Dois anos, 140 entrevistas. Estes são os números do “Onde, Quando e Como Eu Quiser”, um projeto audiovisual criado por João Pico e que pode ser visto em diferentes plataformas digitais. Em entrevista ao Link To Leaders, o fundador do OQCQ explicou que a causa maior desta iniciativa é ajudar a combater iliteracia digital.

Depois de criar a agência de videomarketing Comprimido há mais de 10 anos, João Pico lançou um ambicioso projeto que desde a primeira hora teve como objetivo trazer para o espaço público o debate sobre o futuro do digital e o seu impacto na sociedade portuguesa. Chama-se  “Onde, Quando e Como Eu Quiser” e pretende contar como o digital evoluiu em Portugal e como tem transformado a sociedade e os hábitos dos portugueses.

Hoje, dois anos depois de iniciado este desafio que intitula de webséries, João Pico soma mais de 100 horas de conteúdo, que pode ser visionado em plataformas como o Youtube, Facebook, Linkedin, Twitter ou Instagram. Entre a diversidade de entrevistados, de áreas profissionais tão distintas como jornalismo, política, marketing, publicidade, influencers ou humor, estão nomes como o Paulo Salvador (jornalista), Nuno Santos (diretor do canal 11), Mariana Cabral (youtuber Bumba na Fofinha), Diogo Batáguas (humorista), Gerd Leonhard (futurista), Edson Athaide (publicitário) ou Eduardo Cintra Torres (crítico de televisão). Dão o seu contributo sob o formato de entrevista e aprofundam temas como o futuro da educação, da democracia, do jornalismo e do marketing, sempre com foco na transformação digital. O mentor do projeto explica o que o motivou a abraçar este desafio, que assume ter um cunho muito pessoal.

Como surgiu o projeto Onde, Quando e Como Eu Quiser (OQCQ)?
Eu estava à espera de encontrar uma espécie de projeto pessoal que acompanhasse exatamente aquilo que eu acredito que é o video online e as boas práticas no ecossistema digital, porque esse também é o core da Comprimido, a minha agência de videomarketing. Este projeto nasceu com a vontade, não só de perceber o mercado, mas também com a premissa de saber se as pessoas ainda veem o produto audiovisual da mesma maneira. Principalmente da televisão, com aquela “ditadura” do programador de canal que nos impunha os horários. Se só podiamos ver à hora que eles quisessem e naquele dispositivo, o “Onde, Quando e Onde eu  OQCQ Quiser” vem mesmo fazer essa disrupção. Agora vemos qualquer conteúdo onde, quando e como queremos. Somos nós que somos donos do nosso tempo. Desse paradigma, saltamos para outros temas como os medias tradicionais, o jornalismo, a educação ou o futuro do digital ou mesmo do marketing e da publicidade.

“(…) a nossa proposta é para a sociedade civil, é uma proposta de discussão”.

Neste momento a plataforma já tem 140 pessoas, muitas delas mediáticas e de várias áreas. É uma mais-valia serem pessoas mediáticas a dar testemunhos?
Não, até porque o projeto é democrático, pomos o nome e a fotografia da pessoa. Temos algumas pessoas mais mediáticas, mas também temos, por exemplo, estudantes universitários. Ainda recentemente, entrevistei uma miúda de 15 anos, com um testemunho tão válido como o de um CEO. Só não tem experiência de mercado. Mas é a visão de uma pessoa desta geração sobre o que está a acontecer.
Também tenho uma entrevista à filha de um amigo meu, com 17 anos, na altura era pré-universitária, e que dá inputs super interessantes sobre o que na perspetiva dela os adultos ou o sistema de educação deviam fazer, por exemplo, em relação às redes sociais ou à educação, como ela vê a democracia, o que é que pensa que é o jornalismo, como pensa votar, com é que a comunicação política a impacta…Ou seja, a transformação digital toca exatamente nestas verticais todas da sociedade. E uma conclusão geral de todos os entrevistados é que nós ainda sofremos de uma grande iliteracia digital.
Ainda recentemente saiu uma notícia que dava conta de que nós caímos na competitividade digital. Como dizemos em tom de brincadeira, a Comprimido lança a primeira “vacina” para curar a iliteracia digital. É uma brincadeira, como é óbvio, mas pelo menos a nossa proposta é para a sociedade civil, é uma proposta de discussão.

Esta plataforma vai continuar a viver sozinha ou vamos vê-la associada a outros projetos?
Eu chamo a isto um projeto open source. Começou há dois anos, com a Maria João Nogueira, a primeira entrevistada. Quanto ao futuro do projeto, para já não queria definir nenhuma rota. Já estou fazer algumas conclusões temáticas, a primeira foi sobre educação. Retirei algumas conversas sobre educação e compilei num produto. Agora tenho de fazer as compilações de todas as outras discussões da sociedade civil sobre determinados temas. Quanto ao futuro está tudo em aberto.

