O hiato provocado pela economia naquilo que era um percurso natural da evolução do mundo na sua vertente tecnológica e digital traz agora à luz do dia alguns dos possíveis efeitos provocados no equilíbrio de poderes entre as várias áreas geográficas.

À medida que a recuperação económica se vai fazendo lentamente, um pouco por toda a parte, parece acentuar-se a diferença na velocidade de crescimento entre os países que estão na liderança económica mundial e os demais. Previsões da OCDE antevêem que os Estados Unidos possam recuperar em 2021 exatamente aquilo que perderam no ano 2000 em termos de produção de riqueza, não tanto como a Europa, enquanto que a China crescerá cerca de 10%.

As mesmas previsões antecipam um período em que se reforçarão as diferenças de crescimento entre os 50 maiores países do mundo, apenas equiparável àquele que ocorreu na crise petrolífera de 1973. Só que por estes dias, é da tecnologia e da capacidade para liderar o futuro digital que falamos. Teremos um mundo menos igual.

A situação de partida para a nova lógica industrial também é determinante para explicar estas diferenças. É mais fácil operar a partir de grandes estruturas fabris apesar da distância dos mercados. Sempre que a cadeia de valor consegue baixar custos e fornecer em grande escala, sem perda de qualidade, estará mais próxima de ganhar o mercado. E desse ponto de vista ninguém está tão preparado como a indústria chinesa.

Também é verdade que os momentos vividos pelas economias, fruto do efeito pandémico, tornaram o mundo menos global e mais digital. Com o crescimento das áreas de negócio mais digitais, quem melhor estiver preparado para abraçar a liderança na inteligência artificial e na propriedade intelectual, mais perto estará de conhecer os mercados e os consumidores. É que ao entrarmos na 3.ª década deste século, ter a liderança tecnológica e digital com seis meses de avanço sobre os principais concorrentes, pode provocar impactos significativos a médio e longo prazo.

E é neste caminho que a China também vai desbravando o caminho, percebendo que é no avanço das cadeias de valor que pode encontrar o grau de reconhecimento e diferenciação necessário para se afirmar nas mais variadas áreas de negócio. Nunca como agora, o tema da marca e da sua relevância em termos das opções de consumo teve tanta importância para os empresários chineses. Porque percebem que é aí que reside o goodwill de cada negócio. Esse resultado verifica-se na aquisição de empresas ocidentais dos mais variados setores, a par do trabalho insistente em projetar as maiores marcas chinesas para múltiplas áreas geográficas.

Na área dos serviços não é diferente, mas também não é inédito. O primeiro papel moeda data do séc. VII e tem origem na dinastia chinesa Tang, originando a curiosidade de Marco Polo no séc. XIII e a partilha da novidade pela Europa, que só a implementou quatro séculos mais tarde. Hoje o papel moeda será substituído por pixéis e ecrãs de smartphones.

E é precisamente daquele lado do mundo, que hoje há uma formiga (Ant Group) que caminha lentamente para ser afirmar como a maior fintech alguma vez vista. Criada em 2004 pelo grupo Alibaba, vale tanto quanto o JP Morgan que foi fundado em 1799. Tem 1000 milhões de clientes particulares e 80 milhões de clientes empresariais.

A sua expansão internacional começou a ser visível nos mais variados mercados e em 2019 adquiriu o fornecedor de serviços de transferência de dinheiro internacional britânico WorldFirst por 700 milhões de dólares. Também alargou o acordo com o Barclaycard, permitindo que os retalhistas recorram à aplicação Alipay nas suas lojas. Esta aplicação, que é a maior plataforma de pagamento móvel mundial, ultrapassou a Paypal em volume negócios e vale hoje mais de 200.000 milhões de dólares. Resposta rápida, margens baixas e eficiência no serviço têm sido os fatores críticos de sucesso.

Mas esta formiga tem ambições maiores, que passam pelo crédito, gestão de património e seguros. Foi assim que se projetou a maior OPA da história da economia. Todavia, as autoridades chinesas impediram a OPA na véspera da data anunciada, alegando a necessidade de uma regulamentação mais severa sobre as suas operações. A empresa será obrigada a reexaminar as suas atividades de tecnologia financeira, circunscrevendo-se às suas raízes, como um serviço de pagamentos. Pelo que se projeta perante este grande contratempo, a Ant Group aceitará as regras, mas não se desviará da ambição de representar o futuro do setor financeiro.

Este é apenas mais um exemplo de como algumas formigas se podem tornar nas novas marabuntas que vão liderando mercados, moldando modelos de negócio e transformando as nossas vidas, na forma como entendemos a vida empresarial e de consumo.

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Doutorado em Gestão pela Universidade Complutense de Madrid. Diplomado pelo INSEAD, London Business School, Wharton School, University of Virginia, MIT Management Sloan Management School, Harvard Business School, Imperial College of London, Kellogg School of Management de Chicago e IESE Business... Ler Mais