Opinião

O lazer esquecido

João Sevilhano, Estratégia & Inovação na Way Beyond
Foto: João Sevilhano

Em 2023 — há uns meros três anos —, quarenta e uma empresas portuguesas experimentaram a semana de quatro dias. Seis meses, uma redução média de 13% das horas de trabalho, sem cortes salariais. No fim, 95% avaliaram a experiência positivamente e mais de 80% decidiram manter o modelo.[1]

Não fomos os primeiros e, por isso, faltou-nos sermos originais: a Islândia pusera 2.500 pessoas a trabalhar menos horas entre 2015 e 2019, a Espanha lançara um piloto parecido em 2021, a Microsoft do Japão chegara a registar um aumento de 40% na produtividade com semanas de quatro dias. Durante dois ou três anos, a promessa covidiana de repensar o papel do trabalho na nossa vida parecia estar com força.

Ia jurar que, entretanto, se deixou de falar do assunto. Não é bem verdade — e o que se passa é pior. Continua a falar-se, mas mudou-se o tempo verbal. Em 2023 experimentava-se, no presente, com empresas concretas, relatórios e números verificáveis; em 2026 profetiza-se. O presidente do maior banco americano anuncia que a tecnologia trará semanas de três dias e meio; Bill Gates pergunta em voz alta se não chegaremos a duas.[2] A inteligência artificial, garantem, vai finalmente entregar-nos o tempo livre que as máquinas anteriores ficaram a dever. A profecia tem uma vantagem clara sobre a experiência: não obriga ninguém a nada.

Carissa Véliz, com quem tive o prazer de partilhar um palco em Maio passado, publicou este ano um livro sobre o assunto — Prophecy, um percurso que vai dos oráculos antigos à IA — onde defende que a promessa da previsão nunca foi, no fundo, o conhecimento do futuro: foi sempre o poder sobre quem acredita nela.[3] O oráculo não precisa de acertar; precisa de ser consultado. E quem nos convence de que o futuro já está escrito, e de que é ele quem o sabe ler, dispensa-se de negociar o presente. Vistas assim, as profecias das semanas de três dias e meio produzem o seu efeito: sossegam-nos hoje sem comprometer ninguém amanhã. Com uma agravante que os oráculos antigos não tinham: o profeta moderno acumula as duas pontas do negócio. Quem nos promete a semana de dois dias vive de nos vender as ferramentas que preenchem, tantas vezes à força, a de cinco.

Entretanto, no presente do indicativo, os dados dizem outra coisa. Um estudo que acompanhou a actividade digital de mais de dez mil trabalhadores concluiu que, com a adopção da IA, a vida de trabalho se tornou mais intensa: o tempo passado em email e mensagens mais do que duplicou e o uso de software de trabalho subiu 94%. Investigadores de Berkeley observaram que quem usa IA passou a aceitar tarefas que antes subcontratava e a encaixar rajadas de trabalho à noite, aos fins-de-semana, nas salas de espera.[4] O tempo de trabalho concentrado, esse, caiu 9%. Já há nome para o estado mental que daqui resulta: AI brain fry — cérebro frito.[5] Sem querer — e é isto que me parece digno de nota —, está-se a fazer mais e a pensar menos.

Antes de embarcar na indignação, convém dar a volta ao argumento. Ninguém obrigou estes trabalhadores a encher as salas de espera de trabalho: muitos fazem mais porque querem, e David Brooks — o colunista da Atlantic que reuniu os dados acima — vê nisso a chave do futuro: quando a inteligência é abundante, diz, o que passa a ser valioso é a vontade. Pode ser. Mas a escolha de cada um não fica com cada um. O mesmo Brooks regista que a IA desloca as expectativas — as nossas e as dos chefes — sobre o que cabe num dia de trabalho; e expectativas deslocadas não regridem nem se alinham por si. O ritmo que uns escolhem por gosto torna-se a bitola por que todos passam a ser medidos, e quem trabalha as horas do contrato volta a ser olhado de soslaio. O mecanismo não é novo; a dimensão parece maior.