É um projeto que dá muito trabalho. Vive em muitas plataformas, o vídeo é transformado em áudio e em vários podcasts. O vídeo não está só no Youtube, mas  também nas outras redes sociais. Tem uma plataforma própria no Facebook, no Linkedin, no Twitter e no Instagram. Vai ser sempre um projeto do coração, mais pessoal, da Comprimido.

É um projeto transmedia, que tanto dá para jornal, como para rádio ou televisão. Só que a rádio, os jornais e a televisão no novo paradigma chamam-se Youtube, Internet, podcast. Eu faço muito a transição daquilo que era a realidade dos antigos media para um novo paradigma. O vídeo está em todo o sítio, as pessoas podem escolher consumir o conteúdo das entrevistas no Youtube, em long form, em short form ou em podcast… Ouvir os podcasts é uma experiência muito mais cerebral do que estarmos a ver o entrevistado. E é isso que eu quero apontar. Se calhar alguns órgãos de comunicação social ainda estão muito pendurados no antigo paradigma e continuam a colocar as coisas na caixinha da televisão, na caixinha da rádio, do jornal…para mim a única coisa que existe é conteúdo líquido e é o próprio consumidor que o vai encontrar neste mar de possibilidades.

Como é o modelo de negócio que idealiza?
Para mim era um programa de rádio, uma série de documentários, artigos de jornal… quando nós temos tanta massa critica a dizer tanta coisa interessante acho que, se calhar, era muito interessante pegar nisto e usar. Até já pensei num anuário da transformação digital…Bom, mas tirando a megalomania, isto tem um potencial giro de discusão e de elevação da literacia digital para que nós, em vez de descermos lugares de competividade digital, consigamos subir.

Isto depois também tem a ver com as próprias empresas. Os lugares de decisão das empresas ainda estão com uma iliteracia grande. Houve um estudo, creio que norte-americano, que apontava a aposta no digital e na transformação e que quanto mais depressa os países passassem pela revolução tecnológica e digital melhor porque havia uma ligação direta com uma possível subida do PIB. Porque se nós afinarmos os processos com ferramentas digitais, vamos trabalhar mais, vamos trabalhar melhor.

Há quem diga que a literacia digital pode ter o reverso da iliteracia cultural. Concorda com esta visão?Não. Para já temos de desdobrar qual é a noção de cultura que temos. E a cultura pode ser tudo, a Selecção Nacional e o futebol, quer se queira quer não, agora fazem parte da cultura porque é uma  tradição e as pessoas gostam. Mas se formos aos pilares da cultura tradicional, ao cinema, teatro, música, pintura, escrita, poesia, etc., acho que a transformação digital só pode alavancar todas essas artes se elas estiverem predispostas a também irem beber as técnicas e os processos que as ferramentas digitais nos dão, e muitas delas são gratuitas. Também podem crescer com elas.

“Se estas entrevistas e a discusão destes temas conseguissem impactar a sociedade para melhorar enquanto sociedade, para estar alerta em relação a tantos temas, era ótimo”.

Qual era o impacto que gostava que os testemunhos dos entrevistados causassem nas pessoas que as ouvem?
As 140 entrevistas, são 140 opiniões, de seis ou sete temas diferentes. E posso dizer que aprendi muito, tive tempo para me debruçar de uma forma mais tranquila sobre esses temas e processá-los de maneira diferente. Acho que se aprende muito com o projeto e a falar com as pessoas.  Se estas entrevistas e a discusão destes temas conseguissem impactar a sociedade para melhorar enquanto sociedade, para estar alerta em relação a tantos temas, era ótimo. Mas basicamente é isso, a sociedade civil a discutir assuntos, para que haja aqui uma fonte de opiniões que se possa ouvir para que quem de direito consiga tirar conclusões e chegar a outros estudos.

Quem é o target deste projeto já que os entrevistados são de várias faixas etárias?
O meu target no Youtube anda nos 18 a 40 anos,  50% homens e 50% mulheres, o que também é natural nesta ferramenta. Depois tem algum impacto também no Linkedin, mas aí já não tenho métrica, e no Facebook acabam por ser mais ou menos os mesmos, talvez com mais preponderância nos 25 anos. Quero chegar à camada mais jovem o que é muito mais difícil porque estão no Instagram.

