Esteve oito anos em Londres, quatro deles na Google, mas foi em Lisboa que viu a oportunidade de criar o seu próprio negócio. Chama-se Clara Armand-Delille e é fundadora da ThirdEyeMedia. Em entrevista ao Link To Leaders, a empreendedora fala de como uma viagem para resolver um problema reputacional do motor de busca a fez apaixonar-se por Lisboa e dos desafios de gerir equipas, espalhadas por vários cantos do mundo.

Clara Armand-Delille tem nacionalidade americana e francesa, e deixou uma vida de quatro anos nos escritórios da Google em Londres, onde trabalhava na parte da comunicação, mais quatro anos em empresas como a Accel e a iZettle para criar a sua própria empresa em Portugal, a ThirdEyeMedia, ligada às Relações Públicas.

Em 2015, e já na capital portuguesa, a empreendedora começou por fazer trabalhos como freelancer  e deparou-se com pedidos de amigos e ex-colegas a solicitar “dicas, recomendações e apoio” sobre as melhores formas para divulgarem produtos ou serviços. Quando, no verão desse mesmo ano, já tinha uma mão cheia de clientes, percebeu a necessidade de preencher esta lacuna do mercado e criou a ThirdEyeMedia, uma agência de relações públicas especializada em tecnologia, start-ups, scaleups e fundos de investimento. Sete anos depois, a empresa conta com clientes em mercados como Itália, Espanha, França, Reino Unido, Estados Unidos e América do Sul. E promete continuar a sua expansão internacional.

O que a levou a lançar a ThirdEyeMedia e porquê Lisboa?
Quando fui contratada pela Google em Londres, enquanto franco-americana, recentemente licenciada em Ciências Políticas e numa altura em que a Internet estava a começar a ser valorizada no mundo dos negócios a uma escala mundial, percebi que uma grande mudança e oportunidade estavam a surgir na minha vida: um mundo de possibilidades que se tinha acabado de abrir à minha frente.

A cultura na Google é a verdadeira ascensão da expressão “salve-se quem puder”. Aprendi a destacar-me neste tipo de ambiente nos meus primeiros anos de carreira. Também progredi muito a nível profissional: quando entrei na Google estávamos literalmente a inventar as regras das Relações Públicas digitais. Na altura, publicávamos artigos no blog para os jornalistas conseguirem aceder às nossas notícias, em vez de enviar um comunicado de imprensa para uma lista de jornalistas, o que ainda faziam as empresas de relações públicas tradicionais. Lançávamos os press releases sob embargo de forma a controlar quem tinha acesso a determinadas notícias e como isso iria afetar os media. Estas são técnicas que começaram a ser utilizadas na comunicação política e, mais tarde, em grande escala na área da tecnologia, que ocupava um espaço cada vez maior na agenda do Lobis Europeus.

Vim pela primeira vez a Lisboa, para resolver um problema reputacional para a Google. Na altura, Espanha tinha processado a Google por causa dos direitos de autor dos utilizadores e Portugal estava prestes a fazer o mesmo. A Google recebeu uma ameaça para processar a Google News e a Google Books por questões relacionadas com direitos de autor.

Duas semanas mais tarde, estava num voo para Lisboa com o Gestor de Produto da Google News, numa visita aos grupos editoriais do país para dar formação sobre os benefícios da classificação da web, da capacidade de descoberta e do tráfego na web, o que, em última análise, significava receitas para eles. O resto é história, os meios de comunicação portugueses perceberam a oportunidade que a Internet representava.

“Há 8 anos quando me mudei, Lisboa era considerada a nova tech hub emergente da Europa com um enorme potencial de crescimento, o que me cativou ainda mais”.

E apaixonou-se por Lisboa?
Nesta visita, apaixonei-me pela cidade, pelo estilo de vida relaxado, comecei a fazer viagens regulares para Lisboa para descansar, sempre com o meu tapete de yoga e uma pequena mala com roupa de verão! A decisão de me mudar para Lisboa veio apoiar os meus objetivos pessoais e profissionais: uma vida mais calma e com um custo de vida acessível. Há oito anos quando me mudei, Lisboa era considerada a nova tech hub emergente da Europa com um enorme potencial de crescimento, o que me cativou ainda mais.

A ThirdEyeMedia nasceu de uma combinação de vários ingredientes: a minha própria intuição, experiência profissional e o ambiente e condições certas, vontade de uma mudança estrutural e não só mudança de empresa. Percebi que estava a ser constantemente solicitada por ex-colegas e conhecidos com empresas na indústria tecnológica para dar dicas, recomendações e apoio. Quando cheguei à conclusão de que tinha uma rede bastante sólida de contatos, disse a mim mesma: à próxima pessoa que vier ter comigo a pedir conselhos, vou responder com uma proposta e orçamento.

