A PackIOT é global desde o primeiro dia. Da comunicação totalmente em inglês até à equipa que se encontra dividida entre o Brasil, Portugal e o Quénia, tudo nesta start-up, que quer melhorar a eficiência da indústria das embalagens, foi pensado para o mercado internacional.

Quer saber como está a produção na fábrica com a qual trabalha? A PackIOT tem a solução. Através de SaaS (software as a service), IoT e Data Science, a start-up desenvolveu um software para ajudar as empresas ligadas à indústria das embalagens a saber o que se passa nas fábricas, a qualquer hora e em qualquer lugar.

A ideia de criar a  PackIOT partiu de Cristiano Wuerzius, que já tinha trabalhado no setor de produção de embalagens durante mais de 10 anos na Europa e também para uma consultora alemã de melhoria de processos. Wuerzius percebeu que havia um gap entre a evolução do mundo tecnológico atual e a realidade nas fábricas. “Com a revolução dos smartphones isso ficou mais evidente: operadores e gestores sabiam quantos passos tinham dado num dia, mas não sabiam o estado da sua produção sem ir até lá ou ligar para alguém na fábrica. Daí surgiu a ideia de criar um software que fosse simples, acessível, fácil de instalar e de usar e que resolvesse um problema real das indústrias: como está a minha fábrica agora?”, explica o empreendedor em entrevista ao Link To Leaders.

Com clientes em países como Suíça, Canadá, Portugal, Hungria e Brasil, este ano a PackIOT tem o objetivo atrair investidores para financiar ainda mais o seu plano de expansão, garante o seu fundador. Nesse sentido está a tentar fechar uma ronda de investimento.

Como surgiu a PackIOT?
Como engenheiro mecânico, trabalhei a maior parte da minha carreira na produção industrial no Brasil, Alemanha e Suíça. Há aproximadamente cinco anos surgiu a oportunidade de trabalhar numa start-up, no seu estágio inicial. Foi um choque ver como as empresas faziam tanto com tão pouco, com uma mentalidade de interações rápidas, entregas pequenas, em que nada era um projeto gigante. Enquanto isso, a produção industrial seguia (e segue) usando software e sistemas muito complexos, feios e com péssima usabilidade.
Com a revolução dos smartphones, isso ficou mais evidente: operadores e gestores sabiam quantos passos tinham dado num dia, mas não sabiam o estado da sua produção sem ir até lá ou ligar para alguém na fábrica. Daí surgiu a ideia de criar um software que fosse simples, acessível, fácil de instalar e de usar e  que resolvesse um problema real das indústrias: como está a minha fábrica agora?

Que balanço faz destes dois anos de atividade?
Tem sido uma jornada muito dura e muito gratificante. Dura, porque a inovação sofre sempre resistência do status quo, do “sempre foi assim”. Por outro lado, tem sido muito gratificante por dois motivos essenciais: primeiro, pela equipa que conseguimos reunir. Pessoas muito qualificadas e com valores de transparência, hard work e centradas no cliente e, segundo, por vermos que estamos a conseguir resolver um problema real dos clientes, em diferentes países do mundo.

“Muitos acreditam que a ideia é tudo, enquanto nós acreditamos que o que vale é a execução. Quem não executa não erra!”.

Quais foram os grandes desafios que enfrentaram?
Quanto tempo tem? Pois a lista é longa! Brincadeiras à parte, gostamos muito de dizer que, no meio de tantas mensagens de positivismo de “you can do it” e de “é só visualizar”, pouco se fala sobre o quão duro é tirar um negócio do papel. Muitos acreditam que a ideia é tudo, enquanto nós acreditamos que o que vale é a execução. Quem não executa não erra! E os nossos dois primeiros anos foram de muita execução. Foi o período em que criámos o MVP do nosso produto, validamos com alguns clientes-piloto, conseguimos o primeiro cliente pagante, trouxemos a empresa para Portugal e agora estamos a tentar fechar uma ronda de investimento. Cada uma dessas etapas foi uma batalha por si só.

“Escolhemos o segmento de embalagens, que conhecemos bem e que é grande o suficiente (900 mil milhões de dólares [o equivalente a mil milhões de euros]).”

O que levou a PackIOT a ser uma empresa global deste o primeiro dia?
Na nossa visão de produto, sempre acreditamos que tínhamos que ter algo que fosse simples de usar e um plug and play. A maioria do software destinado à indústria requer muita personalização, consultoria e serviço. E nós decidimos mudar isso. E para mudar isso foi preciso focarmo-nos num nicho. Acreditamos muito em conquistar o mundo, um nicho por vez. Escolhemos o segmento de embalagens, que conhecemos bem e que é grande o suficiente (900 mil milhões de dólares [o equivalente a mil milhões de euros]). Ao segmentar a vertical, entendemos que não fazia sentido restringir também geograficamente o nosso mercado. Além disso, todos os sócios sempre foram um pouco “globe trotters” e gostam da ideia de construir algo global.

