Opinião

Uma geração sem líderes?

José Crespo de Carvalho, presidente do Iscte Executive Education
Foto: José Crespo de Carvalho, presidente do Iscte Executive Education

Há uma pergunta incómoda a aparecer nas universidades, nas empresas, nas organizações e no Estado. Não é apenas saber se as novas gerações querem trabalhar. Essa é a formulação fácil. Talvez até injusta. E parece-me que cada vez mais óbvia, simplificando, na resposta.

As questões devem ser outras: querem liderar? Querem assumir responsabilidades? Querem responder por pessoas, decisões, erros e consequências? Liderar não é ter estatuto, gabinete, título ou visibilidade. Isso até é tudo mais ou menos arranjável com cosmética. Porém, liderar é responder quando as coisas correm mal. É decidir com informação incompleta. É aguentar pressão. É proteger equipas. É dizer que não. É saber que nem tudo é compatível com conforto individual.

Se há uma geração educada para evitar fricção, fugir ao desconforto, confundir crítica com agressão e exigência com toxicidade, a liderança será sempre uma dor de cabeça. Não por falta de inteligência, formação ou talento técnico. Nem por ser pior que outras gerações. Antes por total falta de disposição para carregar o peso da responsabilidade. Diga-se, no geral, peso.

O discurso sobre trabalho insiste, quase sempre com razão, em respeito, saúde mental, equilíbrio, flexibilidade e propósito. Tudo isso corrigiu excessos reais. Mas há uma parte obliterada: nenhuma empresa, hospital, universidade, autarquia ou ministério funciona apenas com pessoas equilibradas e satisfeitas. Funciona porque há alguém que assume, resolve, decide e toma conta das coisas. Ponto. Caso contrário, não havia nem empresas, nem hospitais, nem universidades, nem autarquias, nem ministérios ou o que fosse.

E aqui entra a segunda questão: o chamado work-life balance será possível para todos? Será possível, nos termos em que é “vendido”, para quem vai liderar?

A resposta, por antipática que seja, parece-me clara: não. Pelo menos não sempre. Quem lidera deve ter vida pessoal, família, descanso, saúde e limites. Óbvio. Mas esse alguém não deve imaginar que a liderança se possa exercer apenas dentro de horários perfeitos. Há crises, urgências, decisões fora de horas, clientes que exigem resposta, problemas que rebentam quando menos convém.

Liderar é aceitar que a realidade não pede licença ao eventualmente idealizável.

O risco é este: se todos quiserem equilíbrio absoluto, previsibilidade total, baixo desconforto e responsabilidade limitada, quem ficará disponível para comandar? Quem aceitará dirigir escolas, hospitais, empresas, serviços públicos e projetos difíceis? Quem estará disposto a ser cobrado? Ah, já sei, vão responder-me que serão os autómatos a fazer isso. Pois sim. No dia em que deixarmos o autómato liderar homens…enfim. Sem mais comentários nesta linha.

Estamos a criar uma sociedade com muitos qualificados e poucos responsáveis. Muitos competentes e poucos disponíveis para decidir. Muitos opinadores televisivos e de bancada e poucos ou nenhuns construtores. Muitos que querem impacto, mas poucos que aceitam o preço do impacto.

Uma organização que não tenha quem assuma o comando, que lidere, fica em suspensão. Reúne, discute, consulta, adia, comunica, justifica. Mas não anda. Se certos lugares deixarem de ser desejados, teremos um vazio de liderança. Não com grande alarido. Bem pior: de forma silenciosa. Um vazio de pessoas que façam acontecer.

Talvez esteja na altura de dizer aos mais novos, sem moralismo: o mundo precisa de equilíbrio, sim, mas também precisa de entrega. Tem de ter direitos, mas, da mesma forma, deveres. Precisa de bem-estar, mas, igualmente, de responsabilidade.

Se não voltarmos a educar e a formar pessoas capazes de assumir, decidir e responder, faltará comando. Faltará liderança. E, lá está, quem educa agora filhos deve pensar exatamente o que está a fazer por eles. Tal como nas escolas e nas universidades. Se a apaparicá-los e a não os deixar falhar ou se a prepará-los para as adversidades. Porque as adversidades virão como a mudança: são e serão uma constante. Vamos sentir falta, claramente, de quem tome conta das coisas. Aliás, já estamos a sentir.

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José Crespo de Carvalho

José Crespo de Carvalho

Licenciado em Engenharia (Instituto Superior Técnico), MBA e PhD em Gestão (ISCTE-IUL), José Crespo de Carvalho tem formação em gestão, complementar, no INSEAD (França), no MIT (USA), na Stanford University (USA), na Cranfield University (UK), na RSM (HOL), na AIF (HOL) e no IE (SP). É professor catedrático do ISCTE-IUL, presidente da Comissão Executiva do ISCTE Executive Education e administrador da NEXPONOR. Foi diretor e administrador da formação de executivos da Nova SBE e professor catedrático da Nova SBE (Operations... Ler Mais..

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