Opinião
Porque é que tantas pessoas inteligentes acham que não são criativas?
Há uns dias, uma pessoa da minha equipa disse-me, quase em tom de desabafo: “Tenho receio de não ser suficientemente criativo.” Lembro-me de ter respondido quase sem pensar: “Não concordo nada.” E dei-lhe vários exemplos de criatividade quer no contexto profissional, quer na maneira como se veste e apresenta, entre outros.
E acho mesmo que andamos a limitar o conceito da palavra criatividade, e que isso nos limita a nós próprios nos nossos contributos e alcance do nosso potencial. Continuamos a associar criatividade a um perfil muito específico: artistas, designers, escritores, músicos ou publicitários. Claro que essas profissões vivem da criatividade. Mas estão longe de a esgotar.
Acredito que criatividade é criar. É inovar. É trazer algo novo ao mundo. Às vezes esse “novo” é uma coleção. Outras vezes é um negócio. Uma estratégia. Um processo. Uma forma diferente de explicar um produto. Uma narrativa. Uma pergunta que ninguém tinha feito. A criatividade estética é apenas uma das suas manifestações.
Há outra razão pela qual esta conversa me ficou na cabeça. Acredito mesmo que a criatividade é uma competência que se desenvolve. A Teresa Amabile, professora em Harvard, e uma das maiores investigadoras mundiais nesta área, fala sobre o facto da criatividade crescer quando alimentamos a curiosidade, acumulamos conhecimento e mantemos a motivação para experimentar. Quanto mais a exercitamos, mais forte fica. Trabalhar a cultura visual, ler fora da nossa área, viajar, conversar com pessoas diferentes, experimentar coisas novas ou simplesmente sair da zona de conforto são formas de alimentar esse músculo, cada um à sua maneira e nas áreas que mais o apaixonam.
Aliás, neste sentido lato, já vi a criatividade ser chamada de problem solving, estratégia, empreendedorismo ou inovação. Em consultoria, criávamos negócios que ainda não existiam, desenhávamos estratégias de crescimento, propúnhamos aquisições improváveis, reorganizávamos empresas e ligávamos pontos que ninguém tinha ligado antes. Nunca lhe chamávamos criatividade. Hoje chamar-lhe-ia exatamente isso. Talvez a diferença esteja apenas na forma como a criatividade se manifesta. Em alguns contextos é mais estratégica. Noutros é mais estética. Noutros ainda é operacional. Mas continua sempre a ser criação.
Hoje, numa marca de moda, a criatividade estética é naturalmente muito mais visível. Está no design de uma joia, numa campanha, numa montra ou numa fotografia. Mas algumas das pessoas mais criativas com quem trabalho nunca desenharam uma coleção. Vejo criatividade em quem simplifica um processo que nos fazia perder horas todas as semanas, em quem encontra uma solução prática para um problema recorrente, em quem melhora uma formação para as equipas de loja ou em quem tem uma ideia aparentemente pequena que desbloqueia a implementação de um projeto inteiro. As grandes ideias são normalmente as que recebem reconhecimento. Mas são muitas vezes as pequenas ideias que permitem que as grandes aconteçam.
Foi isso que me fez voltar à conversa com aquele colaborador. Talvez nunca venha a desenhar uma coleção ou a criar uma campanha publicitária de raíz. Mas a capacidade que tem para trazer ideias concretas, inovar na forma como trabalha, antecipar problemas e encontrar soluções práticas é, para mim, uma enorme manifestação de criatividade. E, se quiser, tenho a certeza de que ainda poderá desenvolver muito mais essa capacidade.
Quantas pessoas deixam de se considerar criativas porque nunca fizeram uma escultura, nunca escreveram um livro ou desenharam um produto? Será que um contabilista pode ser criativo?
Acho que sim. Quando encontra uma forma diferente de analisar um negócio, quando automatiza um processo, etc. Mas também quando explora os seus hobbies, fora do trabalho: quando lê, pinta, toca um instrumento, ou faz um curso de algo novo, etc.
Talvez um dos papéis mais importantes de um líder seja precisamente este: ajudar cada pessoa a descobrir em que dimensão da criatividade cria mais valor.
Resumindo, será que não temos tido uma definição demasiado estreita do que significa ser criativo? E que impacto é que isso terá no nosso espírito criativo e empreendedor?








