Portugal tem condições para criar três campeões deep tech até 2030, assegura relatório da PBS
O Deep Tech Portugal Outlook 2026, apresentado pela Porto Business School, revela que Portugal tem condições para criar dois ou três campeões globais de deep tech até 2030. Todavia, os desafios estão aí e os próximos 12 a 24 meses serão decisivos.
Espaço e Atlântico; Defesa e tecnologias de duplo uso; Inteligência artificial e tecnologias da linguagem; Semicondutores, fotónica e nanotecnologia; Saúde, biotecnologia e medtech; Economia azul, energia e tecnologias verdes são as seis áreas onde Portugal pode construir vantagens competitivas e ganhar escala, segundo o novo estudo da Porto Business School (PBS). E, se forem tomadas decisões estruturais nos próximos anos, o estudo estima que Portugal poderá criar dois ou três campeões globais de deep tech até 2030, mantendo no país a sede, a propriedade intelectual e a capacidade de decisão.
Apresentado esta semana, o Deep Tech Portugal Outlook 2026 – estudo desenvolvido por José Esteves, Dean da Porto Business School, Diogo Almeida Alves, diretor do Center for Entrepreneurship, Growth & Competitiveness, e Diogo Vieira da Silva, Head of Innovation X Hub, que analisa o estado da deep tech no país e identifica os principais bloqueios ao crescimento e as áreas onde o país reúne melhores condições para competir internacionalmente -, constata que Portugal já reúne ciência, empresas, talento e infraestruturas capazes de sustentar um ecossistema de deep tech competitivo. Contudo, o desafio está em transformar esse potencial em empresas de escala global e, sobretudo, assegurar que o valor criado permanece no país, alerta o relatório.
O Deep Tech Portugal Outlook mostra que Portugal tem vindo a reforçar a sua posição no ecossistema tecnológico europeu. Em 2025, o financiamento associado a deep tech no país rondou os 400 milhões de euros, aproximadamente três vezes o valor registado em 2018. Todavia, a análise revela que esse valor representa apenas cerca de 2% do capital investido na Europa. No mesmo ano, o mercado europeu de deep tech mobilizou 20,3 mil milhões de dólares, enquanto os Estados Unidos atingiram 144 mil milhões.
De acordo com o relatório da PBS, no caso português o caminho não passa por tentar replicar a dimensão dos maiores mercados, mas por concentrar recursos nas áreas onde capacidade científica, indústria, geografia e procura europeia se cruzam. Cita os casos da TEKEVER, Sword Health, Feedzai, Critical Manufacturing e Neuraspace como exemplos de empresas que demonstram que Portugal consegue desenvolver tecnologia com projeção internacional.
José Esteves, Dean da Porto Business School, chama a atenção para o facto de que “Portugal não precisa de competir em todas as frentes. Precisa de escolher onde tem ativos reais e aí concentrar capital, talento e procura. O objetivo não é apenas criar tecnologia; é manter no país as empresas, a propriedade intelectual e a capacidade de decisão”.
Mas desafios não faltam e o Deep Tech Portugal Outlook 2026 identifica quatro obstáculos estruturais que condicionam a capacidade de Portugal transformar conhecimento científico em empresas globais. São eles a falta de capital de crescimento após a Série A, limitando a capacidade das empresas para escalar a partir de Portugal; a transferência de tecnologia lenta, que dificulta a passagem da investigação para o mercado; a escassez de talento STEM, num contexto de forte concorrência internacional por profissionais altamente qualificados; e a baixa utilização das compras públicas como primeiro mercado, reduzindo as oportunidades para testar, validar e escalar tecnologia portuguesa.
O relatório destaca a necessidade de uma resposta coordenada para que não se corra o risco de criar conhecimento e empresas que acabem por transferir-se para outros países.
Áreas para ganhar escala
O estudo defende uma estratégia de especialização, em vez da dispersão de investimento por múltiplas áreas, e identifica seis nichos de deep tech onde Portugal pode construir vantagens competitivas. Uma seleção baseada em critérios como a capacidade científica existente, a procura europeia, as vantagens específicas de Portugal, a relevância para a soberania europeia e a possibilidade de atingir escala num horizonte de até dez anos. É aqui que surgem com grande potencial as áreas de Espaço e Atlântico, Defesa e tecnologias de duplo uso; Inteligência artificial e tecnologias da linguagem; Semicondutores, fotónica e nanotecnologia; Saúde, biotecnologia e medtech; Economia azul, energia e tecnologias verdes.
Com esta constatação, e mais do apresentar um diagnóstico, o Deep Tech Portugal Outlook 2026 propõe uma agenda de execução para os próximos 12 a 24 meses, associada a responsáveis, marcos de implementação e indicadores públicos. Desta forma, identifica aquelas que considera seis prioridades:
- Lançar um veículo nacional de financiamento de scale-ups, envolvendo o Banco Português de Fomento e investidores institucionais.
- Tornar o Estado “Cliente Zero” de tecnologia portuguesa, começando por áreas como defesa, saúde e empresas públicas.
- Normalizar os modelos de propriedade intelectual e de criação de spin-offs nas universidades e centros de investigação.
- Aumentar a capacidade nacional de captar financiamento europeu.
- Criar um painel anual de deep tech, medindo o que Portugal cria, retém e transfere ao nível de sedes, propriedade intelectual, emprego qualificado e capital.
- Expandir o pipeline de talento STEM, através de mais vagas, mais doutoramentos em TIC e políticas de atração e retenção de talento tecnológico.
Se estas medidas avançarem, o Deep Tech Portugal Outlook 2026 estima que Portugal poderá criar dois ou três campeões globais de deep tech até 2030. Salienta ainda que o objetivo não é apenas aumentar o número de start-ups ou o volume de investimento, mas sim criar empresas capazes de competir internacionalmente e, simultaneamente, manter em Portugal os ativos que determinam a criação de valor no longo prazo: sede, propriedade intelectual, talento e capacidade de decisão.