Nada disto devia surpreender quem conheça o historial deste tipo de promessa. Keynes, em 1930, com o mundo a afundar-se na Depressão, previa para a geração dos netos uma semana de quinze horas e uma humanidade capaz de «preferir o bom ao útil». A profecia económica parece ter-se cumprido: Keynes estimava que o nível de vida, num século, se multiplicasse por quatro a oito, e foi o que aconteceu nos países ricos.[6] Ganhou-se a produtividade que compraria o tempo livre; o tempo é que não chegou a conquistar a liberdade.

Antes dele, em 1926, Henry Ford instituíra a semana de cinco dias nas suas fábricas com palavras que quase o fariam passar por defensor da boa vida — era chegada a hora, dizia, de deixar de ver o lazer dos operários como «tempo perdido ou privilégio de classe». Teve o cuidado de desfazer o equívoco na frase seguinte: claro que havia um lado humanitário na semana mais curta, mas demorar-se nesse lado era meio caminho para os sarilhos, «porque então o lazer poderia passar para antes do trabalho, em vez de ficar para depois — que é o lugar dele». Operários descansados trabalhavam melhor e, com mais um dia livre, compravam mais automóveis. O lazer entrou na fábrica como entrou nos escritórios um século depois: pela contabilidade.

Krzysztof Pelc escreveu sobre este paradoxo na Atlantic, em 2021, em plena euforia dos pilotos: o lazer é útil — mas apenas enquanto permanecer lazer. A tese vem de um filósofo que me acompanha há anos, Josef Pieper: «o lazer não existe por causa do trabalho».[7] No momento em que o justificamos pela produtividade que gera — trabalhadores mais frescos, mais criativos, mais rentáveis —, perdemos exactamente aquilo que o tornava valioso. O lazer que se justifica pela produtividade só dura enquanto a necessidade de se voltar a ser produtivo não exigir a extinção desse mesmo lazer. Assim se continua na «roda de roedor». A semana de quatro dias foi vendida aos decisores como truque de produtividade; era uma questão de tempo até aparecer um truque melhor.

Não escrevo isto de fora. Em 2017, defendi por aqui que era preciso «criar espaço e respeitar o tempo para o ócio, com vista ao desenvolvimento do negócio». Parecia-me hábil falar aos decisores na sua língua para fazer passar a ideia. Só mais tarde percebi o preço — ao defender a quietude pelo que ela produz, «o fazer volta a entrar, agora pela porta das traseiras, vestido de ócio criativo».[8] O argumento instrumental não é uma etapa pedagógica a caminho do lazer a sério; é uma espécie de contrato ingénuo que garante que o lazer nunca se instala. Vendemos o descanso como investimento e depois admiramo-nos de ele ser tratado como qualquer investimento: liquidado assim que aparece um activo com melhor rendimento.

Apareceu. Se o descanso valia como meio de aumentar o desempenho, a máquina que aumenta o desempenho sem descanso torna-o dispensável. Não foi preciso ninguém decidir contra o tempo livre; bastou que a optimização, de novo em voga e agora com meios à altura das ambições, resolvesse a questão por defeito. O tempo que a IA poupa não chega a ser tempo: é reabsorvido antes de existir, convertido em mais tarefas, mais mensagens, mais bots para supervisionar. Ford, ao menos, entregava o Sábado — precisava de gente com tempo para comprar carros. O modelo actual nem isso: a mesma máquina que produz por nós — e que, por isso, nos promete mais produtividade — ocupa-nos o tempo todo.

Empresas portuguesas, com nomes e moradas, mediram o que acontece quando se trabalha menos — e avaliaram-no positivamente, e mantiveram-no. Terão, teremos, esquecido essas conclusões promissoras? O relatório final saiu em finais de 2024, já com outro governo, e a extensão à administração pública ficou-se pelas intenções — o primeiro-ministro chegou a admitir a ideia, eventualmente sem mexer no horário semanal.[9] Entretanto, longe do ruído, os Açores têm neste momento quase quatro centenas de funcionários públicos a testar as trinta e duas horas, acompanhados pelos mesmos investigadores do piloto de 2023.[10] É assim que se lida com um sucesso incómodo: não se mata — reformula-se, adia-se, empurra-se para a periferia, e espera-se que a conversa mude de assunto. A conversa, obediente, mudou: fala-se agora do que a IA fará por nós.

