Opinião

O futuro da indústria será decidido pela capacidade de coordenação

Miguel Ângelo Silva Pereira, gestor de operações e responsável pelo Departamento de Gestão de Projetos na CaetanoBus

Nos últimos anos, tenho vivido grande parte da minha vida entre fábricas, produção, reuniões de projeto e operações industriais entre a Europa e a China. E, honestamente, quanto mais tempo passo dentro deste ambiente, mais percebo que os maiores problemas da indústria já não estão na tecnologia.

Na maioria das empresas onde entro, a tecnologia existe. Existem plataformas digitais, sistemas de gestão, automação, inteligência artificial, dashboards e equipas inteiras focadas em transformação digital. Mas, apesar disso, continuam a existir atrasos, decisões desalinhadas, conflitos entre equipas, problemas de comunicação e uma enorme dificuldade em coordenar operações.

E quase nunca o problema está no software. O problema está normalmente nas pessoas, na forma como as equipas se organizam e na dificuldade em alinhar diferentes organizações à mesma velocidade.

Hoje, um projeto industrial já não depende apenas de uma fábrica ou de uma empresa.

Depende de fornecedores, engenharia, produção, qualidade, logística, clientes, parceiros tecnológicos e equipas espalhadas por diferentes países. E quando começamos a trabalhar desta forma, a complexidade aumenta brutalmente.

A Indústria 4.0 trouxe avanços impressionantes. As fábricas tornaram-se mais digitais, mais conectadas e mais inteligentes. Mas também se tornaram muito mais dependentes umas das outras.

E foi aí que comecei a perceber uma coisa importante: Ligar sistemas é relativamente simples.Difícil é alinhar pessoas. Difícil é garantir que diferentes equipas tomam decisões no momento certo. Difícil é coordenar prioridades quando cada organização tem os seus próprios objetivos, pressões e timings.

Ao longo destes anos, tenho visto empresas investirem milhões em tecnologia e continuarem bloqueadas por problemas muito básicos: ninguém sabe exatamente quem decide, as prioridades mudam constantemente, a informação chega tarde e os problemas passam de equipa em equipa sem nunca serem verdadeiramente resolvidos.

A tecnologia acelera a informação. Mas não resolve automaticamente problemas organizacionais. E talvez este seja um dos temas menos falados da transformação industrial.

Estamos muito focados em automação, inteligência artificial e digitalização. Mas falamos pouco sobre coordenação.

E a verdade é que, nos próximos anos, acredito que as empresas mais fortes não serão necessariamente aquelas com mais tecnologia. Serão aquelas que conseguirem integrar melhor operações, pessoas e decisões.

Foi precisamente desta experiência prática que tenho vindo a desenvolver no meu doutoramento. A ideia surgiu de algo muito simples: em ambientes industriais cada vez mais distribuídos, alguém precisa de garantir que a operação continua alinhada quando existem múltiplas equipas, múltiplas empresas e múltiplos interesses envolvidos.

No fundo, aquilo que acredito é relativamente simples. O futuro da indústria não será decidido apenas pela capacidade de automatizar. Será decidido pela capacidade de coordenar complexidade.

Porque, no final do dia, os maiores problemas da indústria raramente acontecem por falta de tecnologia.

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