Com um plano de investimento de 100 milhões de euros para o mercado português, a Casavo quer mudar a forma como as pessoas compram, vivem e vendem casas. Em entrevista ao Link To Leaders Duarte Ferreira dos Santos, vice-presidente de investimentos da proptech, reconhece que deveria ter entrado mais cedo em Portugal.

Instalada no mercado português desde o início deste ano, a Casavo já soma quase quatro anos de atividade a nível internacional, em mercados como Espanha, Itália e França. Recentemente, levantou 100 milhões de euros numa ronda de equity série D, a que se juntou também um financiamento adicional de 300 milhões de euros para a aquisição de casas. Financiamentos que vão permitir à proptech continuar a sua missão de redesenhar a experiência de compra e venda de casas na Europa, utilizando tecnologia patenteada em cada etapa do processo de transação.

Duarte Ferreira dos Santos, vice-presidente de investimentos em Lisboa da Casavo, define como prioridades apresentar e difundir a sua proposta de valor e incentivar a digitalização de “um setor ainda muito marcado por ser offline e fragmentado”. No entanto, reconhece que “não é possível, nem aconselhável, retirar a componente humana da interação” e que “a tecnologia deve surgir como uma ferramenta que apoia na desburocratização, que oferece simplicidade, que traz transparência aos processos de avaliação e permite a cada pessoa ver, rever e imaginar a sua nova vida”.

Que balanço faz destes cerca de seis meses de operação da Casavo em Portugal?
O balanço, até ao momento, é muito positivo. Temos sentido muita recetividade ao modelo de negócio e à proposta de valor, tanto por parte dos compradores e vendedores de casas, como também por parte de outros profissionais do setor que têm vindo a estabelecer parcerias connosco. Todas as pessoas reconhecem que o setor imobiliário precisa de soluções inovadoras que tornem o processo de compra e venda de casa mais fácil, rápido e seguro e que aumentem a transparência do mercado.

Somos contatados diariamente por muitas pessoas que procuram compreender como funciona a plataforma e de que forma poderá responder às suas necessidades. Além disso, estamos a cumprir o nosso plano inicial de aquisições e, neste momento, já estamos a comercializar um primeiro conjunto de apartamentos renovados de diferentes tipologias e para diferentes segmentos, em localizações muito interessantes um pouco por toda a cidade de Lisboa. A nível global, até julho deste ano, a Casavo realizou mais de 3200 transações por um valor superior a mil milhões de euros.

Quais têm sido os maiores desafios?
Ao longo dos últimos sete meses, temos trabalhado para criar relações de confiança com proprietários, compradores e agências, desmistificando o nosso modelo de negócio e comprovando o verdadeiro valor acrescentado a cada um destes participantes, através da sua experiência com a Casavo. Trazemos mais transparência ao mercado ao realizarmos avaliações instantâneas com base no nosso algoritmo patenteado, que nos permite apresentar propostas de valor justas. Apresentar e difundir a nossa proposta de valor, e incentivar a digitalização de um setor ainda muito marcado por ser offline e fragmentado, têm sido as nossas principais prioridades.

“Temos um ambicioso plano de investimento de mais de 100 milhões de euros (…)”

Quanto é que já investiram em Portugal e quanto preveem investir até final do ano?
Temos um ambicioso plano de investimento de mais de 100 milhões de euros para adquirir imóveis e realizar a sua renovação, a curto prazo, e estamos a cumprir o plano de transações que delineámos para Lisboa.

Como avalia o mercado imobiliário em Lisboa?
O mercado residencial na área metropolitana de Lisboa tem uma dimensão interessante, com mais de 70 mil transações por ano, segundo dados dos Sistemas de Informação Residencial (SIR), fruto da preferência cultural para comprar casa em vez de alugar. Além disso, o parque habitacional na capital encontra-se bastante envelhecido e desatualizado, tendo a grande maioria das casas sido construídas antes dos anos 80, pelo que será necessário nos próximos anos um enorme esforço de renovação dos imóveis existentes de forma a torná-los mais eficientes e adaptados às necessidades atuais das famílias.

