Opinião

Contra os canhões

Pedro Alvito, professor de Política de Empresa da AESE Business School
Foto: Pedro Alvito

Nota-se no mundo de hoje que, como resposta à indefinição política, económica e social que todos vivemos, existe um exercício cada vez maior de autoritarismo na governação dos países, nas relações internacionais e na gestão das empresas.

Para um ambiente mais saudável, de respeito mútuo e da procura de consensos aparece como única alternativa viável a figura do salvador da pátria (ou da empresa), alguém movido mais por interesses pessoais do que pelos comunitários em que se insere, seja nacional, seja institucional.

É evidente que o autoritarismo resolve mais rapidamente os assuntos (nem sempre melhor), gerando no futuro um ambiente de desconfiança, desânimo e desinteresse pelas causas. A solução de parar a democracia por uns tempos para pôr tudo na ordem ou serem precisos três Salazares são a imagem perfeita do que acabo de dizer. Todos nós temos um pouco a tentação de achar que alguém que vem pôr os pontos nos ‘is’ é quem vai resolver todos os problemas. Quanto maior a turbulência mais ansiamos por alguém que imponha a estabilidade e a bonança.

Conhecemos todos casos de empresas e instituições em que foi “preciso agir assim”, porque a democracia “não funcionava” como solução. A frase ouvida em tantas empresas de que “faz o que quiseres, desde que faças o que eu quero”, explicita em alguns casos, noutras a mensagem é passada de forma mais subliminar, com “despromoções”, reformas antecipadas ou simplesmente com o retirar da autoridade (que é diferente de autoritarismo).

O individualismo além de gerar a noção de que não precisamos dos outros para mais nada do que fazer a nossa vontade leva ao surgimento de líderes que se acham ‘Deus na terra’, detentores da verdade e conhecedores do futuro. É evidente que este ambiente na empresa cultiva a proliferação dos “yes men/women”, mas também produz a fuga dos melhores, dos criativos, enfim dos que pensam e são capazes de gerar inovação e diferença. Resultado: a empresa só perde, no longo prazo.

Recordo-me numa empresa em que um administrador defendia, relativamente à sua área de trabalho, uma determinada solução que era contrária aos restantes. Marcou-se uma reunião em que convidaram o maior especialista no assunto que, depois de ouvir o assunto e sem hesitação alguma, defendeu a opinião do administrador solitário. A partir daí o referido especialista passou a incompetente e autoritariamente a decisão foi tomada. Escusado será dizer que o referido administrador acabou saindo da empresa com a consequente perda de capital humano.

O problema é que em todos os casos é impossível avaliar o “se não fosse assim”, porque simplesmente não se fez. O custo do autoritarismo é, inevitavelmente, a alta rotação de talentos: as pessoas não se demitem das empresas, demitem-se dos maus chefes. Segundo George S. Patton (1885-1945), general do 3.º Exército dos EUA, na II Guerra Mundial: “Nunca diga às pessoas como fazer as coisas. Diga-lhes o que fazer e vão surpreendê-lo com o seu engenho.” Usando uma linguagem que Patton entenderia, apesar de saber que vencer os canhões do autoritarismo é tarefa difícil, como diz o Hino é preciso sempre ‘marchar, marchar’.

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