Opinião

“Othering” – A legitimação da afronta

Mário Ceitil, formador e professor universitário

Uma das principais virtudes do nosso tempo é dar às pessoas reais possibilidades para escolherem os rumos das suas vidas, de acordo com idiossincrasias próprias e viverem em função das capacidades que conseguem mobilizar face aos inúmeros constrangimentos e condicionantes que são caraterísticas das sociedades altamente complexas.

Mas, como sempre acontece, o que é considerado um bem para uns não o é, de igual modo, para todos, num contexto onde as unanimidades e os consensos são realidades cada vez mais difíceis de obter e, sobretudo, de manter por muito tempo.

Assim, enquanto alguns valorizam muito a existência de amplas possibilidades de escolha, em cada vez mais vastos, numerosos e diversificados domínios da vida, outros, pelo contrário, consideram essas possibilidades como uma dificuldade, ao ponto mesmo de se poder sugerir que “o aumento da escolha pode atualmente contribuir para a recente epidemia da depressão clínica” (1).

Esta afirmação que, numa primeira leitura, pode parecer chocante e até desproporcionada, é explicada por Barry Schwartz no seu excelente livro “The Paradox of Choice”, que tem o sugestivo subtítulo de “Why More is Less” (2). Neste livro, o autor, ao investigar como e por que razão “a escolha nos pode fazer sofrer”(3), conclui que, muitas vezes, a existência de amplas possibilidade de escolha não torna as pessoas necessariamente mais felizes, porque as torna permeáveis a “processos psicológicos” como dificuldades de adaptação, arrepender-se mais tarde da escolha que fez e a ideia de que, perante tantas possibilidades, a escolha é sempre limitada e pode deixar o receio amargo de, ao escolher, se perderem outras e hipoteticamente mais promissoras oportunidades.

Mas, de todos estes processos é a possibilidade de existirem “sentimentos de inadequação na comparação com os outros” (4) que pode ter consequências mais devastadoras em termos pessoais, sobretudo quando a ansiedade da escolha se conjuga com sentimentos auto depreciativos e de falta de autoestima.

Quando estas situações ocorrem, as duas soluções mais típicas são:

– Ou as pessoas viram a sua ansiedade “para dentro”, e podem fazer um percurso mais ou menos longo de autoflagelação e culpabilização que não traz, obviamente, nada de bom para as suas capacidades de desenvolvimento e de crescimento;

– Ou, em vez disso, voltam-se “para fora” e veem na minimização do “outro”, através do protesto e da crítica constantes, uma forma de compensação catártica de uma frustração impenitente que, todavia, ao esconder-se sob a capa de uma atitude de intransigência e de “energia de lutador”, pretende transmitir uma aparência de grande força, quando na realidade oculta uma enorme fragilidade.

De assinalar que qualquer destes processos tenderá a aumentar à medida em que aumentem também as possibilidades de escolha, já que quanto mais alternativas existirem, maior poderá ser a dificuldade em selecionar e decidir qual a melhor opção.

Com isto, enfrentamos aqui um dos inúmeros paradoxos das nossas atuais sociedades abertas e democráticas, construídas laboriosamente para darem aos cidadãos maior liberdade e a possibilidade de um mais integral exercício do seu livre arbítrio, que são condições essenciais para a felicidade: é que a existência de maior liberdade, em vez de contribuir para aumentar a felicidade, pode exatamente conduzir ao seu contrário, na medida em que, num mundo que apela e favorece a existência de cada vez maior diversidade, as pessoas correm cada vez mais o risco de resvalarem para os universos caóticos da confusão e da insegurança, tendendo a generalizar-se aquele efeito conhecido de “não se saber verdadeiramente o que se quer”.

Esta situação, ainda para mais vivida nos contextos de uma sociedade cada vez mais volátil e instável, onde “muitas pessoas se sentem descrentes em relação ao futuro” (5) e com uma desconfiança também crescente na isenção e idoneidade dos seus dirigentes, leva ao disseminar de uma “ideologia de othering” (6), cujos sedimentos são justamente a descrença num futuro melhor e a radicalização de atitudes reativas centradas na oposição entre os “nós e os eles” (7).

Neste sentido, o/a “othering”, termo que, por dificuldade de transposição para português, poderíamos traduzir por “outralidade”, corresponde a uma atitude que se opõe inequivocamente a uma outra, a defesa da “alteridade” que, essa sim, consubstancia o verdadeiro sentido de uma sociedade aberta e democrática: enquanto a primeira constitui uma forma de legitimação de um discurso agressivo e intolerante em relação ao “outro”, a segunda celebra a diversidade e acentua a sinergia com esse outro como uma das formas mais ricas e criativas de aprendizagem.

Onde o/a “othering” procura e cultiva a oposição sistemática, a alteridade procura a complementaridade e o respeito pelos interesses do outro; onde  o/a “othering” joga na ameaça e na afronta permanentes, a alteridade procura o diálogo e a crítica construtiva; onde, em suma, o/a “othering” corresponde a uma atitude egocêntrica e procura reduzir a complexidade através da demonstração da iniquidade do outro, a alteridade celebra a complexidade, procurando e valorizando o contributo do outro como forma de enriquecimento pessoal.

