Quer dormir melhor? Acampar pode ajudar.

Foto: Scott Goodwill, Unsplash

Dormir ao ar livre pode proporcionar um sono melhor à noite, assegura Kenneth Wright, diretor do Laboratório de Sono e Cronobiologia da Universidade do Colorado e autor de um estudo que visa entender melhor os nossos ciclos circadianos.

Ter noites de sono tranquilas, sem insónias e renovadoras é o desejo de todos os que valorizam o descanso e noites que permitam a repor as energias e o bem-estar, físico e mental, desgastado durante as atividades diárias. Mas nem todos têm essa sorte, por diferentes motivos. Sonos irregulares, noites sem dormir são uma constante para muitas pessoas que, na tentativa de resolverem a situação, procuram as mais variadas alternativas para conseguirem ter umas horas de sono.

Foi o que fez Kenneth Wright, diretor do Laboratório de Sono e Cronobiologia da Universidade do Colorado em Boulder, nos EUA, e autor principal de um estudo sobre o sono, no qual decidiu explorar como o acampamento impacta o sono como uma forma de entender melhor nossos relógios circadianos.

Várias pesquisas internacionais já tinham sugerido que dormir ao ar livre pode ajudar a contrabalançar o nosso relógio biológico ao permitir uma maior sintomia com os ritmos do sol e da lua, ou seja, com o dia e com a noite.

E foi exatamente para perceber este fenómeno e analisar o quão dessincronizados estão hoje os nossos ritmos circadianos – um ciclo natural que se repete a cada 24 horas e controla o sono, a fome, a temperatura e as hormonas – que Kenneth Wright reuniu um grupo de pessoas num acampamento de verão, durante uma semana, para acompanharem os ritmos naturais do dia e da noite, sem poderem usar lanternas nem telemóveis. A exposição a luz natural foi quatro vezes mais do que a que normalmente experimentavam durante o dia.

O investigador recolheu a saliva dos participantes para medir os níveis de melatonina durante a noite anterior à viagem e depois da semana de acampamento, e, curiosamente, os dados obtidos revelaram que o seu “relógio biológico” adiantou duas horas  depois de terminado o acampamento.

Os níveis de melatonina dos participantes caíram pouco antes de acordarem – enquanto que, quando dormiam em casa, os níveis permaneciam altos durante as primeiras horas da manhã. “A nossa exposição à luz [artificial] moderna altera o nosso ritmo circadiano de tal forma que, nas horas seguintes ao despertar, o nosso relógio biológico no cérebro diz-nos que ainda deveríamos estar a dormir”, explicou Kenneth Wright. É por isso que dormir ao ar livre mantém-nos “mais em sintonia com a nossa biologia, e não apenas com o ambiente”, afirmou o investigador.

Ao antecipar os nossos ritmos circadianos, dormir ao ar livre tem consequências reais para nossa saúde. “Dormir mais tarde ou ter um ritmo circadiano mais tardio está associado a uma série de consequências negativas para a saúde. Pessoas com ritmo circadiano mais cedo têm menos problemas de saúde – apresentam menos abuso de substâncias, depressão, obesidade ou diabetes, por exemplo. O diretor do Laboratório de Sono e Cronobiologia da Universidade do Colorado acredita que as pessoas se sintam melhor e mais alertas pela manhã depois de dormir ao ar livre.

No trabalho que desenvolveu com os participantes durante a semana de acampamento, descobriu que estes acordavam um pouco mais durante a noite, mas que, no geral, dormiam mais cerca de duas horas do que quando dormiam em ambientes fechados. Os sons da natureza (animais, vento…) podem criar algum desconforto na primeira noite, mas à medida que se habituam a dormir com essa “banda sonora”, o sono acaba por ser mais duradouro e proveitoso.

O facto de se eliminar a luz artificial também pode trazer benefícios para a saúde que vão além de uma boa noite de sono. Diversas pesquisas mostram que a exposição excessiva à luz artificial à noite pode afetar a pressão arterial, a regulação hormonal e causar sintomas de depressão.

Kenneth Wright explicou que “uma descoberta fundamental do estudo é que nosso ritmo circadiano se adianta após a exposição ao ciclo natural de claro-escuro, o que significa que estamos atrasados ​​no mundo moderno”.

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