Opinião

Qual o futuro do Ensino Superior?

Teresa Damásio, administradora do Grupo Ensinus

O ensino superior em Portugal atravessa um dos períodos mais desafiantes e transformadores das últimas décadas, exigindo uma reflexão séria sobre o seu futuro e sobre a forma como o sistema se está a reorganizar.

Apesar da diminuição do número de estudantes colocados nas licenciaturas através do concurso nacional de acesso, verifica-se simultaneamente um crescimento expressivo na procura pelos cursos de 2.º ciclo. Este paradoxo revela uma alteração profunda nas dinâmicas do ensino superior e nas expectativas dos estudantes, obrigando inclusivamente à alteração das normas de acesso.

Como podemos interpretar esta mudança? Estaremos perante uma transformação estrutural na forma como os estudantes encaram os seus percursos académicos e profissionais? Afinal, qual o futuro do ensino superior?

Segundo os dados avançados pelo Registo de Alunos Inscritos e Diplomados do Ensino Superior (RAIDES), com dados referentes ao ano de 2025, confirma-se um crescimento expressivo do número de estudantes inscritos, em especial nos mestrados, sendo um reflexo do impacto iniciado pelo Processo de Bolonha que promoveu alterações profundas na organização dos percursos académicos e contribuiu para a promoção da continuidade dos estudos, bem como a valorização do ensino superior no panorama europeu.

Mas mais do que um crescimento estatístico, estes números revelam uma mudança estrutural na forma como a Sociedade volta a olhar para o ensino superior, não apenas como um percurso académico, mas como um instrumento de mobilidade social, qualificação e estabilidade profissional.

Durante vários anos instalou-se uma certa desconfiança relativamente ao impacto do ensino superior na vida das pessoas. A precariedade laboral, os baixos salários em alguns setores e a dificuldade de integração profissional de muitos jovens contribuíram para essa perceção. Hoje, os números parecem indicar uma inversão desta tendência. As famílias e os estudantes voltam a acreditar que investir na educação continua a ser uma das melhores decisões a tomar.

Os dados confirmam-no. Segundo o estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, os licenciados ganham, em média, mais 28% do que quem concluiu apenas o ensino secundário, enquanto os mestres ultrapassam os 40%. Numa economia cada vez mais exigente, tecnológica e competitiva, a qualificação deixou de ser apenas uma vantagem. Tornou-se uma condição essencial de empregabilidade e progressão profissional num mundo em permanente mudança.

Também a internacionalização merece uma reflexão séria. Portugal tornou-se, nos últimos anos, um destino académico cada vez mais competitivo, ultrapassando os 58 mil estudantes internacionais (Lusa, 2026). Este crescimento resulta do investimento das instituições de ensino superior na criação de redes internacionais, programas de mobilidade e estratégias de captação de talento.

Contudo, este crescimento traz igualmente novas responsabilidades. Atrair estudantes internacionais é importante, mas garantir qualidade pedagógica, integração, acompanhamento e condições de permanência é absolutamente decisivo. Internacionalizar não pode resumir-se ao crescimento numérico, deve significar criar experiências académicas verdadeiramente diferenciadoras e enriquecedoras para os estudantes.

Há ainda um dado particularmente relevante sobre a forte presença feminina. As mulheres são hoje maioria em Portugal entre os estudantes inscritos, em licenciaturas e mestrados, demonstrando uma evolução muito positiva no acesso à qualificação académica. O mesmo verifica-se na atribuição de bolsas de estudos, no último Concurso da FCT, as mulheres representaram 54,3% dos candidatos submetidos.

No entanto, em termos de dados internacionais constata-se que em Programas de doutoramento e de pós-doutoramento continua a ser diminuto, podendo explicar o facto de estarem sub-representadas nos cargos de liderança académica e nos níveis mais elevados da investigação científica. Isto demonstra que o problema já não está apenas no acesso à educação, mas sobretudo na progressão e no reconhecimento profissional. Talvez o maior erro seja analisar estes números de forma isolada e acreditar que crescimento significa automaticamente democratização, em Portugal e no mundo.

O mais recente relatório da UNESCO confirma que esta realidade se verifica também à escala global. O ensino superior cresce em todo o mundo, mas as desigualdades continuam profundamente instaladas. Enquanto algumas regiões apresentam taxas de frequência próximas dos 80%, outras continuam praticamente excluídas do acesso ao conhecimento e à qualificação. E essa realidade obriga-nos a refletir sobre quem fica de fora deste crescimento.

Democratizar o acesso ao ensino superior não pode resumir-se à abertura de vagas ou ao aumento de estudantes inscritos. É preciso mais. O verdadeiro desafio está em garantir permanência, sucesso académico, igualdade de género e de oportunidades. Milhares de estudantes entram no sistema, mas não conseguem concluir os seus percursos por razões económicas, sociais ou emocionais.

O debate sobre o futuro do Ensino Superior não pode limitar-se a uma visão unilateral, é preciso ir mais além. A verdadeira discussão deve centrar-se na sustentabilidade do sistema, na capacidade de retenção de talento e na articulação entre formação e mercado de trabalho.

Portugal tem hoje a geração mais qualificada de sempre. Mas continua a enfrentar dificuldades em criar condições para fixar esse talento, valorizar carreiras e garantir oportunidades compatíveis com os níveis de qualificação alcançados. Este talvez seja o maior paradoxo do nosso sistema: formamos mais, qualificamos mais, internacionalizamos mais… mas continuamos sem conseguir transformar plenamente esse capital humano em desenvolvimento económico e social sustentável. O problema já não está na qualificação, mas na incapacidade estrutural de transformar a qualificação em valorização efetiva.

Bibliografia:

Gutović, V., Bouckaert, M., Xia, T., Quinteiro Goris, J. A., Baroni Boces, G., Sears, M. D., Peterson, M. S., & Osei, E. (2026). Higher education global trends report: Towards inclusive, equitable and quality higher education in an internationally mobile landscape. UNESCO International Institute for Higher Education in Latin America and the Caribbean. https://doi.org/10.54674/IN.2026.94

Lusa. (2026, 24 de abril). Ensino Superior atinge recorde da década com quase meio milhão de inscritos. SIC Notícias.

Nunes, L., Reis, P. & Thomas, T. (2026, maio). Ensino Superior e Emprego Jovem em Portugal: Tendências, resultados e comparações internacionais. Fundação Francisco Manuel dos Santos. ISBN 978-989-9118-25-6.

Valente, C. (2026, 13 de maio). Jovens até aos 35 anos com mestrado ganham mais 40%. Diário de Notícias.

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Teresa Damásio

Teresa Damásio

Teresa Damásio é Administradora do Grupo Ensinus desde julho de 2016, que faz parte do Grupo Lusófona, o maior grupo de ensino de língua portuguesa no mundo. É também Administradora do Real Colégio de Portugal e do Grupo ISLA. Presidente do Conselho de Administração da Universidade Lusófona da Guiné-Bissau e Membro do Conselho de Administração do ISUPE Ekuikui II, em Angola. Presentemente, integra a Direcção da AEEP. Foi fundadora da Internacionalização do Grupo Lusófona, passou pela Assembleia da República como... Ler Mais..

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