A década de 90 ficou marcada por uma série de eventos que acentuaram as relações comerciais entre países, destacando-se os acordos multilaterais promovidos pela WTO, liderados por Peter Sutherland, conhecido como o pai da globalização.

Um factor determinante deste mesmo período foi o aparecimento da internet e a evolução das Tecnologias de Informação e Comunicação, que passou a permitir que se inovasse num país, produzisse noutro e distribuísse para o mundo. A intensificação daquela que era a 3.ª onda da globalização, impulsionou as importações e exportações das empresas e, consequentemente, colocou a logística como uma área determinante para garantir a competitividade, uma vez que condiciona o custo da mercadoria e o período de entrega.

Ainda na mesma época, em Moçambique, o terminar de uma guerra civil e início de um regime democrático, acelerou o crescimento económico do país e alimentou as relações comerciais com outros. Contudo, o impacto da globalização em Moçambique, tal como vários outros países africanos, não pautou pelo quid pro quo. O país recorreu à importação de produtos, para satisfazer a demanda local, e não estimulou a sua capacidade produtiva, o que resultou num baixo nível de exportação, maioritariamente de matéria-prima não processada.

Nesta senda, privilegiaram-se cada vez mais as importações e exportações e não se criaram condições para que o comércio doméstico se desenvolvesse. Com uma extensão de 3 mil quilómetros (a quarta maior costa do continente) e fragmentado por três regiões, continua a ser mais acessível transportar um contentor de Shangai para Maputo, do que de Maputo para Lichinga.

Uma das causas para esta aberração é uma comunicação deficiente entre a oferta e a demanda de produtos. Um exemplo ilustrativo desta situação é evidenciado pela abundância de fruta que existe na Macia, e o facto da mesma escassear nas estâncias turísticas de Chizavane, duas regiões separadas por uns meros 100km. Sabe-se, no entanto, que existem dezenas de camiões a circularem neste troço e o que falta é que a informação seja disponibilizada atempadamente, para que esta carga seja transportada sem um custo proibitivo.

Não ter acesso a esta informação, dá lugar à especulação dos custos envolvidos no processo e faz com que progressivamente se perpetue o comércio internacional.

Hoje, o Covid-19 surge-nos como uma ameaça ao futuro da globalização. As cadeias de valor globais, que interligam produtores de vários países, que sustentam a globalização, ficaram altamente condicionadas pelas imposições desta pandemia. Muitos países fecharam as suas fronteiras e limitaram as relações comerciais entre si. Este acontecimento está a forçar os países a tornarem-se mais autónomos e a demonstrarem resiliência económica. As cadeias de valor estão a ser repensadas e os países estão a virar-se para o consumo doméstico.

É diante deste cenário de crise que a inovação assume um papel preponderante, e que surgem aplicações como o Uber Freight que asseguram a distribuição de medicamentos, e outros bens essenciais. Este modelo foi também replicado no continente Africano, mais especificamente na Nigéria e no Quénia, e está a ter um impacto significativo na indústria e na sociedade. Moçambique tem também uma solução à medida, a appload, um mercado online de logística. Esta start-up foi lançada recentemente e está focada em fazer a ponte entre a demanda e a procura de transporte de carga, e garantir que rentabiliza as cargas de retorno de forma a reduzir os custos para o cliente final.

A mesma internet e as TICs que acentuaram a globalização e aproximaram economias outrora, representam hoje o potencial de as tornarem mais autónomas e centradas na optimização dos recursos internos.

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Frederico P. Silva, atualmente CEO da Talento Moçambique, é também um empreendedor social na área das tecnologias de informação e comunicação para o desenvolvimento (ICT4D) e cofundador da UX, uma start-up premiada internacionalmente, que desenvolveu, entre outras plataformas, o maior... Ler Mais