Como conseguem adaptar-se às regras de cada mercado?
O fato de termos focado a nossa solução num nicho que conhecemos bem e em que temos mais de 15 anos de experiência ajudou muito. É algo que já trouxemos na bagagem e que conseguimos colocar no produto.

E como conseguem atrair e reter talento internacional?
O fato de sermos globais, de termos uma mentalidade de trabalho remoto e uma cultura ágil ajuda muito. As pessoas têm gostado disso, de se unir a uma organização assim. Além disso, oferecemos um nível de transparência total entre todas as camadas da organização que propicia uma aprendizagem muito grande para quem está connosco.

Quantas pessoas trabalham na PackIOT?
Hoje somos 10 pessoas e devemos ser 30 até o fim do ano.

“Recolhemos dados de máquinas, complementamos com dados registados pelos operadores e entregamos dados que são “acionáveis” (…)”

Quais os serviços que disponibilizam?
Temos uma solução de analytics para a produção. Recolhemos dados de máquinas, complementamos com dados registados pelos operadores e entregamos dados que são “acionáveis”, ou seja, que podem ser usados diretamente para tomar ações de melhoria.

Quanto faturaram no ano passado e quanto esperam atingir este ano?
Por questões estratégicas, preferimos não divulgar a nossa faturação.

Neste momento qual o país mais representativo para a PackIOT em termos de faturação?
Hoje o Canadá, seguindo-se a Suíça e o Brasil. São os nossos principais mercados.

Até aqui têm trabalhado com capital próprio. Quanto investiram até agora?
Aplicámos cerca de 300 mil euros até ao momento.

Como disse há pouco um dos objetivos para este ano é passar por uma ronda de investimento. Onde irão aplicar o investimento que esperam receber?
Temos um produto que já foi validado por players de primeira linha em diferentes países, então a prioridade agora é dar escala para a equipa de marketing e vendas, aumentando a geração de procura, vendendo o que já temos no portefólio. Em paralelo iremos investir em desenvolvimento de funcionalidades de machine learning e inteligência artificial para detetar anomalias e sugerir melhorias, assim como melhorar o assistente virtual de fábrica que estamos a desenvolver, que responde a comando de voz.

“Queremos ser a maior plataforma de analytics para a indústria de embalagens e isso significa entregar muito mais que um software”.

Quais os projetos para o futuro?
Queremos ser a maior plataforma de analytics para a indústria de embalagens e isso significa entregar muito mais que um software. A nossa visão também é entregar conteúdo de valor e educação que traga mais eficiência para o setor. Ao auxiliar a cadeia produtiva a ser mais eficiente, podemos ainda ajudar a reduzir muito o impacto ambiental deste setor.

Estão a sentir os efeitos do Covid-19?
Felizmente ninguém da nossa equipa, clientes ou parceiros contraiu a doença e sabemos que a saúde é o que mais importa neste momento. Em termos de negócio, percebemos que algumas reuniões estão a ser adiadas. Porém grande parte dos projetos existentes estão a avançar normalmente. Temos a vantagem de sempre cultivar uma cultura de trabalho remoto e criámos processos que garantem que isso funcione, e essas atitudes ajudam-nos muito neste momento tão difícil. Acredito muito que, garantidas as medidas para preservar a saúde de todos, manter uma rotina alegre de trabalho passa uma mensagem importante para o mundo.

Que conselhos daria a um jovem empreendedor que quer internacionalizar o seu negócio?
Crie uma cultura de trabalho remoto o quanto antes na sua empresa, que permita formar uma equipa diversa trabalhando em diferentes fusos. E trabalhe de forma a conseguir projetos-pilotos o quanto antes em países distantes que coloquem os seus processos e produtos à prova, na mentalidade de fail fast and improve. Idealmente, os primeiros clientes não devem ter uma barreira linguística. A não ser que eu falasse árabe, eu não começaria pelo Médio Oriente, por exemplo.

Respostas rápidas:
O maior risco: Não crescer rápido o suficiente.
O maior erro: Na jornada empreendedora não há erros, só aprendizagens.
A maior lição: Lembrar de comemorar cada dia, cada pequena vitória pois as coisas não ficarão mais fáceis.
A maior conquista: Conseguir juntar uma equipa tão boa, desde os sócios até aos colaboradores.

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