Turismo regenerativo continua fora do radar dos investidores. Estudo da Nova SBE explica porquê.

Foto: adrimarie por Pixabay

Uma investigação da Nova SBE, desenvolvida em parceria com a Blink Impact, identifica os principais bloqueios estruturais que continuam a afastar o turismo regenerativo das carteiras de investimento e aponta caminhos para aproximar capital e projetos no terreno.

O turismo regenerativo, que procura gerar impactos positivos nos territórios ao nível ambiental, social e cultural, continua a ter uma presença reduzida nas carteiras dos investidores, apesar do crescimento do investimento de impacto a nível global.

Perceber o que está a travar a entrada de capital neste segmento é o ponto de partida de um novo estudo do Leadership for Impact Knowledge Center da Nova SBE, desenvolvido em parceria com a Blink Impact e conduzido por Ricardo Zózimo e Ana Milhazes.

A investigação combina revisão de literatura, mapeamento do sistema e entrevistas a investidores, académicos, profissionais do setor e intermediários, com o objetivo de identificar os padrões e bloqueios estruturais que dificultam o financiamento de projetos de turismo regenerativo.

Do trabalho resultaram dois documentos dirigidos a públicos distintos: “A Systemic Transition”, orientado para investidores, e um Toolkit para Praticantes, destinado aos profissionais que desenvolvem projetos no terreno. Entre os principais desafios identificados estão a falta de confiança entre os diferentes intervenientes, os horizontes de investimento de curto prazo e a dificuldade em medir e comunicar os impactos gerados por estes projetos.

“O ponto de partida é revelador do fosso entre ambição e realidade: em 2023, os ativos globais de investimento de impacto ultrapassaram 1,5 biliões de dólares (segundo a rede GIIN) e, mesmo assim, o turismo regenerativo mantém-se raro na maioria das carteiras de investimento”, explica a Nova SBE em comunicado.

A investigação identifica três condições fundamentais para impulsionar o desenvolvimento do turismo regenerativo: reforçar a confiança entre os diferentes atores do sistema; promover abordagens de investimento de longo prazo; e desenvolver novas formas de medir o sucesso, mais alinhadas com os impactos regenerativos.

“O estudo mostra que os investidores não são apenas financiadores, são agentes que moldam o sistema e que influenciam as transições que se tornam possíveis”, revela o investigador Ricardo Zózimo.

Investidores chamados a mudar a forma de financiar

A análise dirigida aos investidores conclui que um dos principais entraves ao desenvolvimento do turismo regenerativo está na fragmentação do sistema e na falta de confiança entre os diferentes intervenientes. Apesar da existência de métricas, certificações e relatórios que tornam os resultados mais visíveis, estes mecanismos nem sempre conseguem criar a confiança necessária para sustentar investimentos de longo prazo e ligados aos territórios.

O estudo defende também que o chamado “capital paciente” pode não ser suficiente para responder às especificidades deste tipo de projetos. Em alternativa, aponta para a necessidade de um “capital geracional”, mais enraizado no território, assente na ação coletiva e capaz de operar com diferentes horizontes temporais, tratando os territórios como sistemas vivos e não apenas como ativos de investimento.

Outra das ideias centrais é a de que a regeneração deve ser entendida como um processo contínuo, cujos resultados se constroem ao longo do tempo. Nesse contexto, dados, tecnologia e comunicação devem funcionar sobretudo como instrumentos de aprendizagem e acompanhamento da evolução dos projetos, e não apenas como mecanismos de demonstração rápida de resultados.

A investigação sublinha ainda que os investidores não são apenas fornecedores de capital, mas também “moldadores do sistema”, já que as suas decisões influenciam os modelos que conseguem ganhar escala e legitimidade. Entre as áreas onde essa influência pode ser mais determinante estão os horizontes temporais do investimento, a forma como se define aquilo que é considerado valioso, o uso de métricas, certificação e tecnologia e, ainda, o chamado capital relacional, baseado na proximidade, na confiança e numa governação mais participada. Como resume o estudo, “não se faz regeneração a partir de uma folha de cálculo”.

Projetos no terreno também moldam o investimento

O documento dirigido aos profissionais que desenvolvem projetos de turismo regenerativo parte de uma ideia central: quem trabalha no terreno também influencia o sistema e, em particular, o tipo de capital que consegue atrair. A forma como os projetos envolvem investidores, constroem credibilidade e comunicam os seus resultados pode ser determinante para gerar maior alinhamento e confiança.

Segundo o estudo, muitas destas iniciativas estão fortemente ligadas ao território, às relações locais e ao contexto em que operam, mas continuam a ser pouco “legíveis” para quem está de fora. Essa dificuldade em traduzir a complexidade do trabalho desenvolvido em informação clara e compreensível pode limitar a sua visibilidade junto de investidores e parceiros.

A investigação sublinha também que a regeneração deve ser encarada como uma transição e não como um rótulo fixo. Na prática, muitos projetos continuam condicionados por modelos de negócio convencionais, infraestruturas existentes e pressões de mercado, o que significa que a transformação acontece de forma gradual.

Outro dos desafios identificados surge logo nas fases iniciais da relação com os investidores. Diferenças de expectativas sobre prazos, modelos de governação ou sobre o que deve ser considerado “sucesso” podem criar desalinhamentos antes mesmo de o financiamento avançar. Por isso, o estudo defende que os projetos devem procurar o instrumento financeiro mais adequado a cada necessidade, combinando soluções que podem passar por subvenções, filantropia, financiamento público, blended finance ou investimento alinhado com a missão.

Escolher os investidores certos é, neste contexto, apresentado como uma decisão estratégica. Saber recusar capital que não esteja alinhado com os objetivos de longo prazo pode ser tão importante como captar financiamento. A confiança, por sua vez, constrói-se menos através da procura de resultados perfeitos e mais pela coerência entre aquilo que os projetos comunicam, a evidência que apresentam e as decisões que tomam.

A comunicação surge igualmente como um dos principais obstáculos. Muitos profissionais têm dificuldade em explicar o impacto do seu trabalho para além do contexto local, o que reduz a capacidade de atrair investimento, gerar aprendizagem e replicar experiências.

O estudo será apresentado no evento online “A Systems Approach to Regenerative Tourism”, no dia 22 de setembro, das 9h00 às 10h00. A participação é online e a inscrição pode ser feita através do Eventbrite.

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