Proponho-me reflectir sobre a forma e a intenção do meu uso de modelos de linguagem no que concerne à escrita. A preocupação que me move é simples de formular e difícil de resolver: receio estar a sofrer as consequências negativas do que critico nos textos que tenho publicado.
A versão original deste ensaio, em inglês, foi escrita a 4 de Janeiro de 2026, poucas horas depois de surgirem relatos de que os Estados Unidos tinham capturado o presidente venezuelano Nicolás Maduro numa operação militar.
Em junho de 2023, escrevi nestas páginas sobre sustentabilidade[1]. No texto, confessava a minha ignorância sobre o tema e descrevia a irritação crescente que sentia perante as incoerências que observava — empresas que organizam limpezas de praias e oferecem brindes de plástico, operações cosméticas de CSR e ESG que fomentam mais descrença do que confiança.
Todos os dias morre qualquer coisa em nós. Pequenas abdicações que mal registamos. O entusiasmo por um projecto que se esvai após a terceira reunião inconclusiva. A conversa que não iniciamos com um desconhecido. O livro que continuamos a querer ler até esquecermos porque era importante. A pergunta que engolimos — em reuniões, à mesa, na cama — porque o momento parece errado.
“A dor e o desconforto fazem parte do processo. Ultrapassa a dor e encontrarás o teu verdadeiro eu!” O monitor — meio sargento, meio profeta de calções de licra — gritava algo parecido com isto enquanto eu tentava apanhar o ar que me escapava.
Certas palavras chegam já gastas, como moedas que passaram por demasiadas mãos. “Sinergia”, “disruptivo”, “transformação”, “holistico”, “impacto”. Pronunciamo-las sem pensar, automaticamente, como quem diz “bom dia” - sem desejar realmente que o dia seja bom - ou pergunta “tudo bem?” - sem realmente se interessar pela resposta. São palavras que perderam peso, que flutuam em vez de pousar.
À conta da minha formação académica, habito frequentemente espaços de conversação e de apresentação de ideias sobre psicologia e desenvolvimento humano. Confesso que ouvir ou ler esta expressão - “desenvolvimento humano” - me causa arrepios de desconforto e faz-me involuntariamente semicerrar os olhos.
A História revela-nos, com frequência embaraçosa, o quão pouco evoluímos em certas dimensões da vida colectiva. Observemos os sistemas feudais que dominaram múltiplas civilizações ao longo dos séculos: da Europa medieval ao Japão dos xoguns, da China imperial à Índia dos rajás.
Somos testemunhas de uma transformação sem precedentes na história humana. Como observadores participantes desta mudança, encontramo-nos numa posição singular: simultaneamente arquitectos e sujeitos de uma revolução que redefine fundamentalmente o que significa ser humano na era digital.
Existe uma contradição curiosa no mundo empresarial hodierno: quanto mais se fala de autonomia, menos autonomia parece existir. Quanto mais se proclama querer pessoas maduras e responsáveis, mais infantis se tornam as práticas de gestão e os rituais corporativos.
A obsessão pela perfeição: um diagnóstico do nosso tempo. Vivemos numa era obcecada pela otimização. Do momento em que acordamos, rastreados por aplicações que analisam os nossos padrões de sono, até ao instante em que nos deitamos, após termos contabilizado cada caloria ingerida e cada passo dado, estamos num estado de incessante avaliação e perpétuo aperfeiçoamento.
O verão instalou-se, confortável, quente, trazendo consigo a promessa de férias e uma pausa bem-merecida. Será que é isso que são as férias: uma pausa?







