Opinião

Do autorádio ao líder-painel amovível: compreender o knowledge hoarding/hiding

Carlos Rocha, economista e gestor
© D. R.

Os autorádios já foram equipamentos caros e muito cobiçados. Entre estudantes, recém-formados e outros grupos sociais, possuir um autoradio chegou a ser um símbolo de estatuto social.

Concretamente, na década de 1990, até existia um mercado negro ativo para a sua revenda. Os métodos utilizados para obter esses equipamentos de forma fraudulenta consistiam, geralmente, em partir os vidros dos automóveis, de forma rápida e brutal, ou em arrombar as fechaduras das portas. Por vezes, os ladrões levavam todo o equipamento, deixando apenas os fios à mostra.

Assim, uma das formas de evitar o roubo consistia em transportar o autorradio para onde quer que o proprietário fosse, pois, deixá-lo no automóvel era visto como um convite ao furto. Nos estabelecimentos de ensino, restaurantes, centros comerciais e até nas festas, era comum ver pessoas a carregar os seus autorrádios. Faziam-no para proteger o equipamento, mas também para demonstrar algum estatuto social, uma vez que poderiam simplesmente guardá-lo na bagageira.

A tecnologia evoluiu e, para ultrapassar o inconveniente de transportar um autorádio bastante pesado, os novos modelos passaram a incorporar um painel frontal amovível. Além de mais leve, esse painel ocupava menos espaço e podia ser facilmente transportado para qualquer lugar.

Posteriormente, nos autorrádios de gama alta, em vez de todo o painel frontal ser amovível, apenas uma parte podia ser retirada. Esta apresentava dimensões ainda mais reduzidas e podia até ser transportada no bolso.

Os autorrádios mais recentes fazem parte de sistemas integrados de navegação, áudio e vídeo, incorporados nas viaturas. Atualmente, já não é necessário retirar o autorádio ou o painel amovível para o transportar. Trata-se de uma evolução tecnológica que contribuiu para resolver o problema do roubo desses equipamentos.

A liderança, dependendo do nível ocupado e da própria organização, também pode ser vista como um símbolo de estatuto social e económico. Mas terá a liderança evoluído? É neste ponto que a evolução do autorádio se transforma numa metáfora da liderança e da ocultação do conhecimento nas organizações. Tal como o painel amovível, alguns líderes concentram em si informações, competências e processos essenciais, sem os partilhar com a equipa. Quando deixam a organização, levam consigo esse conhecimento, deixando a estrutura vulnerável e com menor capacidade de funcionamento.

Ocultação do conhecimento: conceptualização do conceito

Um líder que não partilha conhecimento comporta-se como um painel amovível: quando sai, leva consigo o essencial. Este padrão enquadra-se nas teorias de ocultação do conhecimento, um fenómeno recorrente nas organizações. Trata-se, muitas vezes, de uma estratégia implícita: o líder retém o saber crítico e os processos-chave, preservando para si o controlo. Quando abandona a organização, esse capital desaparece com ele. A equipa fica apenas com a “carcaça do autorádio” — a estrutura permanece, mas o que lhe dava utilidade já não está.

Os autores Tokyzhanova e Durst (2024) definem a ocultação do conhecimento como a tentativa intencional de um indivíduo reter ou esconder informações, ideias e know-how solicitados por outra pessoa dentro de uma organização. Trata-se de um comportamento contraproducente que, todavia, não visa necessariamente prejudicar uma pessoa ou a organização, podendo constituir apenas uma resposta a uma situação específica.

Com base nos resultados da sua revisão de literatura, os autores apresentam diferentes teorias para compreender a ocultação do conhecimento, bem como diversas conceptualizações do fenómeno. Para o caso em análise, podem ser destacadas as seguintes teorias:

  • Teoria da Troca Social – Explica que as relações funcionam com base na reciprocidade, ajudando a perceber por que algumas pessoas escondem conhecimento para manter esse equilíbrio
  • Teoria da Conservação de Recursos – Defende que as pessoas tendem a proteger os seus recursos, como o conhecimento, o que pode levá-las a não o partilhar.
  • Teoria da Aprendizagem Social – Mostra que as pessoas aprendem com os outros, o que ajuda a explicar como esconder conhecimento pode ser imitado e tornar-se comum nas organizações

Primeira conceptualização: comportamento social baseado em trocas

Primeira conceptualização: comportamento social baseado em trocas
A ocultação do conhecimento pode ser vista como um comportamento baseado na reciprocidade. Segundo a Teoria da Troca Social, relações de trabalho assentam em expectativas mútuas: quando há apoio e empoderamento por parte dos líderes, os colaboradores tendem a partilhar mais conhecimento e a ocultá-lo menos. Relações de confiança e investimento no desenvolvimento reforçam esse efeito.
Por outro lado, comportamentos negativos, como liderança abusiva, geram respostas semelhantes, criando ciclos de conflito e maior ocultação do conhecimento.

Segunda conceptualização: comportamento aprendido no ambiente social

A ocultação do conhecimento pode ser entendida como um comportamento aprendido. Segundo a Teoria da Aprendizagem Social, as pessoas aprendem ao observar os outros, especialmente líderes.
Lideranças éticas incentivam a partilha, enquanto líderes que escondem informação sinalizam que esse comportamento é aceitável, levando os colaboradores a imitá-lo.
Assim, ambientes marcados por injustiça e liderança negativa aumentam a ocultação, enquanto contextos de colaboração e apoio a reduzem.

Conclusão

Os autores concluem que a ocultação do conhecimento é prejudicial, afetando o desempenho, a inovação e o compromisso organizacional.
É um comportamento observável, explicável por decisões racionais no contexto organizacional, e pode surgir como reação defensiva a pressões sociais, visando proteger recursos ou a posição individual.
Trata-se também de um fenómeno relacional, influenciado pelo clima e pela qualidade das interações. Tal como um painel amovível, quando o conhecimento fica concentrado no líder, a sua saída pode deixar a equipa sem uma parte essencial da sua capacidade de funcionamento.

Referências:
Tokyzhanova, T., & Durst, S. (2024). Insights into the use of theories in knowledge hiding studies: a systematic review. VINE Journal of Information and Knowledge Management Systems

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Carlos Rocha

Carlos Rocha

Carlos Rocha é economista e atualmente é vogal do Conselho de Finanças Públicas de Cabo Verde e ex-presidente do Fundo de Garantia de Depósitos de Cabo Verde. Foi administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi administrador executivo da CI - Agência de Promoção de Investimento. Doutorado em Economia Monetária e Estabilização macroeconómica e política monetária em Cabo Verde, pelo Instituto Superior de Economia e Gestão – Lisboa, é mestre em... Ler Mais..

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