Entrevista/ “Mais do que um fundo focado em mulheres, somos um fundo focado em identificar valor onde o mercado ainda não o reconheceu plenamente”

Sílvia Mota e Ana Sá Ribeiro, fundadoras do Moon Capital

“Não investimos porque uma fundadora é mulher. Investimos quando encontramos equipas extraordinárias, modelos de negócio robustos e potencial de crescimento sustentável”, asseguram Sílvia Mota e Ana Sá Ribeiro, fundadoras do Moon Capital. Avançam que 80% do capital será alocado a empresas em fase de growth e 20% a investimentos venture capital altamente seletivos.

O Moon Capital é um fundo gerido pela Eaglestone Capital Partners, com uma estratégia que combina private equity e venture capital, investindo desde fases iniciais até empresas em crescimento consolidado. As cofundadoras asseguram que “no Moon Capital não fazemos filantropia nem investimos por quotas. Fazemos investimento disciplinado, orientado para performance e criação de valor”. Mais, asseguram: “não queremos ser apenas investidores financeiros. Queremos ser parceiros de crescimento”.

Nesta fase, Portugal e Espanha são o principal foco da empresa, porque existe talento e porque acreditam que “ainda há muitas oportunidades por descobrir”, mas não hesitam em afirmar que o Moon Capital tem uma ambição europeia.  “Queremos crescer de forma sustentada. Primeiro consolidando uma presença forte na Península Ibérica, construindo um portefólio de referência e demonstrando resultados consistentes. A expansão internacional será uma consequência natural dessa credibilidade”, afirmam. Leia a entrevista.

O que é o Moon Capital? O que motivou a criação da empresa e como a definem no contexto do capital de risco em Portugal?

Sílvia Mota (S.M.): O Moon Capital nasceu da convicção de que os mercados, apesar de eficientes em muitos aspectos, continuam a ignorar oportunidades de enorme valor. Ao longo dos últimos anos, observámos uma realidade que se repete de forma consistente: empresas lideradas por mulheres apresentam indicadores muito competitivos de resiliência, eficiência e criação de valor, mas continuam significativamente subfinanciadas.

Muitos olham para este tema como uma questão de igualdade. Nós olhamo-lo como uma questão de eficiência económica. Sempre que ativos de elevada qualidade são sistematicamente subavaliados, cria-se uma oportunidade para quem consegue identificá-los antes dos restantes. É exatamente essa a nossa tese de investimento. O Moon Capital é um fundo gerido pela Eaglestone Capital Partners, com uma estratégia que combina Private Equity e Venture Capital, investindo desde fases iniciais até empresas em crescimento consolidado. Aproximadamente 80% do capital será alocado a empresas em fase de growth e os restantes 20% a investimentos Venture Capital altamente seletivos. Mais do que um fundo focado em mulheres, somos um fundo focado em identificar valor onde o mercado ainda não o reconheceu plenamente.

“(…) não fazemos filantropia nem investimos por quotas. Fazemos investimento disciplinado, orientado para performance e criação de valor”.

A liderança feminina é um ponto de honra do vosso projeto. Que diferença esperam fazer neste universo empreendedor ibérico?

S.M.: Gostávamos que, daqui a alguns anos, o Moon Capital fosse reconhecido não por investir em mulheres, mas por ter demonstrado que existe uma forma melhor de encontrar excelentes empresas. A diversidade não é o nosso objetivo final; é uma vantagem competitiva na forma como construímos o nosso pipeline de investimento.

Não investimos porque uma fundadora é mulher. Investimos quando encontramos equipas extraordinárias, modelos de negócio robustos e potencial de crescimento sustentável. O facto de procurarmos oportunidades em redes e ecossistemas menos explorados permite-nos encontrar empresas que, muitas vezes, permanecem fora do radar dos processos tradicionais de investimento. Queremos provar, com resultados, que uma maior diversidade na origem das oportunidades melhora a qualidade das decisões de investimento e cria melhores retornos para os nossos investidores. No Moon Capital não fazemos filantropia nem investimos por quotas. Fazemos investimento disciplinado, orientado para performance e criação de valor.

Quais as principais áreas de atuação do Moon Capital?

