Opinião
Deixem o talento em paz!
Há poucas experiências tão gratificantes para um líder como identificar, na sua equipa, um talento que ainda ninguém descobriu.
Aquela pessoa que compensa o que ainda lhe falta em experiência com entusiasmo, iniciativa e uma maturidade inesperada. Um talento “em bruto”, no qual reconhecemos capacidades que estão longe de ter sido plenamente exploradas.
Quando o identificamos, o primeiro impulso é agir. Propomos formação, coaching, mentoring ou um novo plano de desenvolvimento. Identificamos uma competência a trabalhar, um curso a frequentar ou alguém mais experiente que possa acompanhar o percurso. Queremos fazê-lo depressa, antes que o talento se dilua no território do potencial por cumprir.
Encontrar talento e não fazer imediatamente alguma coisa com ele parece-nos quase uma demissão de responsabilidade. Mas será esse o melhor passo? Não estaremos, por vezes, a tentar desenvolver pessoas que precisam, sobretudo, de espaço para se desenvolverem?
Curiosamente, a intenção de acelerar esse crescimento leva-nos, demasiadas vezes, a proteger o talento do desconforto que lhe seria benéfico. É demasiado fácil cair neste padrão: damos mais conhecimento quando a pessoa precisa de mais exposição; reforçamos o acompanhamento quando deveríamos dar um passo atrás e criar espaço para uma autonomia segura, enfim, pedimos mais preparação quando talvez falte apenas uma oportunidade para descobrir se está preparada. Desenvolver talento é também perceber o que lhe falta para descobrir aquilo que já é capaz de fazer.
A distinção pode parecer pequena, mas tem consequências profundas. Há momentos em que é indispensável estruturar conhecimento, explorar novos modelos de pensamento e aprender com projetos anteriores. Há feedback e feedforward que podem ser decisivos e conversas de mentoring capazes de evitar que a aprendizagem se transforme num risco desnecessário. Tudo isto é verdade e, ainda assim, não impede que exista um momento em que a intervenção mais útil de um líder consiste em dizer: “Agora é contigo.”
Esta será, talvez, uma das responsabilidades mais exigentes de quem lidera: reconhecer quando deve intervir e quando deve sair do caminho. O desafio está em permanecer disponível sem fazer da nossa presença uma condição para que o outro avance.
Esta não é apenas uma questão de desenvolvimento individual. Quando as decisões relevantes continuam a regressar ao líder, podemos ter pessoas mais preparadas sem termos uma organização verdadeiramente mais capaz. O talento cresce, mas a dependência permanece — e nenhuma organização se torna mais madura enquanto a autonomia depender sempre da validação de quem a lidera. Por isso, desenvolver pessoas exige conhecimento, atenção e compromisso e, em determinados momentos, exige algo ainda mais difícil: saber deixá-las desenvolver-se em paz.
Rita Duarte trabalha com líderes e organizações em decisões críticas sobre pessoas, liderança e desempenho. Com uma experiência de mais de 15 anos na área da gestão de talento, foi Chief People Officer da Wellow Network antes de, em 2024, assumir a liderança executiva da consultora estratégica do grupo.
Licenciada e Mestre em Psicologia Social e das Organizações pelo ISCTE, tem ainda uma Pós Graduação em Prospetiva, Estratégia e Inovação pelo ISEG.
É voz ativa na promoção da liderança ao serviço de causas impactantes, da diversidade de pensamento e da construção de culturas organizacionais mais conscientes e sustentáveis, mantendo sempre a abordagem feliz de quem ama o que faz.