Assim, e muito embora estas atitudes sejam ambas potenciadas pela espantosa riqueza e diversidade das sociedades abertas e cresçam na proporção em que essas sociedades também crescem, uma celebra-as, apostando claramente numa lógica de inclusão, a outra denigre-as, incentivando e fomentando as filosofias de exclusão.

Para as pessoas que perfilham as “ideologias de othering”, os “outros” são considerados inferiores e não merecedores de respeito, pelo que o insulto e a afronta são formas de comunicação muito frequentes. Para além disso, propagam e incentivam atitudes marcadas por um “locus de controlo externo”, onde cada um atribui aos “outros”, ou a condições e circunstâncias que lhe são alheias, a responsabilidade por tudo o que de mal lhe acontece. Com isso, conseguem obter um benefício para alívio da má consciência de não conseguirem o que pretendem, através de um estratagema que resolve as “dissonâncias cognitivas” resultantes desse sentimento de impotência. Um exemplo icónico desse estratagema encontra-se na famosa fábula da “raposa e as uvas”, atribuída a Esopo e mais tarde reescrita por La Fontaine, em que a raposa, para resolver a frustração de não conseguir chegar às uvas, penduradas numa videira alta, desiste de as tentar comer, com o argumento de que “estão verdes e não se podem tragar”.

Os potenciais danos das atitudes baseadas na “ideologia de othering”, assentes na crítica e acusação permanente, tornam-se mais críticos quando são feitas por pessoas, ou instituições que, em si mesmas e por emanação direta dos princípios e da responsabilidade de representação de uma sociedade democrática, deveriam ser os primeiros a dar o exemplo.

A esta luz, não deixa de ser inquietante assistirmos a certas “cenas eventualmente chocantes” naquela instituição que representa, em primeira mão, a ordem democrática da tolerância e da negociação: a Assembleia da República.

Dir-se-ia que, na instituição que representa a democracia e, portanto, a defesa dos princípios da liberdade e da valorização da diversidade, houvesse a exigida contenção para não se exibirem discursos e atitudes que destilam, em forma e em substância, ódio, agressividade constante e manifesta e grosseira rejeição das opiniões e perspetivas alheias.

Que exemplo dão ao país e aos cidadãos, deputados que gastam a maior parte das suas intervenções a denegrir as intervenções de terceiros, como se de quase facínoras se tratassem, quando, no fundamental, todos quantos ali estão têm a sua legitimidade garantida pelo voto popular?

Será que a defesa de um ponto de vista ou a apresentação de uma proposta têm de ser feitas sempre “contra” os pontos de vista e as propostas de outros”? Ou, em alternativa, não deveriam ser feitas em diálogos construtivos e na procura proativa de soluções realistas e duradouras?

E será que o discurso de “dizer mal do outro” é, em si mesmo uma boa estratégia de mobilização do voto popular?

Alguns poderão considerar estas perguntas ingénuas. Recordo, no entanto, que, nos contextos empresariais, onde os confrontos e mesmo as atitudes agressivas e persecutórias eram uma coisa muito frequente há várias décadas, associadas ao velho e pouco saudoso “mito do eterno culpado”, tem havido uma progressiva e consistente mudança de atitudes, hoje felizmente cada vez mais associadas e suportadas por modelos e filosofias que visam valorizar o “lado humano” da gestão, beneficiando práticas como a sinergia criativa e a incorporação proativa da diferença

Aqui chegado, deixo uma pergunta intencionalmente provocatória: será preciso levar alguns dos nossos gestores e líderes aos bancos da Assembleia da República, para ensinar práticas de negociação leal, de diálogo construtivo e de capacidade de escuta aos nossos deputados?

Claro que a pergunta é retórica. Estou certo, no entanto, de que a apresentação e a discussão de algumas das práticas de sucesso que têm sido seguidas em muitas empresas e organizações, dariam um contributo relevante para melhor se perceber a riqueza que se pode obter através do diálogo construtivo e da valorização do contributo do “outro” na construção de um melhor futuro para todos.

Referências:
(1) SCHWARTZ, B. (2004). The Paradox of Choice-Why More is Less. New York: HarperCollins Publishers.
(2) Idem
(3) Idem
(4) Idem
(5) Karthik Ramanna, Managing in the Age of Outrage, in Harvard Business Revue, The Best of HBR, Summer 2024.
(6) Idem
(7) Idem

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Mário Ceitil

Mário Ceitil

Licenciado em Psicologia Social e das Organizações pelo ISPA, Mário Ceitil é consultor e formador na CEGOC desde 1981, tendo participado em vários projetos de intervenção, nos domínios da Psicologia das Organizações e da Gestão dos Recursos Humanos, em algumas das principais empresas e organizações, privadas e públicas, em Portugal e em países da África lusófona. Integrou, como consultor, equipas internacionais do grupo CEGOS, em projetos europeus. É professor universitário, desde 1981, nas áreas da Psicologia das Organizações e da... Ler Mais..

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