Ana Sá Ribeiro (A.S.R.): Somos deliberadamente agnósticos relativamente aos setores. Não acreditamos que a inovação pertença apenas à tecnologia ou que o futuro esteja concentrado numa única indústria. Encontramos oportunidades na saúde, na indústria, na economia circular, na sustentabilidade, na tecnologia e em muitos outros setores. O nosso verdadeiro critério nunca foi o setor. É a capacidade de construir empresas excecionais. Procuramos equipas ambiciosas, com visão de longo prazo, capacidade de execução e potencial para crescer internacionalmente. A nossa especialização está muito mais na leitura das pessoas, na qualidade da gestão e na escalabilidade dos negócios do que numa preferência setorial. É precisamente essa abordagem que nos permite construir um portefólio mais resiliente e preparado para diferentes ciclos económicos.

Qual foi até agora o principal investimento do Moon Capital?

A.S.R: O investimento na Olimec representa muito bem aquilo que pretendemos construir enquanto fundo. Encontrámos uma empresa industrial portuguesa sólida, tecnologicamente diferenciada, líder no seu segmento e com enorme potencial internacional. Não investimos porque era apenas uma empresa liderada por uma mulher; investimos porque reunia todos os fundamentos que procuramos: qualidade da gestão, capacidade de execução, posicionamento competitivo e potencial de criação de valor.

O nosso papel vai muito além da disponibilização de capital. Entramos como parceiros estratégicos para acelerar o crescimento, apoiar a internacionalização, reforçar a governance e contribuir para uma evolução sustentada do negócio. Ao mesmo tempo, acompanhamos um plano ambicioso de melhoria da eficiência ambiental, reduzindo significativamente a pegada carbónica e o consumo energético. É este tipo de empresas que queremos continuar a encontrar: empresas excelentes que podem tornar-se ainda melhores quando têm o parceiro certo ao seu lado.

Sendo um fundo ibérico, qual o peso de Portugal e de Espanha no negócio?

S.M.: Nesta fase, Portugal e Espanha são naturalmente o nosso principal foco. São mercados onde conhecemos profundamente o ecossistema empresarial, onde existe enorme talento e onde acreditamos que ainda há muitas oportunidades por descobrir. Mas pensamos o Moon Capital com uma ambição europeia. A nossa tese não é geográfica; é baseada na identificação de empresas extraordinárias que, por diferentes razões, continuam fora do radar dos processos tradicionais de investimento. Esse tipo de oportunidade existe em toda a Europa. Queremos crescer de forma sustentada. Primeiro consolidando uma presença forte na Península Ibérica, construindo um portefólio de referência e demonstrando resultados consistentes. A expansão internacional será uma consequência natural dessa credibilidade.

” (…) o capital é apenas o ponto de partida. Uma empresa não cresce apenas porque recebe financiamento”.

O statement do Moon Capital é que “nasceu para potenciar o empreendedorismo das mulheres através de acesso a capital, formação, mentoria e networking”. Em termos práticos, como estão a implementar este propósito?

A.S.R.: Para nós, o capital é apenas o ponto de partida. Uma empresa não cresce apenas porque recebe financiamento. Cresce quando melhora a sua estratégia, reforça a governação, atrai talento, acelera a internacionalização e toma melhores decisões. É precisamente aí que queremos acrescentar valor. Investimos normalmente entre 1 e 5 milhões de euros, mantendo disponibilidade para acompanhar futuras rondas de investimento nas empresas com melhor desempenho. Assumimos posições minoritárias, mas suficientemente relevantes para participarmos ativamente na definição estratégica do negócio. Não queremos ser apenas investidores financeiros. Queremos ser parceiros de crescimento. É essa proximidade que nos permite reduzir risco, acelerar decisões, abrir portas a novos mercados e colocar ao serviço das empresas a nossa experiência, rede de contactos e capacidade de execução.

O que trazem da vossa própria experiência profissional anterior para a forma como estão a construir o Moon Capital?

S.M.: Ao longo da minha carreira trabalhei sempre na interseção entre inovação, investimento e transformação empresarial. Essa experiência ensinou-me uma lição muito importante: muitas vezes o problema não é a falta de talento nem de boas empresas. É a forma como o mercado as identifica, avalia e financia. O Moon nasce também dessa experiência. Queremos olhar para os negócios sem preconceitos, procurando perceber o verdadeiro potencial de criação de valor de cada empresa. A inovação não acontece apenas na tecnologia; acontece também na forma como pensamos o investimento.

A.S.R.: Da minha experiência na Eaglestone trago uma enorme disciplina financeira e uma abordagem muito rigorosa à gestão de risco. Acreditamos que a combinação destas duas perspetivas — visão estratégica e rigor financeiro — é uma das maiores forças do Moon Capital. Permite-nos identificar oportunidades diferenciadas sem nunca perder o foco na criação de valor sustentável para os investidores.