O projeto está a 50% do potencial. É um projeto pessoal, que me dá um enorme prazer em conhecer pessoas, ver novas maneiras de pensar. Às vezes concordo outras vezes não concordo, mas mantenho sempre um espírito humilde para ouvir a outra parte. Que é aquilo que não está a acontecer nas redes sociais, onde somos todos extremistas.

“90% de todos os meus entrevistados dizem que há uma grande iliteracia digital em Portugal e que isso dificulta a penetração das melhores práticas no digital, leia-se redes sociais”.

Na diversidade de entrevistas que já foram feitas, identificou alguma tendência ou tendências?
Sim. 90% de todos os meus entrevistados dizem que há uma grande iliteracia digital em Portugal e que isso dificulta a penetração das melhores práticas no digital, leia-se redes sociais. No geral, há uma grande iliteracia seja nos centros de decisão, seja nas empresas, e o medo que está associado pela mudança de paradigma. Todos estão muito preocupados com a questão da educação, seja da parte dos pais que entrevistei, dos investigadores de educação, seja dos alunos que acham ridículo algumas coisas que ainda os obrigam a aprender.

A educação está a chegar a um nível de qualidade em que podemos estar a hipotecar uma geração inteira a nível de conhecimentos e de skills. Ninguém sabe que tipo de trabalhos vão existir daqui a 10 ou 20 anos. Há cinco anos não havia metade das profissões digitais que há hoje.

Depois há a grande transformação no marketing e na publicidade, e a perda de relevância dos meios tradicionais. A perda de relevância dos três grandes media faz com que parte do bom jornalismo desapareça, porque reside exatamente nos jornais, na rádio e televisão. Se estão com problemas em encontrar o modelo de negócio, poderemos estar a assistir aqui a uma falta de aposta no bom jornalismo. E com a educação é a mesma coisa.

Quem gostaria de entrevistar ?
Gosto de entrevistar especialistas nestas vertentes. Tenho sempre guardada uma lista de possíveis entrevistados. Gostava de ter o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, porque é uma pessoa muito inteligente, tem um percurso académico e de investigação, é um comunicador nato, e é uma pessoa que pode alterar o rumo das coisas. Mas não tenho aquela febre da personalidade. Gostava obviamente de o entrevistar porque de certeza teria inputs valiosíssimos para desenvolver em cada tema.

Mas agora ando à procura de entrevistar um brasileiro, professor universitário e investigador de educação, que escreveu um livro que se chama a Favela Digital. Fez um estudo sobre o impacto do Whatsapp na eleição do Bolsonaro. Ou seja, há aqui uma série de coisas para abordar, o digital, a iliteracia…. já falei com ele e é só marcar um Skype. Também gostava de entrevistar o Manuel Castells, mas esse está em Madrid, é mais fácil.

Como fazem a comunicação do próprio projeto?
Nas redes sociais. Acaba por haver aqui também um fenómeno de bolhas de interesse porque os entrevistados  acabam por partilhar nas próprias redes e eu acabo por ganhar outras bolhas que são os amigos ou as pessoas que estão ligadas ao entrevistado. Acho que com a dimensão que o projeto tem, já começa a ter autoridade e reconhecimento.

 Qual foi a entrevista que teve mais visualizações?
 A Bumba na Fofinha, o Tomás Silva e o Diogo Batarda.

Onde gostaria de levar este projeto?
O que estou a fazer é um bocado reverse engineering da produção televisiva. Na produção televisiva temos um projeto, apresentamos e depois fazemos o documentário. Eu estou a começar ao contrário. Estou a começar com as entrevistas, estou a potenciar vários documentários de vários temas. Isto poderá dar azo a uma coleção de documentários, a muitos artigos, programas de rádio sobre vários temas. É um projeto que toca em caixinhas, que no digital chamamos de conteúdo, mas se quiserem passar isto para o paradigma menos digital pode ser desde um anuário, a simplesmente um depósito onde a sociedade civil tem ideias e discute ideias de temas importantes para uma sociedade que se quer humana, preocupada, com decisões sérias para resolver vários problemas da saúde, da educação, da má distribuição da riqueza. E que consigamos discutir isto de uma forma muito pouco partidária, e daqui tirar o sumo para que consigamos viver numa sociedade melhor, a que todos aspiramos para nós para os nossos filhos e netos.

Podemos dizer que com este projeto está a dar o seu contributo, enquanto cidadão, à sociedade civil…
Eu e todos os entrevistados. Eu basicamente carrego no REC gravo e distribuo. Organizo e colocar as coisas no ar.

A quantos entrevistados vamos assistir até ao final do ano?
Tenho a Marta Leite de Castro, um especialista em educação do Norte…devo ter uns 10 entrevistados em carteira.Também deixo a minha escolha um bocado ao sabor do vento. Mas claro que também vou às pessoas mediáticas.

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