“(…) queremos ser cada vez mais uma opção disruptiva que traz facilidade, rapidez e transparência aos processos (…)”

Para onde caminhamos?
Qualquer contexto de guerra como o que vivemos atualmente traz imprevisibilidade e incerteza, levando a que potenciais compradores e vendedores possam repensar ou atrasar a tomada de decisões. No entanto, devido à falta de oferta de construção nova e à elevada procura originada pelas necessidades das famílias pós-pandemia, não prevemos que o mercado de casas renovadas seja significativamente afetado pela conjuntura que vivemos, em particular as casas que apresentem preços enquadrados com os rendimentos dos portugueses. Neste sentido, queremos ser cada vez mais uma opção disruptiva que traz facilidade, rapidez e transparência aos processos associados ao setor imobiliário em Portugal e que contribui para a renovação do nosso parque habitacional e para a melhoria da sua eficiência energética.

Quem mais vos procura?
A nossa audiência é muito diversificada, tanto a nível etário como em perfil social. Os vendedores são clientes particulares que procuram tipicamente uma solução “chave-na-mão” que os liberte da burocracia inerente ao processo e que assegure uma venda rápida, conveniente e simples, com apenas uma visita ao imóvel e sem tempo perdido desnecessariamente. Ao contrário do que se possa pensar, os nossos clientes não são apenas as pessoas que precisam de vender a sua casa mais rápido, mas também todos os que procuram conveniência e simplicidade no processo.

Por outro lado, os nossos compradores também apresentam perfis diversificados. Tal como seria de esperar, sentimos muita procura por parte de famílias que procuram comprar casas modernas em boas localizações e com preços justos e acessíveis. No entanto, somos também procurados por investidores, tanto individuais como empresas, que procuram casas para rentabilidade.

Por último, também temos trabalhado com agências imobiliárias de diferentes dimensões e segmentos, oferecendo soluções inovadoras através do nosso programa Casavo para Agências. Neste segmento, temos sentido particular interesse por parte de agências de menor dimensão que procuram transformar o seu negócio recorrendo à tecnologia.

Como é que a plataforma funciona e o que vos distingue da concorrência?
A Casavo é a plataforma digital líder na Europa que oferece uma experiência inovadora e completa a quem quer vender ou comprar casa, tornando-a mais simples, rápida e cómoda.

A quem deseja vender a casa, oferecemos uma experiência inovadora, focada em máxima rapidez, na medida em que permite aos vendedores avaliarem o seu imóvel de forma instantânea, com apenas alguns cliques. Ao adquirir diretamente o imóvel, conseguimos apresentar uma oferta em 48 horas e formalizar a compra numa questão de dias, com uma só visita – que poderá ser presencial ou realizada através da nossa aplicação, com uma videochamada, com o envio de fotografias e da planta da casa. Através do uso de um algoritmo patenteado, asseguramos que a oferta apresentada é justa e baseada em critérios objetivos.

Por outro lado, a quem deseja comprar casa, disponibilizamos casas prontas a habitar, com elevada eficiência energética e com design moderno e atraente. A nossa equipa de renovações assegura uma elevada qualidade de acabamentos e materiais, distribuição moderna e funcional, casas de banho e cozinhas totalmente equipadas com eletrodomésticos eficientes. Os imóveis da Casavo podem ser encontrados na nossa plataforma, podendo ser visualizados remotamente através de tecnologia imersiva (fotos, plantas e visitas virtuais) para que o comprador consiga explorar a sua futura casa sem deslocações desnecessárias.

Paralelamente, desenvolvemos um serviço único de chave na mão, com uma abordagem inclusiva para os profissionais do setor imobiliário (agências, empreiteiros e bancos) e para colaboradores estratégicos com quem trabalhamos. Até julho de 2022, realizámos globalmente mais de 3200 transações por um valor superior a mil milhões de euros.

Na sua opinião, as plataformas de arrendamento digitais já são a primeira escolha de quem procura uma casa ou ainda se opta preferencialmente pelo modelo tradicional?
O mercado imobiliário português, como outros mercados do sul da Europa, continua a ser muito caracterizado pela preferência cultural de comprar casa em vez de arrendar, incluindo nas novas gerações. Para além disso, o setor continua a ser muito fragmentado, complexo e offline, apesar da pandemia ter acelerado uma mudança no comportamento dos clientes no sentido da adoção do canal digital. Contudo, mesmo neste aspeto, ainda há muito para fazer, nomeadamente na adoção de ferramentas digitais para trazer mais transparência ao mercado e para melhorar a experiência do comprador e do vendedor.