São uma start-up que apoia outras start-ups com um driver crucial para o seu crescimento e desenvolvimento: a comunicação. O que vos diferencia da oferta que existe no mercado?
Passámos de trabalhar predominantemente com empresas em fase de arranque, para trabalhar também com scale-ups e grandes empresas tecnológicas. Em 2015 costumávamos fazer muitos one-shots para empresas mais jovens e com menor financiamento. Hoje, a grande maioria dos nossos clientes são empresas tecnológicas bem financiadas, mais maduras, que procuram exatamente o que oferecemos: apoio de Relações Públicas multimercado e multilinguístico.

Uma das vantagens da ThirdEyeMedia é que centralizamos as estratégicas multimercado. Os clientes contratam-nos apenas a nós para criarmos e implementarmos estratégias de PR em mercados como Itália, Espanha, França, Reino Unido, entre outros, o que nos permite poupar enormes quantidades de tempo de gestão e informação e de custos. Através deste modelo de negócio único, conseguimos garantir um messaging e branding para o nosso cliente, alinhado a nível internacional, enquanto garantimos também uma estratégia localizada para cada mercado.

Espanha, Itália, Alemanha, Rússia estão entre os mercados internacionais para os quais a agência tem trabalhado.  Exportar serviços para novos mercados europeus continua a fazer parte da vossa estratégia? Quais os objetivos?
Trabalhamos com mais de 20 parceiros em vários países da Europa e Américas, incluindo equipas inteiras de PR e freelancers. Os nossos serviços estão centralizados na nossa equipa in-house e distribuídos pelos nossos parceiros. Para além da nossa forte presença na Europa, nomeadamente nos países que refere e ainda Portugal e o Reino Unido, oferecemos também os nossos serviços no mercado dos Estados Unidos e América do Sul (Brasil, Argentina e México).

Atualmente, queremos continuar a apostar na exportação dos nossos serviços para novos países da Europa e do mundo, onde os nossos clientes querem estar presentes!

“De forma intuitiva, construí naturalmente a equipa com profissionais empreendedores e autónomos. Como costumo dizer aos meus clientes, somos empresários a aconselhar outros empresários”.

Quais os desafios de gerir uma equipa em trabalho remoto, com diferentes nacionalidades, culturas e éticas de trabalho?
O nosso modelo de negócio é à prova de pandemias! Estamos em trabalho remoto desde 2014. De forma intuitiva, construí naturalmente a equipa com profissionais empreendedores e autónomos. Como costumo dizer aos meus clientes, somos empresários a aconselhar outros empresários.

A minha experiência mostrou-me que, quando os processos internos da empresa estão bem consolidados, todos os membros da equipa sabem como agir, têm um rumo, objetivos concretos e não se sentem desamparados. O trabalho remoto vem também acompanhado por mais liberdade, numa equipa com diferentes culturas, esta é uma característica que permite a cada pessoa uma gestão mais personalizada do seu tempo e das suas necessidades, sempre aliado a uma enorme responsabilidade por parte de cada um.

Como avalia o ecossistema empreendedor português e o que distingue de outros ecossistemas onde a ThirdEyeMedia também está presente?
Desde que vim para Portugal, em 2014, o país evoluiu muito em termos de empreendedorismo. Temos cá cada vez mais empresas, tanto estrangeiras como nacionais, que apostam no país para consolidarem as suas equipas, enquanto que países como o Reino Unido ou França têm um mercado muito mais feroz e saturado, pela dimensão do ecossistema, e por serem considerados há mais de uma década como hubs europeus para empresas. Os media em Portugal ainda têm um grande interesse pela inovação e empreendedorismo, ao contrário de países como França, com programas como a Station F e as suas 100 startups, que já não têm.

Portugal é o país ideal para testar um produto. A sua dimensão mais reduzida e a barreira linguística, combinados com uma elevada penetração da Internet e literacia informática, fazem dele um mercado ideal para lançar e testar serviços e funcionalidades. Mais empresas devem tirar partido disto. É um país que abraça todo o tipo de inovação, que oferece diversos tipos de ajudas para novos empreendedores e que apresenta uma concorrência muito menor face a outros países da Europa.

De todos os desafios que já passou, qual o que mais a marcou e que teve impacto na sua carreira?
Antes de criar a ThirdEyeMedia, estive em seis empresas diferentes e fui despedida de três delas. Surpreendentemente, nunca foi devido ao meu desempenho profissional. Ter uma opinião e uma visão própria nem sempre são características bem aceites, especialmente em ambientes predominantemente masculinos.

