Opinião

A armadilha das metas possíveis

Sandra Silva, diretora-geral da Mary Kay Portugal

Vivemos numa era obcecada por metas. Metas comerciais, de produtividade, de crescimento e de eficiência. Medimos praticamente tudo: indicadores, dashboards, planos e resultados.

E ainda bem. As metas são importantes. Dão foco e disciplina. Ajudam-nos a transformar intenção em ação e ambição em progresso mensurável. Mas há uma pergunta que, muitas vezes, fica por fazer: as nossas metas estão realmente a fazer-nos crescer ou apenas a manter-nos ocupados?

Há uma diferença entre ter metas e ter metas para crescer.

Ter metas pode significar cumprir o esperado, manter o que já existe, repetir resultados ou proteger a posição alcançada. São metas úteis e necessárias, mas nem sempre transformadoras.

Já as metas para crescer fazem outra coisa. Desafiam-nos. Obrigam-nos a pensar de forma diferente, a desenvolver novas competências, a elevar padrões, a rever hábitos, a tomar decisões difíceis e a sair da zona onde já sabemos funcionar.

Uma meta comum pergunta: “O que tenho de alcançar?”

Uma meta para crescer pergunta: “Quem preciso de me tornar para alcançar isto?”.

É aqui que começa a verdadeira transformação.
Nas organizações, como na vida, há metas que medem desempenho e metas que expandem capacidade. As primeiras avaliam o que fazemos. As segundas revelam o que ainda podemos vir a ser.

Ao longo da minha carreira tenho observado diferenças de performance enormes entre pessoas aparentemente semelhantes em capacidade. A dado momento, uma destaca-se claramente e cresce. O porquê está quase sempre nas metas que estabeleceu. Uma optou por mais um ano de manutenção. A outra escolheu uma meta ambiciosa que a obrigaria a crescer.

A diferença não está apenas no número. Está na intenção.

As metas para crescer expõem-nos. Mostram onde ainda não estamos preparados. Obrigam-nos a pedir ajuda, a testar, a falhar, a corrigir e a persistir. Colocam-nos perante uma versão mais exigente de nós próprios e é aí que reside o seu valor.

O crescimento real raramente acontece em terreno confortável. Acontece quando uma pessoa, equipa ou organização decide que o objetivo não é apenas chegar ao fim do mês ou do ano. O objetivo é chegar diferente: mais capaz, mais forte, mais consciente e mais preparada. Por isso, talvez a pergunta mais importante para qualquer líder não seja apenas: “Quais são as nossas metas?”

Talvez seja: “Estas metas estão a tornar-nos melhores?”

Quando uma equipa tem uma meta para crescer, a conversa muda. Deixa de ser apenas “quanto falta?” e passa a ser “o que precisamos de aprender?”. Deixa de ser apenas “batemos o objetivo?” e passa a ser “que capacidades novas criámos neste processo?”.

Num mundo em permanente mudança, talvez o maior risco não seja definir metas demasiado ambiciosas. Talvez seja definir metas que nos deixam iguais.

No fim, uma boa meta não é apenas aquela que alcançamos. É aquela que, ao tentar alcançá-la, nos transforma. Uns definem metas para cumprir. Outros definem metas para crescer.

E é aí que tudo muda.

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Sandra Silva

Sandra Silva

Sandra Silva é a diretora-geral da Mary Kay Portugal desde 2009, ano em que entrou para a companhia. Desempenhou um papel importante e fundamental tendo sido responsável pelo turnaround da empresa em Portugal. Liderou a importante renovação da estratégia de negócio implementada em todos os departamentos. Também é membro da Plataforma Portugal Agora. Antes de chegar à Mary Kay a experiência profissional de Sandra Silva centrou-se nas áreas das Vendas e Marketing em multinacionais de grande consumo. Começou na Johnson&Johnson,... Ler Mais..

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