A Tesselo apresentou-se ao mercado na semana passada com uma série de soluções de mapeamento baseadas em inteligência artificial. Rémi Charpentier, CEO e um dos cofundadores da start-up, explicou ao Link To Leaders os objetivos que movem este jovem projeto com ambições internacionais.

Criada no ano passado, depois de dois anos de pesquisa e desenvolvimento, a Tesselo apresentou recentemente ao mercado as suas soluções de mapeamento de Portugal continental, que podem ser aplicáveis a setores que vão da silvicultura, à agricultura ou ao planeamento urbano, entre outros. Baseadas em Inteligência artificial, as propostas da Tesselo podem responder a diferentes desafios ambientais, entre os quais a prevenção de incêndios. Um dos cofundadores da start-up explica como tudo começou e quais as metas traçadas para o desenvolvimento e expansão do negócio.

O que levou a Tesselo a sedear-se em Portugal?
Dois dos cofundadores da Tesselo instalaram-se em Lisboa antes de fundarem a Tesselo. Daniel Wiesmann (diretor técnico) chegou a Portugal em 2008 para tirar um doutoramento no Instituto Superior Técnico. Eu,  (diretor executivo) cheguei a Portugal em 2013 onde criei uma pequena consultora de I&D na área da Inteligência Artificial, a Zendag.ai, que fechou em 2017. O Daniel trabalhou como consultor para a Zendag.ai e foi aí que nos conhecemos. O terceiro cofundador, Michael Flaxman (diretor científico) é um cidadão norte-americano com residência em Berkeley (Califórnia).

Decidimos lançar e desenvolver a Tesselo em Portugal por vários motivos: pela existência de um ecossistema de start-ups em franco crescimento, amplo leque de talentos e de oportunidades; custo de vida acessível e onde podemos recrutar facilmente e assumir maiores riscos financeiros; muitos desafios ambientais para resolver em Portugal já que o país é um dos mais expostos da UE às alterações climáticas e onde muito do valor criado está na agricultura e na floresta. Portugal oferece o ambiente certo para testar as nossas tecnologias.

Quais os objetivos para o mercado português?
A nossa ambição é global, mas o nosso mercado primordial é Portugal. Os nossos objetivos são a monitorização de florestas (indústrias do papel, celulose e mobiliário) e trabalhar com 50% das empresas nestes setores até 2021; a monitorização de infraestruturas (redução de fogos florestais junto das linhas de alta tensão); assegurar um projeto piloto com a EDP em 2019 e desenvolver uma solução para as autarquias, em 2020, de modo a poderem cumprir os seus objetivos em termos de limpeza de matas; melhorar o rastreamento da importação de produtos alimentares e desenvolver a monitorização da capacidade de produção de alimentos, por forma a ajudar os importadores (como a Sonae ou Jerónimo Martins…) e garantir que os produtos que adquirem não são fruto de atos de desmatamento ilegal. E também, assegurar um projeto piloto com uma empresa portuguesa do setor alimentar em 2020.

Quais as soluções que a Tesselo oferece e a que setores se destinam?
Estamos a desenvolver quatro soluções, uma para monitorização das florestas para a indústria de celulose, papel e de mobiliário; outra para monitorização de infraestruturas: garantindo distâncias segurança entre infraestruturas (linha de alta tensão, fábricas,…) e vegetação por forma a mitigar o risco de incêndio. Os nossos clientes são gestores de infraestruturas (companhias de eletricidade, autarquias); uma terceira de rastreabilidade de alimentos, ou seja, para monitorizar a produção de alimentos em todo o mundo de modo a  garantir que cumprem os padrões de sustentabilidade (fim do desmatamento, cumprimento de regulações e de normas de rotulagem); e uma outra para avaliação do impacto dos desastres naturais para as companhias de seguros. A Tesselo está a desenvolver uma solução com vista a avaliar a exposição financeira das companhias de seguros após uma catástrofe natural (enchente, tempestade, terramoto,…)

Quantos clientes têm já em Portugal e em que áreas?
Temos quatro clientes em Portugal: três na indústria de papel e celulose e um que é uma empresa de consultoria tecnológica.

“(…) a nossa plataforma analítica de big data permite à Tesselo monitorizar todo o território de Portugal continental de forma contínua (…)”

Qual foi o grande desafio ao longo destes dois últimos anos de pesquisa?
Foi o reforço das nossas capacidades técnicas tanto geograficamente como no tempo. A Tesselo tem agora a capacidade de gerir modelos complexos de Inteligência Artificial a qualquer escala (país, continente) em qualquer período de tempo (até quatro anos com o Sentinel 2, 40 anos com o Landsat), mantendo baixos custos de processamento e de armazenagem.
Graças a este esforço desenvolvido ao longo dos últimos dois anos, a nossa plataforma analítica de big data permite à Tesselo monitorizar todo o território de Portugal continental de forma contínua e com uma resolução de 10m.

