Desigualdade começa antes do primeiro emprego: homens esperam ganhar mais 12% do que as mulheres

Foto de Yamu_Jay por Pixabay

Estudo da Magma Studio revela diferenças nas expectativas salariais dos jovens e mostra que Portugal continua a ser o destino preferencial para iniciar carreira. Google, Microsoft e Deloitte lideram o ranking das empresas mais atrativas para estudantes universitários e recém-diplomados.

Os estudantes universitários e recém-diplomados portugueses esperam receber, em média, 1.325 € líquidos por mês no primeiro emprego, numa altura em que o salário, estabilidade e progressão profissional assumem um peso crescente nas decisões de carreira. Segundo a 10.ª edição do Estudo das Empresas Mais Incríveis de Portugal (EMIP), desenvolvido pela Magma Studio, os homens apontam para um salário médio de 1.412 € líquidos mensais, enquanto as mulheres indicam 1.261 €, revelando uma diferença salarial de 12% ainda antes do início da vida profissional.

“Quando observamos que os homens esperam ganhar mais 12% do que as mulheres ainda antes de entrarem no mercado de trabalho, percebemos que a discussão não pode limitar-se às políticas remuneratórias das empresas. A diferença surge antes do primeiro contrato, antes da primeira avaliação de desempenho e antes da primeira promoção”, explicou Miguel Gonçalves, CEO da Magma Studio, ao Link to Leaders.

“O que estamos a medir não são salários, mas expectativas. E as expectativas são profundamente influenciadas pelo contexto cultural, pela educação, pelos modelos de referência e pela forma como cada pessoa aprende a valorizar o seu próprio contributo. Diversos estudos internacionais têm demonstrado que os homens tendem a definir objetivos salariais mais ambiciosos e a negociar de forma mais assertiva, enquanto muitas mulheres adotam posições mais conservadoras, mesmo quando apresentam níveis de desempenho e qualificação equivalentes”, acrescentou o responsável.

Segundo o estudo, num contexto em que o custo de vida (16%), a crise da habitação (11%) e a instabilidade política e económica (11%) estão entre as principais preocupações dos jovens, a expectativa salarial ganha uma relevância acrescida. Esta pressão económica reflete-se nos objetivos de carreira: a principal ambição da nova geração é encontrar um emprego estável e com perspetivas de progressão.

Embora 83% dos jovens prevejam começar a carreira em Portugal, os 17% que ponderam emigrar fazem-no sobretudo por razões económicas. Entre estes, 40,7% apontam salários mais elevados como principal motivo para procurar oportunidades fora do país, seguindo-se as melhores oportunidades de formação e progressão profissional, referidas por 30%. A mobilidade não se limita ao estrangeiro. Cerca de dois terços dos jovens inquiridos admitem mudar de cidade ou região por uma oportunidade profissional, mostrando-se disponíveis para se deslocar quando a proposta de valor justifica a mudança.

“Esta geração já não olha para a carreira de forma geograficamente limitada. Um jovem pode começar a trabalhar em Lisboa, receber uma proposta de Madrid, colaborar remotamente com uma equipa em Berlim e, alguns anos mais tarde, mudar-se para Amesterdão. A concorrência pelo talento deixou de ser local. É por isso que as empresas portuguesas não devem interpretar este resultado como uma garantia de retenção. Conseguir atrair talento é hoje relativamente fácil. O verdadeiro desafio é criar razões para que esse talento queira ficar”, diz Miguel Gonçalves.

O CEO da Magma Studio refere que “quando falamos com jovens talentos percebemos que muitos não procuram apenas ganhar mais. Procuram crescer mais depressa. Procuram ambientes onde possam aprender, assumir responsabilidades, trabalhar com pessoas competentes e visualizar um futuro profissional estimulante. Em muitos casos, aquilo que leva um profissional a sair não é apenas a diferença salarial. É a perceção de que a sua evolução estagnou”, reforça.

Ainda de acordo com o estudo, a crescente digitalização dos processos de recrutamento está também a gerar apreensão junto do talento jovem com mais de um quarto dos inquiridos a acreditar que os processos de seleção serão cada vez mais filtrados por Inteligência Artificial. Neste contexto, a possibilidade de exclusão por algoritmos sem qualquer explicação ou feedback surge como uma das preocupações associadas à entrada no mercado de trabalho.

Neste sentido, Miguel Gonçalves acredita que “a IA pode ser extremamente útil em tarefas como triagem de candidaturas, identificação de competências, gestão de grandes volumes de candidatos ou agendamento de entrevistas. Em mercados onde uma única vaga pode receber centenas de candidaturas, é praticamente impossível manter processos eficientes sem algum nível de automação”.

“O problema surgirá se a tecnologia deixar de ser uma ferramenta de apoio e passar a ser uma caixa negra que toma decisões sem transparência. Os candidatos aceitam que exista tecnologia no recrutamento. O que dificilmente aceitarão é não compreender como estão a ser avaliados ou sentir que estão a ser excluídos por critérios invisíveis”, diz.

O CEO defende também que, no futuro, os melhores processos de recrutamento não serão aqueles que usam mais Inteligência Artificial. “Serão aqueles que conseguem combinar a eficiência da tecnologia com aquilo que continua a ser exclusivamente nosso: o discernimento, a empatia e a capacidade de reconhecer potencial para além do currículo”.

Google, Microsoft e Deloitte são as empresas mais atrativas

No ranking global das empresas mais atrativas para estudantes universitários e recém-diplomados, a Google mantém a liderança, seguida da Microsoft e da Deloitte. BMW Group, Sonae, EDP, Bosch, Siemens, Mercedes-Benz e PwC completam o Top 10.

A nível de setores preferenciais para a entrada no mercado de trabalho, as Tecnologias da Informação e Comunicação surgem como o setor mais atrativo, seguindo-se Consultoria, Automóvel e Transportes, Bens de Consumo e Banca e Seguros.

O EMIP mostra que atrair talento jovem já não depende apenas da notoriedade da marca empregadora. Os jovens procuram organizações capazes de oferecer remuneração competitiva, oportunidades de aprendizagem, qualidade de vida, estabilidade e oportunidades de progressão profissional.

O estudo recolheu 5.499 respostas, com uma amostra maioritariamente composta por participantes do género feminino (57%), enquanto os participantes do género masculino representam 42%. Em termos de área de formação ou atividade, 38% dos inquiridos pertencem à área de Tecnologia, 38% à área de Gestão e os restantes 24% distribuem-se por outras áreas de conhecimento.

 

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