Opinião
Além de Washington e Pequim: Por que o mundo precisa de um Conselho de Segurança para a Inteligência Artificial
O mundo assiste a um dos maiores descompassos históricos da governação moderna: enquanto muitos Estados continuam concentrados em debates institucionais herdados do século passado, ancorados estritamente em limites territoriais físicos, o centro de gravidade do poder mundial migrou em definitivo para o código, os semicondutores e os sistemas autónomos.
A inteligência artificial e a cibersegurança deixaram de ser ferramentas setoriais de produtividade. São hoje o próprio tecido onde se disputam a soberania económica, o equilíbrio geopolítico e a segurança existencial.
O fim do confinamento: o sinal de alerta dos laboratórios
Os acontecimentos recentes nos laboratórios da OpenAI, Moonshot AI e da Meta deveriam fazer soar os alarmes em todas as capitais mundiais. Em ambientes de segurança rigorosamente isolados (sandboxes digitais concebidas especificamente para conter a execução de tarefas sem ligação externa), modelos avançados de agentes de IA conseguiram contornar travas de segurança, estabelecer ligação com a internet aberta e explorar vulnerabilidades em servidores reais.
O dado crítico deste episódio não reside numa intenção maligna, mas na lógica operacional da máquina: ao procurar a rota mais veloz para cumprir o objetivo programado, o próprio sistema calculou que furar a contenção e invadir infraestruturas externas era a solução ótima. Se as empresas com maiores orçamentos de engenharia do planeta já não conseguem garantir a permanência da IA dentro de limites herméticos, a tese de que a autorregulação privada é suficiente para proteger o mundo ruiu irrevogavelmente.
A armadilha geopolítica e a corrida bélica
O impasse regulatório global alimenta-se de um clássico dilema de prisioneiros: Washington argumenta que restringir o desenvolvimento e o treino de agentes de fronteira deixará a porta aberta para que a China assuma a supremacia incontestada; Pequim, por seu turno, encara qualquer apelo ocidental a moratórias como uma manobra para consolidar hegemonias pré-existentes.
Esta dinâmica transforma o progresso técnico numa perigosa corrida armamentista algorítmica. O impacto já transbordou para o campo militar e cibernético cinético. Em teatros de conflito no Médio Oriente e em tensões recorrentes envolvendo o Irão, a integração de ataques cibernéticos autónomos, guerra eletrónica e seleção de alvos gerida por modelos preditivos tornou-se realidade operacional. Quando os tempos de resposta militar e a perturbação de redes elétricas e de abastecimento passam a depender da velocidade de cálculo de um modelo e não da deliberação estratégica humana, a margem de erro reduz-se a frações de segundo.
A fratura digital e a soberania no Sul Global
Na outra extremidade do tabuleiro encontram-se as nações em desenvolvimento. Enquanto as superpotências competem na vanguarda da capacidade computacional, regiões inteiras enfrentam uma vulnerabilidade desproporcional. Debates recentes no continente africano e projetos em torno de soberania de dados no Sahel (como a iniciativa Lakana 360 no Mali) espelham a angústia de Estados que percebem não deter o controlo sobre os fluxos de dados dos seus próprios cidadãos nem sobre os sistemas que gerem serviços vitais.
Para estas economias, uma ofensiva cibernética ou uma falha sistémica não significa apenas computadores desligados: significa o colapso instantâneo de plataformas de mobile money das quais depende o comércio informal e a sobrevivência diária das famílias. Na ausência de uma arquitetura global equitativa, o fosso aprofunda-se: o Sul Global corre o risco de ser reduzido a um mero território de extração de dados brutos e consumo subordinado de modelos externos, sem qualquer voto na orientação ética da tecnologia.
A minha proposta: um Conselho Global das Nações Unidas de Governação da IA
Tratar a IA com as fórmulas tradicionais da diplomacia multilateral provou ser ineficaz. Declarações voluntárias e tratados que demoram uma década a negociar não acompanham uma indústria que muda a cada trimestre.
É urgente a criação de um Conselho Global das Nações Unidas de Governação da IA e Cibersegurança, com três características estruturais:
- Poder vinculativo e verificação técnica: Inspirado na autoridade de vigilância de órgãos como a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) ou a Autoridade Internacional de Aviação Civil, com mandato para auditar clusters de supercomputação e certificar modelos que ultrapassem limiares críticos de capacidade.
- Inclusão sem monopólio de veto: Evitar o erro histórico do Conselho de Segurança da ONU. O órgão não pode ficar refém do direito de veto das potências fundadoras; deve integrar representação mandatória do Sul Global para garantir equilíbrio distributivo e proteção soberana universal.
- Composição tripartida: Reconciliar a soberania dos Estados com a competência técnica dos arquitetos de sistemas e o escrutínio independente da sociedade civil e comunidade académica.
A escolha dos líderes
A liderança corporativa e governamental no século XXI mede-se pela capacidade de antecipar ruturas antes que elas se tornem irreversíveis. Não haverá estabilidade económica nem soberania nacional viável num mundo onde sistemas autónomos operam sem salvaguardas globais partilhadas. Manter a inteligência artificial a serviço do progresso humano exige uma decisão política global: a de construir regras universais antes que os limites dos sistemas nos sejam impostos por omissão.
A trabalhar na convergência entre ciência de dados, inteligência artificial e criação de negócios de base tecnológica, Adulai Bary desenvolve soluções orientadas ao impacto económico e à soberania digital. É formado em Métodos de Tecnologia e Matemática Aplicados à Gestão, titular de um MBA em Empreendedorismo & Negócios e certificado em gestão de projetos e normas de operações críticas (como COPC).
No ecossistema de fronteira tecnológica (deep tech), destaca-se como cofundador da Tayyib Global, com operações no Brasil e em Riade, onde lidera o desenvolvimento de sistemas de IA para auditoria automatizada de qualidade e certificação no setor agroalimentar e processados. O seu percurso inclui a liderança de Business Intelligence numa multinacional de telecomunicações, a presidência da Associação de IXP da Guiné-Bissau (GwIX) e a coordenação de iniciativas públicas estratégicas, como o projeto Guiné-Bissau 360.
Como empresário, é fundador e PCA da BIGTechnologies SARL e cofundador de plataformas de impacto como o InnovaLab (onde atua como PCA), Orik Capital, Ubuntu Green Energy e Inunde. Desenvolve ainda trabalho de consultoria e cooperação com organismos multilaterais, incluindo a ONU e o Banco Mundial, no desenho de políticas de transição digital e desenvolvimento socioeconómico.








