Nos últimos anos, a palavra Blockchain tornou-se recorrente no vocabulário de qualquer pessoa minimamente por dentro de tecnologia, independentemente do quão familiarizada ela seja com suas tecnicalidades.

O conceito por trás do Blockchain foi originado por Stuart Haber e Scott Stornetta num projeto de pesquisa de 1991, quase três décadas antes do seu uso se tornar comum através do Bitcoin. A ideia inicial do projeto consistia na criação de um sistema capaz de monitorar todo histórico de alterações de documentos, mas os seus benefícios comprovaram-se muito mais amplos do que o objetivo para o qual o Blockchain foi originalmente concebido.

Para compreender como o Blockchain funciona, imagine uma corrente na qual todos os elos são gravados com um número de identidade único. No Blockchain, ao invés de elos, a corrente é composta por blocos de dados ligados uns aos outros de forma linear. Quando um bloco é criado e preenchido com dados, ele recebe um número de identificação de 32 bits gerado aleatoriamente chamado nonce, o qual gera outro número de 256 bits chamado hash, ligado ao primeiro.

Estes dois números compõem a identificação deste bloco e são ligados diretamente aos dados contidos nele de forma que se torna impossível alterá-los sem mudar os números, e vice-versa. Quando este bloco é adicionado à corrente de outros blocos, ele recebe um terceiro número de identificação: o hash do bloco ao qual ele acabou de ser conectado. Cada novo bloco adicionado à corrente receberá seu nonce e hash únicos, assim como o hash do bloco anterior. Com isso, alterar a informação contida num bloco já adicionado ao Blockchain torna-se virtualmente impossível, dado que seria necessário alterar um número infindável de outros números e informações contidas nos blocos anteriores e subsequentes.

Diferentemente de bases de dados comuns, nas quais as informações geralmente são armazenadas em formato de tabelas e que, consequentemente, podem ser alteradas por qualquer um que tenha acesso a elas, o Blockchain permite que os usuários acrescentem informações, mas não as removam. Por outras palavras, a corrente de blocos tornar-se-á continuamente mais longa e cada informação adicionada será facilmente rastreável.

Além disso, os dados no Blockchain são mantidos por cada um dos seus usuários numa rede de computadores espalhada ao redor do mundo que constantemente e automaticamente verificam cada informação adicionada para assegurar que nenhum dos blocos ali contidos seja alterado. Com isso, o Blockchain provou ser não apenas uma forma mais segura de se armazenar dados, como também mais eficiente para rastreá-los.

Dado o quão popular o Blockchain se tornou após a explosão do Bitcoin na última década, tal tecnologia também já começou a ser utilizada em diversas outras aplicações. Não surpreendentemente, o Research and Markets verificou que o mercado de Blockchain, que já alcançou USD 4,9 bilhões em 2021, deverá crescer para USD 67,4 bilhões em 2026, ou 68,4% anualmente.

Por que o Blockchain é importante?
A essência da tecnologia é a forma como a informação é armazenada, trocada e utilizada, sendo que a maneira como isso ocorre impacta diretamente nos resultados que conseguimos alcançar com seu uso. Até há poucas décadas, disquetes ainda eram realidade e a transferência de informações entre computadores sem o uso de qualquer dispositivo físico era praticamente impensável. E, enquanto mais recentemente teríamos que aguardar vários minutos (no mínimo) para concluir o download de um vídeo em baixa resolução, o streaming de filmes em 4k já se tornou parte das nossas vidas há algum tempo.

O impacto de como a informação é armazenada, transferida e utilizada também está presente em aplicações mais tangíveis. Sem rapidamente e apropriadamente organizarmos as informações, o machine learning, por exemplo, seria inviável, tornando-se impossível o surgimento de veículos autónomos, entre outras tecnologias muito mais simples. Além disso, estaríamos vivendo anos atrás da automação de máquinas modernas e dispositivos como drones, satélites sofisticados ou até mesmo smartphones provavelmente não fariam parte das nossas vidas.

No meio deste contexto, o Blockchain abre-nos portas a uma enorme gama de oportunidades devido à forma disruptiva com a qual armazena dados. A IBM destaca quatro dos maiores benefícios gerados com isso:

1 – Aumento na segurança
A informação no Blockchain é criptografada de ponta a ponta e, uma vez adicionada à corrente, não pode ser alterada. Os dados são armazenados numa rede de computadores, e não num único servidor.

