Opinião
O gestor que se automatizou
Prometeram-nos, finalmente, o gestor perfeito. Racional, incansável, imune aos enviesamentos, às simpatias e às emoções que sempre atrapalharam a nobre arte de lidar com pessoas. A inteligência artificial chegou para nos livrar do que havia de mais incómodo na gestão: o humano que a pratica.
E os gestores agradeceram: um inquérito da Resume Builder a mais de mil e trezentas chefias nos Estados Unidos revelou, em 2025, que metade já usa IA para decidir quem é promovido e quem é despedido. Entre os que a usam, 78% recorrem a ela para definir aumentos, 77% para promoções, 66% para despedimentos e 64% para despedir alguém em concreto. Um em cada cinco confessa deixar a máquina decidir sozinha, sem qualquer intervenção humana. Confesso que li estes números duas vezes.
Há aqui uma ironia que merece um sorriso amarelo. Estes gestores automatizaram precisamente a parte que era o seu trabalho. Dar uma notícia difícil, reconhecer um esforço, dizer a alguém aquilo que ninguém quer ouvir — não eram tarefas administrativas à espera de quem as despachasse. Eram a gestão. A matéria-prima principal de quem gere nunca foram os números nem os relatórios; foram, sempre, as relações humanas. Entregá-las a um algoritmo é como contratar alguém para viver a nossa vida e depois queixarmo-nos de que ela nos passou ao lado.
O mais curioso é que a própria máquina nos está a ensinar isto. Investigadores de Harvard descreveram aquilo a que chamam o “prémio da empatia humana”: a mesma mensagem, palavra por palavra, é avaliada como menos sincera quando se sabe que foi escrita por uma IA. O valor não estava no texto. Estava em alguém ter parado, pensado em nós e decidido escrevê-lo. Ora se as palavras passaram a ser infinitas e gratuitas, o que se torna escasso — e portanto caro — é exatamente aquilo que a máquina não consegue fornecer: a prova de que houve ali uma intenção.
É o paradoxo que os apóstolos da eficiência não anteciparam. Quanto mais a máquina faz, mais sobe o valor daquilo que só um humano pode fazer. Michael Polanyi resumiu-o há décadas numa frase que devia estar à entrada de cada departamento de recursos humanos: “sabemos mais do que conseguimos dizer.” A IA é imbatível no que é codificável — o que cabe numa regra, numa grelha, num histórico. Mas tudo o que importa de verdade na gestão resiste teimosamente à codificação: a confiança, o discernimento, a coragem de uma conversa honesta, a leitura do que não foi dito numa reunião. Esse é, afinal, o único território que sobra ao gestor. É também o mais difícil de todos.
Não esperemos, no entanto, que sejam os gestores os primeiros a percebê-lo. Um estudo global da Workday encontrou a habitual miopia: 82% dos colaboradores acham que a necessidade de ligação humana aumenta com a IA, mas só 65% das chefias concordam. O ponto cego está, como quase sempre, na cadeira de quem manda. É mais cómodo acreditar que a tecnologia nos dispensa de olhar para as pessoas do que admitir que nunca soubemos fazê-lo lá muito bem.
Há uns anos escrevi que a confiança nasce das ações e não das palavras: não diga, faça. A inteligência artificial não revogou essa regra — tornou-a absoluta. Quando qualquer um pode gerar, em três segundos, o elogio comovido, o feedback equilibrado e a mensagem de pêsames, as palavras deixam de provar fosse o que for. Só os atos continuam a contar. A máquina já escreve tudo o que é preciso dizer. O que ela nunca poderá fazer é querer dizê-lo — e esse foi, desde o princípio, o verdadeiro trabalho de quem gere.








