Opinião

Sem surpresas em Frankfurt!

Paulo Doce de Moura, Investment Advisor do Banco Carregosa
Foto: Paulo Doce de Moura, Investment Advisor do Banco Carregosa

Como antecipado pelo consenso nas últimas semanas, o Banco Central Europeu aumentou em 25 pontos base as suas três principais taxas de juro na reunião de junho. O objetivo e o compromisso do Conselho do BCE, é definir uma política monetária que garanta a estabilização da inflação nos 2% no médio prazo.

No comunicado divulgado antes da conferência de imprensa, a guerra no Médio Oriente está a gerar pressões inflacionistas e a decisão de aumentar as taxas baseia-se num conjunto de cenários que descrevem a evolução do choque e o seu impacto nas perspetivas de médio prazo para a área do euro.

Uma decisão que, poderá revelar-se ineficaz, contrariamente aos seus objetivos, a zona euro corre o risco de endurecer a política monetária num contexto de fragilidade económica, uma escolha que poderá prejudicar o crescimento em vez de conter a inflação.

As perspetivas permanecem incertas, com riscos em alta para a inflação e riscos em baixa para o crescimento económico. Nas novas projeções do BCE, a inflação global deverá situar-se, em média, nos 3,0% em 2026, 2,3% em 2027 e 2,0% em 2028. Já a inflação excluindo energia e produtos alimentares deverá atingir uma média de 2,5% em 2026 e 2027 e de 2,2% em 2028.

Trata-se, portanto, de uma revisão em alta das projeções de inflação para este ano e para o próximo, devido ao aumento dos preços da energia, que deverá repercutir-se, em certa medida, na inflação dos alimentos, bens e serviços.

Por outro lado, o cenário de base aponta para um crescimento económico médio de 0,8% em 2026, 1,2% em 2027 e 1,5% em 2028. Trata-se de uma revisão em baixa para este ano e para o próximo, refletindo um impacto mais acentuado da guerra nos mercados de matérias-primas, nos rendimentos reais e na confiança. Por um lado, os custos energéticos persistentemente elevados ameaçam pesar sobre a atividade industrial e a procura dos consumidores em toda a Europa, sendo economias como a Alemanha e a Itália particularmente expostas a choques energéticos prolongados.

Por outro lado, o banco central continua a lidar com as consequências de ter mantido as taxas demasiado baixas durante demasiado tempo após a pandemia. A credibilidade é um elemento fundamental para as perspetivas de política monetária.

Os responsáveis de política monetária querem demonstrar firmeza no compromisso com a estabilidade dos preços, num contexto em que persistem riscos inflacionistas.

Trata-se de uma recalibração ponderada, uma subida das taxas que teria sido adequada em todos os cenários atualizados pelo BCE. As taxas de juro continuam dentro do intervalo neutro, que não trava nem estimula o crescimento económico.

A memória de 2022 continua muito presente. O BCE quer evitar as críticas recebidas na altura, quando se considerou que reagiu demasiado tarde. Esta subida envia uma mensagem clara, o banco central está determinado a não repetir o mesmo erro.

Decisão como um novo impulso para o setor bancário, especialmente para os bancos italianos, que apresentam uma maior sensibilidade às taxas de juro. Com a decisão, espera-se que taxas de referência mais elevadas sustentem a margem financeira líquida dos bancos e criem um contexto favorável para uma maior expansão dessas margens nos próximos trimestres.

A questão colocada, é saber se uma política monetária mais restritiva poderá realmente contribuir para conter as pressões inflacionistas sem penalizar ainda mais uma economia que já dá sinais de fraqueza.

À luz deste cenário, considera-se significativo o risco de a subida das taxas decidida hoje não se revelar sustentável ao longo do tempo e de se repetir o que aconteceu em 2011.

Nessa altura, o BCE aumentou as taxas para combater a inflação, mas poucos meses depois foi obrigado a inverter o rumo e a voltar a flexibilizar a política monetária perante a deterioração do enquadramento económico.

Com a decisão de junho, Christine Lagarde sublinhou que o BCE continua bem posicionado para enfrentar a incerteza causada pela guerra e que acompanhará atentamente a situação, adotando uma abordagem baseada nos dados e avaliando reunião a reunião qual a política monetária mais adequada.

E foi precisamente na conferência de imprensa, que se confirmou uma orientação reunião a reunião, com decisões de política monetária dependentes dos dados e dos efeitos de segunda ordem sobre a inflação, permitindo ao BCE manter abertas várias opções de atuação face à atual incerteza geopolítica.

A ênfase na dependência dos dados e numa abordagem baseada em cada reunião evidencia a determinação do banco central em evitar comprometer-se com um caminho pré-definido. Embora a subida possa não representar necessariamente o início de um ciclo prolongado de aumentos das taxas, o choque energético cria efetivamente margem para um novo endurecimento.

Ao mesmo tempo, o enfraquecimento do dinamismo económico levanta cada vez mais dúvidas quanto à rapidez e à dimensão das medidas que o BCE poderá implementar.

Ainda existe margem para duas ou mais subidas de taxas orientadas para a gestão do risco e destinadas a conter as pressões inflacionistas, embora as perspetivas de política monetária permaneçam altamente sensíveis à evolução da situação no Médio Oriente.

O próximo passo para a zona euro será uma nova subida das taxas no outono. O cenário base prevê apenas mais uma subida das taxas este ano. Se as tensões geopolíticas diminuírem, o preço do petróleo poderá recuar para perto dos 80 dólares por barril, ajudando a aliviar as pressões inflacionistas. Ainda assim, a incerteza continua excecionalmente elevada e, por isso, o BCE mostra-se relutante em comprometer-se com uma trajetória pré-definida de política monetária.

Ao definir a sua nova postura de política monetária como bem posicionada, o BCE poderá estar a sugerir que, neste momento, não está a preparar novos aumentos das taxas.

Existem ainda outros riscos para as perspetivas económicas relacionados com os efeitos cambiais, em particular se a Fed começar a sinalizar uma trajetória mais acomodatícia do que a esperada pelo mercado e o euro se apreciar, levando o BCE a adotar uma postura menos restritiva.

Além disso, aumentará a sensibilidade a uma eventual deterioração das relações entre a União Europeia e a China, bem como a possíveis medidas de retaliação que possam ter um impacto negativo na economia europeia.

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Paulo Doce de Moura

Paulo Doce de Moura

Paulo Doce de Moura exerce funções no Banco Carregosa e foi diretor do BNP Paribas Personal Finance. Estudou Relações Internacionais-Económicas e Políticas, na Universidade do Minho e Direção Geral de Empresas no Programa Avançado de Gestão para Executivos na Universidade Católica Portuguesa. Foi presidente de Direção da AIESEC (Association Internationale des Étudiants en Sciences Économiques et Commercialles) na Universidade do Minho, Coordenador Distrital Economia, Trabalho e Inovação no Conselho Estratégico Nacional e membro da Assembleia de Freguesia do Lumiar. Escreveu... Ler Mais..

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