2 – Maior transparência
As transações em Blockchain são registadas em diversos locais. Certos membros possuem permissão para verificar qualquer informação ali contida, todas elas possuindo o exato horário e data de registo.

3 – Maior eficiência e velocidade
Processos dependentes de documentos físicos são totalmente simplificados com o Blockchain, conferindo maior velocidade ao seu processamento, dado que a reconciliação não se torna mais necessária.

4 – Automação
Contratos inteligentes podem ser criados e, quando certas condições são atingidas, o próximo passo num processo é automaticamente engatilhado.

Apenas recentemente começamos a utilizar o Blockchain para outras aplicações além daquela pela qual foi primeiramente amplamente utilizado (transações de Bitcoins). Ainda assim, o número de possibilidades abertas com o seu uso é uma clara prova do seu potencial para revolucionar a tecnologia. Muitas organizações já têm utilizado o Blockchain para aplicações que seriam impossíveis de serem desenvolvidas sem seu uso, tais como:

Estas são apenas algumas das empresas que atualmente utilizam o Blockchain a seu favor. Muitos outros exemplos podem ser encontrados através da Forbes e Built In.

Quais são os usos do Blockchain no futuro?
Apesar de já termos começado a utilizar o Blockchain mais frequentemente, o céu é o limite quando se trata das formas pelas quais diferentes segmentos podem utilizá-lo a seu favor. A CB Insights enumerou uma longa lista de segmentos que podem adotar o Blockchain no curto-prazo, incluindo:

 # Utilizar Blockchain no segmento bancário já se tornou uma tendência e organizações como JP Morgan, Goldman Sachs e Citigroup já o estão testando. O Blockchain pode ser utilizado neste setor para fins de precisão, velocidade e automação de transferências e pagamentos, entre outros.

# Montadoras podem utilizar o Blockchain para monitorar peças de carros, eliminando peças defeituosas e reduzindo a incidência de recalls. Além disso, podem também monitorar cada veículo produzido, rastreando o histórico de manutenção e de registo de cada carro.

# Através do uso do Blockchain para ajudar cidades a entenderem como os seus habitantes usam o transporte público, os sistemas de transporte podem adaptar-se devidamente à forma como são utilizados, tornando-se mais eficientes em diversos aspetos.

# Pesquisadores no campo da genética dependem de uma quantidade massiva e centralizada de armazenamento de dados. Uma única falha no sistema de armazenamento pode drasticamente prejudicar o seu trabalho, sendo o Blockchain a solução perfeita para este problema.

# O Blockchain tem potencial para reduzir ou eliminar revendedores na indústria de energia elétrica, descentralizando o acesso a contratos de energia. Além disso, pode também ajudar os consumidores a rastrearem a procedência da energia consumida.

# O Blockchain pode ser utilizado para garantir que materiais de construção tenham a devida qualidade e sejam disponibilizados pelos devidos fornecedores, além de possibilitar a gestão de contratos inteligentes com stakeholders para simplificar e automatizar os pagamentos associados ao cumprimento de metas no processo de construção.

Além de poder ser utilizado para aprimoramento de setores já existentes, o Blockchain também pode abrir portas para possibilidades nunca pensadas antes e que jamais surgiriam sem a sua estrutura, tal como as DAOs (Decentralized Autonomous Organizations).
DAOs são organizações que possuem um manual de regras pré-programado, operam de forma autónoma e são liderados por participantes que democraticamente utilizam tokens para votar em quaisquer assuntos que devam ser discutidos dentro da organização.

Em resumo, apesar de ainda estarmos vivenciando as primeiras aplicações do Blockchain, já temos sinais de que esta tecnologia, cedo ou tarde, se tornará a nova maneira de se estruturar dados. Atualmente, quem não torce o nariz quando se lembra das disquetes? Dentro de pouco tempo, quando a maior parte das informações for estruturada via Blockchain, provavelmente faremos o mesmo ao nos lembrarmos de como armazenamos informações neste exato momento.

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Daniel Ibri é Managing Partner e cofundador da Mindset Ventures, fundo de Venture Capital internacional focado em start-ups dos Estados Unidos e Israel, e foi considerado um dos mais influentes investidores de 2018 pela publicação Venture360. Além disso, também é... Ler Mais