Por exemplo, a venda de um imóvel em Portugal demora em média seis meses (segundo dados da Confidencial Imobiliário) e 20 visitas físicas ao espaço, originando a necessidade de uma solução como a nossa, que tira partido das suas ferramentas tecnológicas para fornecer avaliações instantâneas gratuitas e apresentar ofertas num curto espaço de tempo, permitindo aos vendedores fechar a transação em apenas alguns dias sem preocupações e sem ter de lidar com a tradicional burocracia inerente à venda de casa, uma vez que a nossa equipa trata de todo o processo.

“Apesar do impulso que a pandemia trouxe à digitalização do setor imobiliário, esta indústria ainda se caracteriza por ser tradicional, offline e muito dependente de processos burocráticos e físicos”.

O que tem mudado na experiência do processo de compra e venda de casa nos últimos anos?
Apesar do impulso que a pandemia trouxe à digitalização do setor imobiliário, esta indústria ainda se caracteriza por ser tradicional, offline e muito dependente de processos burocráticos e físicos. As soluções que surgiram nos últimos anos permitem otimizar os processos, tornar o mercado imobiliário mais rápido, simples e descomplicado, e melhorar a experiência de todos os intervenientes, sejam eles compradores, vendedores, ou mesmo agentes imobiliários. A Casavo vem responder à necessidade urgente de tornar o setor mais eficiente e transparente e de democratizar o acesso à habitação.

Quanto preveem faturar este ano?
É política interna da empresa não revelar este tipo de dados, mas o nosso modelo de negócio tem dado provas de sucesso, o que foi reforçado pela recente ronda de financiamento série D de 100 milhões de euros, à qual se juntou um financiamento adicional de 300 milhões de euros para a aquisição de casas. Representa o maior financiamento de uma proptech na Europa até à data e demonstra a confiança dos nossos investidores na nossa visão e equipa.

Anunciaram que até ao final do ano pretendem chegar às 20 pessoas em Lisboa. Como é feito o processo de recrutamento na Casavo?
Adotámos um modelo disruptivo de atração e retenção de talento com base na prevenção, que consiste numa estratégia proativa de valorização contínua dos colaboradores. Fruto desta cultura corporativa e para responder às novas exigências do mercado, em 2021, expandimos a equipa com mais 300 colaboradores nos escritórios em Espanha e Itália e, atualmente, contamos com uma equipa global de mais de 450 colaboradores.
A nível nacional, estamos neste momento a procurar profissionais que demonstrem elevado conhecimento pelo setor e que sejam orientados para a satisfação dos clientes, sejam compradores ou vendedores, que se encontram nesta fase crítica de mudança na sua vida.

Quais os planos de expansão para o futuro da Casavo? Que outras cidades portuguesas estão na mira da Casavo?
Escolhemos Lisboa como a nossa porta de entrada em Portugal e por enquanto vamos apostar em alargar a nossa atividade em bairros destinados às famílias locais, dentro desta cidade. Prevemos expandir gradualmente para zonas mais periféricas e, no futuro, para outras cidades portuguesas. A nível europeu, temos como objetivo continuar a expandir as operações para nos convertermos na maior plataforma digital para o mercado residencial na Europa, sendo neste momento a expansão para França a nossa principal prioridade.

Quais os mercados mais representativos na faturação da Casavo global?
A Casavo foi fundada em 2017 e já opera em Itália, Espanha e, mais recentemente, em Portugal. Até julho de 2022, realizou mais de 3200 transações, que representam um valor superior a mil milhões de euros. O peso da nossa operação em Itália ainda é significativo, mas temos novas geografias a crescer muito rapidamente – por exemplo, Espanha já representa mais de 20% do nosso volume total.

Nas cidades em que a Casavo está presente já temos um portefólio interessante de imóveis, e estamos a planear mais do que triplicar o crescimento em 2022. Em Lisboa, já iniciámos o nosso processo de aquisições e temos um plano ambicioso para a cidade nos próximos meses.

“(…) plataformas como a nossa terão um papel fundamental na disponibilização de casas acessíveis aos jovens e às famílias”.

Quais as grandes tendências no mercado imobiliário?
Apesar do contexto que vivemos atualmente, acreditamos que o mercado português continua a apresentar fundamentos sólidos, e continua a existir muita falta de oferta de casas novas ou renovadas que satisfaçam as necessidades das famílias pós-pandemia. Para além disso, parece-nos que o setor imobiliário continua a ser muito tradicional, fragmentado, complexo e pouco transparente, existindo um enorme potencial de melhoria através da aposta em tecnologia.