Estou infinitamente grata por estes percalços no caminho que ao longo do meu percurso fui transformando em oportunidades de crescimento e criatividade. Olho para trás e percebo que, sem estas dificuldades, nunca teria lançado o meu próprio negócio. Tive de bater no fundo no mundo dos negócios para ter a coragem de lançar sozinha a minha própria empresa de relações públicas.

O que deve ser feito para promover a igualdade e a diversidade nos cargos de liderança, nomeadamente no mundo da tecnologia, para que mais mulheres sejam reconhecidas pelo seu talento, pela sua formação e pelo seu trabalho?
Não é só falar, é preciso agir. Todas as empresas têm algo a dizer sobre a igualdade e inclusão, mas são poucas as que tomam realmente ação. A falta de diversidade nas empresas é uma realidade e é muito simples: se uma empresa de engenharia estiver a recrutar, provavelmente vai pesquisar primeiro na sua rede de contatos interna, acabando por encontrar candidatos que andaram na mesma faculdade, com opiniões muito parecidas e com percursos quase idênticos. Quando esta empresa parar para avaliar e perceber que no escritório só estão pessoas do mesmo meio e com a mesma educação, já é demasiado tarde, a equipa é 80% masculina, e provavelmente também 80% branca…

O preconceito inconsciente é insidioso. Tem de ser combatido, e para o fazer, tem de estar presente na mente dos executivos das empresas, e têm de se tomar medidas proativas para o combater. Há ainda muito trabalho a ser feito nesta área.

“Uma boa remuneração, oportunidades de crescimento de carreira, mentoria e gestão consistente são fatores que contribuem fortemente para um local de trabalho saudável e igualitário”.

Na sua opinião, o que diferencia a visão das mulheres e dos homens no mundo dos negócios?
Ainda existe uma enorme diferença na perceção, mas também no salário, tratamento e oportunidades para as mulheres no trabalho. Cada uma de nós tem um papel a desempenhar para trazer equilíbrio ao local de trabalho. Uma boa remuneração, oportunidades de crescimento de carreira, mentoria e gestão consistente são fatores que contribuem fortemente para um local de trabalho saudável e igualitário.

Que conselho deixaria a uma jovem executiva com ambição de alcançar um cargo de liderança?
Como consultora, a liderança tem sido um bi-produto no cultivo da excelência. No final de contas, estou a vender a minha expertise, estou a vender uma estratégia e a sua execução. Tenho procurado incansavelmente a excelência no que faço e foi em torno deste fator que construí uma equipa à minha volta.

Quais as principais competências para se ser uma boa líder nos dias de hoje?
Perseverança. Uma qualidade sobre a qual não se fala muito nas histórias de sucesso, mas que está sempre presente. O sucesso só vem para quem se mantém fiel aos seus objetivos e não desiste. Quantas vezes ouvimos dizer que o talento, em grande parte, se deve à prática? Há um livro chamado “the 10,000 hours” que explica isto muito bem.

Como encara o futuro das relações públicas?
A comunicação é algo que está em constante mudança e evolução. Enquanto profissional de Relações Públicas, é fundamental manter-me a par das novas tendências para conseguir oferecer aos nossos clientes um serviço de excelência! Acredito que o futuro das Relações Públicas está próximo e nós, na ThirdEyeMedia, já estamos a caminhar para ele: serviços integrados e 360 com performance, influencers, media e redes sociais, sendo que todos os passos da estratégia das empresas vão estar interligados. Os departamentos das empresas vão deixar de separar Marketing e Comunicação, para se juntarem num só e criarem estratégias interligadas.

Como vê a ThirdEyeMedia daqui a três anos?
A trabalhar com clientes globais e a arrasar!

O que ainda falta fazer à Clara gestora? E à Clara mulher?
Tanto na minha vida pessoal como profissional, procuro cultivar o equilíbrio entre a ambição e crescimento por um lado, e gratidão do outro. O Yoga, que pratico há mais de dez anos, é um pilar fundamental na minha vida e uma fonte de perspetiva e equilíbrio.

Respostas rápidas:
O maior risco: Deixar o emprego confortável em Londres para ir viver num país onde não tinha raízes, não tinha planos e não falava a língua.
O maior erro: Olho para os erros como lições. Todos os meus erros, quando reconhecidos e aprendidos, impulsionaram o próximo nível de crescimento na minha vida, tanto pessoal como profissional.
A maior lição: Ouvir a nossa própria intuição. Se não se sentir bem consigo a fazer algo, não o faça!
A maior conquista: Mudar-me para Lisboa sem emprego com três meses de poupanças no bolso e tornar-me dona de uma empresa em três anos.

 

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