Com que parcerias contam atualmente?
São várias. Desenvolvemos parcerias fortes com o Instituto Pedro Nunes (Coimbra), na área das ciências espaciais; com a Agência Espacial Europeia ( recebemos três bolsas de I&D da AEE); com a OpenForests.com, com quem temos projetos em curso no Quénia, na Indonésia e na Costa Rica; com o IPCA (Instituto Politécnico do Cávado e do Ave), porque fornecemos dados aos estudantes para a suas análises espaciais; e também com o CIRAD.fr (Instituto de Pesquisa Agronómica), com quem estamos a desenvolver programas de I&D para melhorar as ciências florestais.

“O desenvolvimento de uma economia sustentável exige mudanças radicais no nosso estilo de vida”.

Considera que as tecnologias modernas são o veículo de transição para uma verdadeira economia sustentável?
O desenvolvimento de uma economia sustentável exige mudanças radicais no nosso estilo de vida. As novas tecnologias não serão suficientes por si só para resolver problemas desta magnitude, mas ajudarão certamente.
A Tesselo ajudará na transição para uma economia mais verde de várias formas: medindo a mudança ambiental ao longo do tempo. A monitorização contínua dos recursos naturais e do meio ambiente permite-nos fornecer recursos de KPI e capacidades e instrumentos para rastrear o progresso e o impacto das políticas / estratégias ambientais;  garantindo o cumprimento de regulamentos porque ajudamos as organizações respeitar as leis ambientais (fim do desmatamento ilegal, do uso de fertilizantes em campos orgânicos, estabelecimento de uma distância segura entre infraestruturas e vegetação,..); e ainda a melhorar o planeamento urbano e paisagístico, fornecendo um simulador de cenários ambientais. O que acontecerá a esta ribeira se construir um estacionamento neste terreno? Como é que o seu planeamento pode afetar o seu ambiente?

Quais os grandes desafios que se colocam à inteligência geoespacial (IGS)?
A IGS enfrenta dois grandes desafios técnicos. Por um lado, o volume de dados, porque  com a chegada de mais satélites com melhores resoluções, o aproveitamento de dados para analise é enorme até mesmo face aos padrões atuais. Como desenvolver aplicações com base nessa grande quantidade de dados, minimizando ao mesmo tempo os custos de processamento e de armazenamento?

Por outro, uma verdade fundamental. Os modelos de Inteligência Artificial exigem uma grande quantidade de dados desde o início. O acesso aos dados de medição em campo é a chave para criar modelos de IA de válidos e fiáveis.

Qual o objetivo da Tesselo a curto prazo?
Distribuir a nossa solução de monitorização florestal para mais clientes de celulose e papel, assegurar um primeiro projeto piloto com uma empresa de eletricidade para demonstrar a capacidade dos nossos recursos de monitorização de infraestruturas, e expandir as nossa capacidades de alertas de desmatamento para a produção de pimenta preta a outros tipos de culturas.

Têm apenas os olhos postos em Portugal ou também noutros países?
Vamos até onde o satélite nos levar, ou seja, a toda a parte. Temos projetos em curso no Brasil, EUA, França, Quénia, Índia, Costa Rica, Espanha e Portugal.

Previsões de faturação?
No primeiro ano, 2017, os resultados comerciais da Tesselo foram na ordem dos 4.500 euros. E para 2019 esperamos resultados comerciais na ordem dos 400 mil euros.

“A French Tech foi fundamental para o desenvolvimento da nossa rede, tanto em Portugal como em França”.

De que forma a sua experiência na La French Tech contribui para o lançamento da Tesselo?
A French Tech foi fundamental para o desenvolvimento da nossa rede, tanto em Portugal como em França. A rede proporcionou-nos acesso a pessoas-chave nos governos e empresas portuguesas e franceses.

Que balanço faz do trabalho da La French Tech junto das empresas francesas?
A La French Tech é essencialmente um impulsionador de redes. Com uma rede global de empreendedores franceses em todos os principais polos de tecnologia do planeta, a ajuda a explorar novos ecossistemas.

O que acha do ecossistema empreendedor português? O que mais o fascina e o que mais o intriga?
O ecossistema português é muito dinâmico e fácil de navegar. Os portugueses falam muito bem inglês, pelo que  podemos começar a fazer negócios imediatamente e trabalhar internacionalmente muito rapidamente.
Na verdade, sendo Portugal um mercado pequeno, isso obriga as start-ups a pensarem internacionalmente desde o início. Portugal é uma incubadora de crescimento internacional.

Respostas rápidas:
O maior risco: a emergência ambiental não é vista como suficientemente importante por parte dos líderes empresariais.
O maior erro: acreditar que os clientes estão cientes do seu impacto ambiental e sabem o que fazer.
A maior lição: não vendemos uma tecnologia, vendemos soluções para melhorar a sustentabilidade ambiental.
A maior conquista: Desenvolvemos os mais avançados modelos temporais de análise de vegetação. Os nossos modelos de aprendizagem da máquina são aplicados para melhor compreender as estações e os padrões de crescimento das plantas, permitindo à Tesselo obter vantagens únicas ao nível da análise do desempenho.

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