução da literacia financeira. Os utilizadores devem compreender que comportamentos são mais arriscados e conseguir identificar potenciais fraudes nos serviços que consomem. Esta dimensão de uma utilização segura de serviços digitais é fundamental para o aumento de confiança e da penetração das fintechs nos hábitos de consumo.

O crescimento das fintechs transformaram o modelo tradicional associado ao mercado financeiro. Quais a principais tendências que se esperam na área da tecnologia e inovação aplicadas aos serviços financeiros?
Os últimos dois anos foram anos de afirmação e crescimento do setor fintech em Portugal, as start-ups começaram a ganhar maturidade, e tivemos algumas empresas a atingir o estatuto de unicórnio, a primeira das quais foi a Feedzai, seguida da Anchorage, o primeiro unicórnio de cripto com um fundador português.

Dados do último Portugal Fintech Report mostram verticais como a “cibersegurança e tecnologia de regulamentação”, “blockchain e criptomoeda” áreas que têm vindo a ganhar tração dentro do ecossistema, e com o maior financiamento em 2021, sendo que 80% das soluções são B2B. Este ano, tendências como a incerteza no mercado de venture capital vão levar a uma retração de novos investimentos no setor.

Paralelamente, aumentam as exigências dos consumidores, que privilegiam serviços cada vez mais ágeis, simplificados e digitais e, por isso, tecnologias de embedded finance, tecnologia que permite a qualquer empresa – independentemente da área de atuação – disponibilizar aos clientes produtos e serviços bancários, e não só, nas suas jornadas de cliente vão continuar a dominar o mercado.

O aumento da regulação e tendências como o ESG são tendências que também importam destacar, pois tem levado a um interesse crescente nestas soluções. Por fim, os próprios incumbentes, como bancos e seguradoras, estão cada vez mais a apostar em parcerias e abertos a testar novas soluções com players externos como start-ups.

Preparam-se para inaugurar um novo espaço, uma fintech house de dez pisos, e crescer para 400 postos de trabalho disponíveis para start-ups. Que ambições têm para esta nova fase da Fintech House?
A Fintech House tem um desejo de conseguir albergar mais start-ups e ser o parceiro em todas as suas fases de desenvolvimento. Se por um lado apoiámos os reguladores a criar o Portugal Finlab, hoje acreditamos que podemos ter um papel mais ativo a ligar start-ups à regulação nacional e a acelerar a experimentação no nosso ecossistema.

Por outro lado, acreditamos que temos de ser um parceiro também na internacionalização e estamos a preparar um trabalho de cooperação internacional para acelerar o crescimento das nossas scale ups.

Este novo espaço vai permitir que a Fintech House apoie mais as start-ups portuguesas e atraia novas start-ups de fora, que cada vez mais elegem Lisboa com referência da inovação fintech na Europa.

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