Opinião

Novas siglas, velhas ideias. A gestão descobriu tudo outra vez?

Pedro Celeste, diretor-geral da PC&A
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Há uma característica curiosa no mundo da gestão que consiste na capacidade de atribuir novos nomes a ideias antigas, transformá-las em modelos, condensá-las em siglas e apresentá-las como se estivéssemos perante uma descoberta revolucionária.

A cada tendência corresponde um novo vocabulário, a cada conceito uma nova abreviatura e, por vezes, a cada ideia conhecida uma nova embalagem. O risco é confundirmos a novidade das palavras com a inovação do pensamento.

Veja-se o caso do ESG (Environmental, Social and Governance). A preocupação com o ambiente, a responsabilidade social e a boa governação ganhou uma visibilidade extraordinária, mobilizando empresas, investidores e reguladores, alinhados numa narrativa assente na sustentabilidade que é propagada continuamente. Mas será que a responsabilidade dos gestores, a transparência, a ética, a prestação de contas e a relação com as partes interessadas nasceram com esta sigla? Evidentemente que não. São princípios com uma longa história na gestão, na economia e na reflexão sobre o papel das empresas na sociedade. O ESG trouxe uma linguagem comum, maior visibilidade e instrumentos de avaliação, mas não inventou os fundamentos da boa governação.

Também a customer centricity parece, por vezes, uma nova descoberta. Colocar o cliente no centro das decisões tornou-se uma expressão recorrente nas dinâmicas de gestão. Contudo, a orientação para o mercado e a compreensão das necessidades dos clientes são fundamentos do pensamento de marketing há décadas. A novidade não está em reconhecer a importância do cliente, mas em conseguir traduzir esse reconhecimento em decisões, experiências e resultados. Quantas empresas afirmam ser centradas no cliente, mas continuam a organizar-se exclusivamente em função dos seus produtos, departamentos e conveniências internas?

Os influencers parecem representar outra revolução. As plataformas digitais permitiram que pessoas sem acesso aos meios de comunicação tradicionais conquistassem audiências e capacidade de influência. Mas a influência social é tão antiga como a própria sociedade. Líderes de opinião, especialistas, figuras públicas, amigos e familiares sempre condicionaram decisões de compra e comportamentos. O que mudou foi a escala, a velocidade, a visibilidade e a possibilidade de medir essa influência. A novidade está nos meios e nos mecanismos de amplificação, não na existência de pessoas capazes de influenciar as decisões dos outros.

Até os modelos de marketing merecem reflexão. O RACE (Reach, Act, Convert, Engage) organiza a atividade de marketing digital em torno da atração, interação, conversão e envolvimento continuado. É útil para estruturar ações e indicadores, mas não substitui os fundamentos do comportamento do consumidor explicado pelo modelo AIDA (Atenção, Interesse, Desejo e Ação), que data de 1899 e já procurava explicar ao impacto das ações de comunicação. Não são modelos idênticos, nem têm necessariamente a mesma finalidade. Mas o ponto não é esse. É que um modelo mais recente não representa, só por isso, uma compreensão mais profunda da realidade. A sua relevância depende daquilo que acrescenta, explica ou permite fazer melhor.

A  inteligência artificial (IA) oferece um exemplo particularmente interessante. A análise preditiva, a personalização, a automação e a antecipação do comportamento dos clientes ganharam capacidades extraordinárias. Mas os objetivos de compreender padrões, melhorar decisões, reduzir custos e aumentar a eficácia são antigos. A IA introduz novas possibilidades de escala, velocidade e aprendizagem, alterando significativamente aquilo que conseguimos fazer. Seria, por isso, errado reduzir a sua importância a uma simples mudança de nome. Mas seria igualmente errado confundir a tecnologia com a estratégia. Dispor de algoritmos sofisticados não dispensa saber que problema queremos resolver, que valor pretendemos criar e como mediremos os resultados.

Esta proliferação de siglas tem um efeito perverso quando a complexidade do vocabulário esconde a simplicidade da questão que precisamos de resolver. Multiplicam-se frameworks, matrizes e metodologias que acrescentam etapas à análise sem melhorarem necessariamente a qualidade das decisões. As empresas aprendem a falar uma nova linguagem, mas nem sempre aprendem a pensar melhor. E os gestores têm mais facilidade em aplicar o modelo da moda do que em compreender o problema concreto que têm diante de si.

Não creio que se devam rejeitar as novas siglas nem idealizar o passado. A gestão evolui, o conhecimento acumula-se e as ferramentas melhoram. Acredito que precisamos de conceitos novos quando a realidade coloca problemas novos e de modelos diferentes quando os anteriores se revelam insuficientes. Mas essa evolução exige demonstração, não apenas entusiasmo. Fundamentos, não apenas terminologia. Resultados, não apenas apresentações apelativas.

A gestão precisa de inovação, mas também de memória. Precisa de novas ferramentas, mas não pode esquecer as teorias que sustentam a sua prática. Precisa de simplificar sem empobrecer, de aprofundar sem complicar e de distinguir a substância da forma.

Não é a sofisticação da sigla que cria valor. É a qualidade do pensamento que lhe dá sentido, a consistência com que o transformamos em ação e a capacidade de produzir resultados. As boas ideias não se tornam melhores por terem um nome novo. Tornam-se melhores quando compreendemos verdadeiramente o que explicam e sabemos utilizá-las para fazer melhor.

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Pedro Celeste

Pedro Celeste

Doutorado em Gestão pela Universidade Complutense de Madrid. Diplomado por Harvard Business School, INSEAD, MIT Management Sloan Management London Business School, Imperial College of London University of Virginia, Wharton School, Kellogg School of Management de Chicago e IESE Business School. Na Católica Lisbon School of Business & Economics é Diretor do Programa Avançado de Gestão para Executivos, da Pós Graduação em Marketing e Inovação, Sales Management and Brand Impact, Leading Pharma,  Programa Avançado em Gestão do Turismo e diversos cursos empresariais. Diretor... Ler Mais..

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