Olhando para a forma como o mercado nacional evoluiu nos últimos anos, em que ponto está o acesso das mulheres empreendedoras a capital, formação, mentoria e networking…? Mais igualitária ou ainda com muitas barreiras para ultrapassar?

S.M.: Portugal tem um enorme talento feminino. Temos uma das maiores proporções de mulheres inventoras da Europa, elevados níveis de qualificação e uma crescente participação feminina em áreas científicas e tecnológicas. O problema nunca foi a falta de talento. O problema continua a ser a forma como esse talento chega aos centros de decisão e ao capital.

Ainda hoje apenas uma pequena percentagem das start-ups portuguesas é liderada por mulheres e, quando olhamos para o investimento europeu de venture capital, percebemos que a diferença continua muito significativa. Mais do que uma questão de igualdade, isto representa uma oportunidade económica desperdiçada. Sempre que excelentes empresas deixam de crescer por dificuldades de acesso ao capital, perde o empreendedor, perdem os investidores e perde a economia como um todo. É precisamente essa ineficiência que acreditamos poder transformar em criação de valor.

Somos um fundo que acredita que os mercados ainda ignoram demasiado valor. As empresas lideradas por mulheres são uma das manifestações mais claras dessa ineficiência. O Moon existe para transformar essa falha de mercado numa vantagem competitiva para os seus investidores. Não acreditamos que seja necessário escolher entre fazer o que é certo e fazer o que gera maior valor. Acreditamos que, quando o mercado reconhece verdadeiramente o mérito, essas duas coisas passam a ser exatamente a mesma coisa.

Portugal ainda padece da ideia de que apoiar o empreendedorismo feminino é um ato de filantropia ou para preencher uma quota ESG?

A.S.R.: Ainda existe essa perceção em alguns contextos, mas acreditamos que está a perder força. O mercado tende a evoluir quando começam a surgir casos concretos de sucesso e investidores que demonstram resultados consistentes. O nosso objetivo nunca foi convencer através do discurso, mas através da performance. Se conseguirmos provar que esta abordagem gera empresas mais fortes e melhores retornos, a discussão deixa de ser ideológica e passa a ser económica.

S.M.: É exatamente isso que queremos mudar. Não queremos que o empreendedorismo feminino seja visto como uma categoria de investimento. Queremos que deixe simplesmente de ser um tema. O dia em que ninguém perguntar porque é que uma empresa liderada por uma mulher recebeu investimento será, provavelmente, o dia em que o mercado estará a funcionar como deve.

O que falta fazer para que os projetos empresariais liderados por mulheres deixem de ser subfinanciados e para que o empoderamento feminino nos negócios seja uma realidade em Portugal?

S.M.: O maior desafio não está necessariamente na decisão de investimento; está muito antes disso. A maioria das oportunidades chega aos investidores através das mesmas redes, dos mesmos círculos e das mesmas referências. Quando isso acontece, não é apenas a diversidade que fica limitada; limita-se também a capacidade de descobrir empresas extraordinárias. O Moon Capital tem a vantagem de estar presente em ecossistemas diferentes e isso permite-nos conhecer empreendedores e projetos que muitas vezes nunca chegariam aos processos tradicionais de investimento. No fundo, não queremos mudar os critérios de excelência. Queremos aumentar o universo de empresas excelentes que chegam a ser avaliadas.

O primeiro closing acima dos cinco milhões de euros confirmou que existe confiança na nossa equipa e na nossa tese de investimento”.

Planos para expandir o Moon Capital para outros mercados? Quais as prioridades?

A.S.R.: O primeiro closing acima dos cinco milhões de euros confirmou que existe confiança na nossa equipa e na nossa tese de investimento. O foco agora é executar com rigor, construir um portefólio sólido e atingir os próximos objetivos de crescimento até aos 25 milhões de euros e, posteriormente, aos 75 milhões de euros de dimensão total do fundo.

S.M.: Mais do que crescer em dimensão, queremos crescer em relevância. A nossa ambição é que o Moon Capital seja reconhecido como uma referência europeia na forma como identifica talento, aloca capital e cria valor. Se conseguirmos contribuir para que mais empresas extraordinárias encontrem os parceiros certos para crescer, independentemente de quem as lidera, teremos cumprido a nossa missão.

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