A semana de cinco dias de Ford faz este ano cem anos. A promessa de mais tempo livre também. Uma instalou-se; a outra continua marcada para quando houver tempo.

[1] Projecto-piloto coordenado por Pedro Gomes e Rita Fontinha, por iniciativa do Ministério do Trabalho, entre Junho e Dezembro de 2023. Os resultados estão em https://www.planapp.gov.pt/estudos-avaliacao/avaliacao-do-projeto-piloto-semana-de-quatro-dias/

[2] Jamie Dimon (JPMorgan Chase) em 2023; Bill Gates em 2025. Um apanhado das profecias em https://fortune.com/2026/01/02/four-day-workweek-possible-2026-business-leaders-jensen-huang-elon-musk-bill-gates-jamie-dimon/

[3] Carissa Véliz, Prophecy: Prediction, Power, and the Fight for the Future, from Ancient Oracles to AI, Doubleday, Abril de 2026. Véliz nota ainda que as previsões sobre humanos tendem a ser auto-realizáveis — o que torna curioso o caso desta: promete-se o tempo livre há um século sem que a profecia dê sinais de se querer cumprir. Talvez porque, ao contrário das outras, ninguém organiza a vida em função dela.

[4] O teletrabalho pandémico já tinha ensaiado esta invasão do tempo que não é do trabalho — escrevi sobre isso em «Para quando um equivalente ao #MeToo para o tempo?» (2020): https://waybeyondway.substack.com/p/para-quando-um-equivalente-ao-metoo-para-o-tempo

[5] Os dados da ActivTrak e de Berkeley são citados por David Brooks em «The People Who Will Thrive in the AI Age», The Atlantic, Junho de 2026: https://www.theatlantic.com/ideas/2026/06/ai-open-ai-anthropic/687689/

[6] John Maynard Keynes, «Economic Possibilities for our Grandchildren» (1930). O ensaio previa duas coisas: o crescimento da riqueza e a sua conversão em tempo livre. Costuma dizer-se que Keynes falhou; falhou meia profecia.

[7] Krzysztof Pelc, «Stop Treating Leisure as a Productivity Hack», The Atlantic, Julho de 2021: https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2021/07/stop-treating-leisure-as-a-productivity-hack/619467/. O ensaio de Josef Pieper é Muße und Kult (1948), traduzido como Leisure: The Basis of Culture. Explorei-o — incluindo a etimologia que faz do lazer, skholé, a raiz da palavra «escola» — em «Continuando a procurar uma nova definição de “trabalho”» (2018): https://waybeyondway.substack.com/p/continuando-a-procurar-uma-nova-definicao-de-trabalho

[8] As duas frases são minhas: a primeira de «Por uma nova definição de trabalho» (2017): https://waybeyondway.substack.com/p/por-uma-nova-definicao-de-trabalho; a segunda de «“não fazer nada”, “fazer nada” ou “não fazer”?». Voltei à relação entre tempo, trabalho e utilidade em «Deixar de usar o tempo como medida para o trabalho e dar importância ao que é inútil» (2018): https://waybeyondway.substack.com/p/deixar-de-usar-o-tempo-como-medida-para-o-trabalho-e-dar-importancia-ao-que-inutil e em «Da demonização do tédio e do ócio à sacralização do entretenimento e da produtividade»: https://waybeyondway.substack.com/p/da-demonizacao-do-tedio-e-do-ocio-sacralizacao-do-entretenimento-e-da-produtividade

[9] A admissão de Luís Montenegro, em Junho de 2024: https://cnnportugal.iol.pt/semana-de-quatro-dias/funcao-publica/funcionarios-publicos-a-trabalhar-quatro-dias-por-semana-eis-uma-hipotese-que-montenegro-admite/20240626/667c49b0d34ebf9bbb3f1a67

[10] «Função Pública dos Açores já está a testar semana de trabalho de quatro dias», ECO, Abril de 2026: https://eco.sapo.pt/2026/04/30/funcao-publica-dos-acores-ja-esta-a-testar-semana-de-trabalho-de-quatro-dias/

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