Nesse sentido, acreditamos que a elevada procura que se tem verificado se vai manter, embora seja expectável um abrandamento nesta trajetória de crescimento de preços que acreditamos ser saudável para o equilíbrio do mercado. Este abrandamento poderá ser fruto não só do aumento do custo de vida das famílias associado ao contexto geopolítico atual, mas também da subida das taxas Euribor e das novas regras que o Banco de Portugal aplicou aos créditos habitação, que poderão contribuir para aumentar os encargos das famílias. Ainda assim, acreditamos que o mercado imobiliário continuará a ser sólido e sustentável e que o ajustamento não será significativo.

De forma a atender às necessidades das famílias, acreditamos que será cada vez mais importante renovar as casas usadas, que se encontram envelhecidas e desatualizadas. Neste sentido, plataformas como a nossa terão um papel fundamental na disponibilização de casas acessíveis aos jovens e às famílias.

Apesar da recetividade globalmente positiva do mercado às proptechs, que dificuldades é que estas novas plataformas enfrentam numa área de negócio que ainda se baseia muito no face to face?
A compra e venda de casa é um momento decisivo e muito importante na vida das pessoas, pelo que a sua digitalização não é imediata. Não é possível, nem aconselhável, retirar a componente humana desta interação. Na nossa opinião, a tecnologia  deve surgir como uma ferramenta que apoia na desburocratização, que oferece simplicidade, que traz transparência aos processos de avaliação e permite a cada pessoa ver, rever e imaginar a sua nova vida. O apoio humano mantém-se e, por isso, procuramos ter na nossa equipa pessoas com elevada compreensão e empatia, e com conhecimento aprofundado do mercado, de forma a oferecermos um serviço personalizado e adequado às necessidades de cada cliente.

De que forma a sua experiência noutras empresas o ajudaram a lançar e a liderar a chegada da Casavo a Portugal?
Desde que iniciei a minha carreira profissional sempre estive ligado ao setor imobiliário. Numa primeira fase a coordenar o desenvolvimento de projetos residenciais e de escritórios de grande dimensão na Teixeira Duarte, e numa segunda fase a coordenar a equipa de investimento da Bondstone (que é uma private equity focada no setor).

Ao longo destes anos passei por experiências muito diferentes, quer a nível operacional, quer na estruturação de novos investimentos, e estive ligado a projetos com diferentes características e públicos-alvo. Esta diversidade de experiências ajudou-me muito a entender como funciona o setor e o que procuram os clientes nas diferentes fases do processo. O desafio que tenho agora permite-me combinar todas estas valências de forma a definir como aplicar a tecnologia e os produtos que foram desenvolvidos pela nossa equipa e contribuir para a melhoria da nossa indústria e setor.

“Esta ronda permitir-nos-á consolidar a nossa liderança na Europa, crescendo nos mercados onde já operamos, nomeadamente, Portugal, Espanha e Itália, e expandir para novos mercados, sendo França a nossa prioridade”.

Como vê a Casavo daqui a cinco anos?
O nosso objetivo é escalar, de forma consolidada, a Casavo em Portugal e na Europa. A última ronda de financiamento é um reconhecimento do nosso crescimento sustentado e da confiança que os investidores têm na nossa visão a longo prazo. Esta ronda permitir-nos-á consolidar a nossa liderança na Europa, crescendo nos mercados onde já operamos, nomeadamente, Portugal, Espanha e Itália, e expandir para novos mercados, sendo França a nossa prioridade.
Vamos continuar a apostar na nossa missão de simplificar a forma como as pessoas vendem e compram imóveis, evoluindo de um comprador de casas para uma plataforma integral, com múltiplos serviços associados, líder na Europa, com soluções tanto para vendedores, compradores e profissionais do setor imobiliário.

Projetos para o futuro?
Trabalhamos diariamente para mudar a forma como as pessoas compram, vivem e vendem casas em Portugal. O nosso grande projeto passa por sermos a plataforma residencial de referência em Portugal e na Europa, e que os compradores, vendedores e outros agentes de mercado encontrem nos nossos produtos e serviços a solução para as suas necessidades.

Respostas rápidas:
O maior risco: a evolução do contexto macroeconómico internacional e o seu potencial impacto no mercado imobiliário em Portugal.
O maior erro: deveríamos ter entrado mais cedo no mercado português.
A maior lição: não é possível mudar um setor que é bastante tradicional e offline de um dia para o outro, é preciso ter alguma paciência, vontade e persistência.
A maior conquista: o reconhecimento e feedback positivo dos clientes e agentes de mercado que já trabalharam connosco nos últimos meses.

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