Opinião

Se tudo é urgente, a liderança falhou

Alexandre Castro Martins, diretor de Vendas da Soprem Wood
Foto: Alexandre Castro Martins, diretor de Vendas da Soprem Wood

Há empresas onde praticamente tudo é urgente. O cliente precisa da resposta hoje. A produção precisa de uma decisão imediatamente. A proposta tem de sair nas próximas horas. A encomenda devia ter sido expedida ontem. O fornecedor está à espera. A reunião não pode ser adiada. E aparece sempre mais alguma coisa que precisa de ser resolvida “o mais rápido possível”.

Trabalhar desta forma pode até criar uma sensação de intensidade e produtividade. Há movimento constante, decisões rápidas e pessoas permanentemente ocupadas. Mas estar sempre ocupado não significa estar a trabalhar bem.

Quando tudo é urgente, normalmente alguma coisa está errada.
Uma organização não consegue eliminar urgências. Clientes mudam pedidos, máquinas avariam, fornecedores falham, pessoas cometem erros e aparecem oportunidades que exigem uma resposta imediata. Faz parte de qualquer empresa.

O problema não são as exceções.
É quando a exceção se transforma na forma habitual de trabalhar.
Se todas as semanas existem as mesmas urgências, provavelmente já não estamos perante imprevistos. Estamos perante problemas de gestão.

Uma encomenda urgente pode acontecer. Dez encomendas urgentes todas as semanas podem significar planeamento deficiente. Uma decisão que precisa da administração imediatamente pode ser normal. Se dezenas de decisões chegam diariamente à administração com a mesma urgência, talvez não exista autonomia suficiente abaixo dela.

A urgência repetida é muitas vezes um sintoma, não a doença.
Pode revelar falta de planeamento, processos pouco claros, responsabilidades mal
definidas, comunicação deficiente ou simplesmente incapacidade de estabelecer prioridades.

E é aqui que entra a liderança.
Uma das responsabilidades mais importantes de quem lidera é decidir o que merece atenção agora, o que pode esperar e o que simplesmente não deve ser feito.

Parece simples. Na prática, é uma das decisões mais difíceis numa organização. Dizer que algo é prioritário significa necessariamente dizer que outra coisa não é. Se lançamos cinco prioridades ao mesmo tempo, provavelmente não temos cinco prioridades. Temos cinco tarefas importantes e nenhuma escolha sobre qual vem primeiro.

As equipas percebem rapidamente esta diferença. Quando recebem constantemente novas “prioridades máximas”, começam a deixar de acreditar na palavra prioridade. Interrompem trabalho importante para responder ao problema mais recente, voltam ao que estavam a fazer, são novamente interrompidas e terminam o dia com a sensação de terem trabalhado muito sem terem realmente avançado.

A urgência permanente destrói foco. Também cria um problema cultural. Em algumas organizações, estar permanentemente sob pressão começa a ser confundido com compromisso. Quem responde a emails a qualquer hora parece mais dedicado. Quem resolve crises ganha visibilidade. Quem corre de problema em problema parece indispensável.

Mas há uma ironia: muitas vezes, quem evita que os problemas aconteçam recebe menos reconhecimento do que quem aparece para os resolver. Uma operação bem gerida pode parecer menos impressionante precisamente porque existem menos incêndios para apagar.
É por isso que a liderança deve resistir à tentação de premiar apenas os bombeiros da organização. Resolver uma crise é importante. Criar processos para que ela não volte a acontecer é ainda mais. Há também urgências que são criadas pela própria liderança.

Uma ideia surge numa reunião e transforma-se imediatamente numa prioridade. Um cliente telefona e toda a organização muda de direção. Um indicador piora durante uma semana e nasce um novo projeto. Poucos dias depois aparece outra preocupação e a prioridade anterior perde força.

Para quem lidera, pode parecer capacidade de resposta. Para quem executa, é caos. As equipas precisam de flexibilidade, mas também precisam de estabilidade suficiente para conseguir executar.

Isto não significa tornar uma empresa lenta ou burocrática. Pelo contrário. Uma organização que sabe distinguir o verdadeiramente urgente consegue responder muito mais depressa quando surge uma emergência real.

Uma boa liderança cria espaço para o importante antes de ele se tornar urgente. Planeia capacidade, define responsabilidades, antecipa riscos e estabelece critérios claros para decidir quando algo merece interromper o trabalho em curso.

E, sobretudo, tem coragem para dizer “não agora”. Porque priorizar não é fazer uma lista daquilo que queremos fazer. É escolher conscientemente aquilo que estamos dispostos a adiar.

Porque quando tudo é urgente, o problema já não é a urgência.
É a forma como estamos a liderar.

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