Planetiers World Gathering coloca Guimarães no centro do debate sobre investimento sustentável

Foto: Intervenção de Sérgio Ribeiro, CEO e cofundador da Planetiers

Mais de 100 empresas e 50 oradores participaram no encontro realizado entre 21 e 23 de outubro, no ano em que Guimarães é Capital Verde Europeia.

A sustentabilidade, a inovação e o financiamento da transição ecológica estiveram em destaque no Planetiers World Gathering. No ano em que a cidade assume o título de Capital Verde Europeia, o evento promoveu a discussão sobre o papel das empresas, das instituições e da cooperação internacional na construção de um modelo de desenvolvimento mais sustentável.

O presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Ricardo Araújo, defendeu que “a sustentabilidade é uma condição para o crescimento económico”, enquanto Sérgio Ribeiro, CEO e cofundador da Planetiers, apelou à “transformação de ideias em projetos concretos”. A cooperação entre Portugal e os Emirados Árabes Unidos, o financiamento sustentável e as soluções de biodesign apresentadas por Ermi van Oers estiveram também entre os principais destaques do encontro.

O autarca destacou Guimarães como um exemplo de como uma cidade com uma forte tradição industrial pode valorizar o seu passado para criar novas oportunidades de desenvolvimento e inovação. O antigo centro da indústria de curtumes, onde a água e o trabalho moldaram durante séculos a paisagem, é hoje um espaço de conhecimento, cultura e criatividade. Uma transformação que, segundo Ricardo Araújo, demonstra que “o futuro não se constrói apagando o nosso passado”, mas aproveitando aquilo que dele se aprendeu.

A distinção de Guimarães como Capital Verde Europeia 2026 representa, nas palavras do presidente da Câmara, “uma responsabilidade, mais do que uma recompensa”. Para o município, a transição ecológica está, igualmente, ligada à competitividade das empresas, à criação de emprego e à capacidade de responder às exigências de mercados cada vez mais atentos à origem dos materiais, ao consumo energético e ao impacto ambiental dos produtos. “A sustentabilidade não é o oposto do crescimento económico. É a condição que torna esse crescimento possível”, sublinhou.

Ricardo Araújo destacou ainda o peso da indústria no concelho, onde quatro em cada dez trabalhadores estão ligados à produção, e defendeu que a transição só será duradoura se os seus benefícios chegarem às pessoas.

Sérgio Ribeiro destacou a importância de transformar a cooperação e o investimento em iniciativas concretas, um dos principais objetivos do encontro. Recordando o percurso de uma organização que nasceu há dez anos, o responsável defendeu que “a transformação depende da capacidade de aproximar pessoas e entidades” que, isoladamente, dificilmente conseguiriam alcançar os mesmos resultados.

“Nem todas as conversas vão dar origem a projetos. Nem todas vão resultar em investimento”, reconheceu. Ainda assim, considera que basta uma ideia sair do papel e melhorar a vida das pessoas para justificar o esforço. “Se, entre dez, vinte ou cinquenta conversas, uma se concretizar, terá valido a pena”, afirmou, apelando à resiliência, à aprendizagem com os erros e à construção de parcerias entre empresas, instituições públicas e sociedade.

Sérgio Ribeiro, CEO da Planetiers; Abdulrahman Almuaeeni, subsecretário adjunto do Gabinete de Propriedade Intelectual do Ministério da Economia e Turismo dos EAU; Ahmed Abdelrahman Almahmoud, embaixador dos Emirados Árabes Unidos em Portugal; Noura Saeed AlMahmoud, do Departamento de Investimento Direto Estrangeiro do Ministério do Investimento, e Álvaro Perez de Lema, CEO da Saeta Yield

Cooperação internacional e financiamento

A dimensão internacional do encontro contou com a participação dos Emirados Árabes Unidos como país convidado, num ano em que Portugal e o Estado do Golfo assinalam 50 anos de relações diplomáticas. Ahmed Abdelrahman Almahmoud, embaixador dos Emirados Árabes Unidos em Portugal, destacou as oportunidades de cooperação nas áreas das energias renováveis, das infraestruturas sustentáveis, da inteligência artificial e da indústria avançada.

“A sustentabilidade e a competitividade económica reforçam-se mutuamente”, afirmou o diplomata, defendendo que as tecnologias e indústrias que vão moldar a economia do futuro representam também oportunidades de investimento no presente. “Portugal pode contribuir com a sua experiência industrial, capacidade tecnológica e mão de obra qualificada, enquanto os UAE oferecem acesso a mercados internacionais, infraestruturas e um ecossistema de investimento dinâmico”.

O embaixador considerou que encontros como o Planetiers World Gathering devem ir além do diálogo e conduzir a iniciativas concretas. Entre as áreas com potencial de colaboração identificou a energia, a produção industrial sustentável, a inteligência artificial e a tecnologia aplicada aos têxteis e à moda. Salientou também a água como “um dos grandes desafios globais”, antecipando a Conferência das Nações Unidas sobre a Água, que os Emirados Árabes Unidos e o Senegal vão coorganizar em Abu Dhabi, de 8 a 10 de dezembro de 2026.

O reforço das relações institucionais abriu também novas perspetivas de cooperação e investimento. Segundo a organização, o Governo dos Emirados Árabes Unidos manifestou interesse em aprofundar a partilha de conhecimento e inovação com Guimarães, tendo sido dirigido ao município um convite para participar em iniciativas naquele país a partir de dezembro de 2026, com possibilidade de continuidade nos anos seguintes.

O financiamento necessário para acelerar estas mudanças esteve em debate num painel moderado por Satya Tripathi, secretário-geral da Global Alliance for a Sustainable Planet, que reuniu, entre outros, Mitch Reznick, responsável global pela área de obrigações sustentáveis da Federated Hermes, e Luís Guimarães, do Banco Português de Fomento.

Mitch Reznick defendeu que “a transição exige uma transformação do próprio sistema financeiro”, de modo a aproximar a criação de valor económico, os retornos dos investimentos e os resultados ambientais e sociais. “O capital institucional tem de começar a movimentar-se agora”, sustentou, sublinhando, contudo, que os investimentos sustentáveis precisam de apresentar uma relação entre risco e retorno que permita atrair mais investidores.

O responsável apontou o financiamento combinado, que articula diferentes fontes de capital para viabilizar projetos, como uma das ferramentas para reduzir a distância entre o risco percebido e o risco real. Considerou também necessário modernizar os mecanismos financeiros e rever a forma como a responsabilidade fiduciária dos investidores integra a dependência da economia em relação à natureza.

Plateia da 5ª edição do Planetiers World Gathering

A natureza como parceira da inovação

Entre as intervenções dedicadas à inovação, Ermi van Oers, fundadora do estúdio neerlandês Nova Innova, apresentou soluções de biodesign que procuram aproveitar os processos naturais para responder a desafios urbanos. A designer explicou como “determinados microrganismos podem produzir eletricidade durante a decomposição de matéria orgânica” e como essa energia pode ser utilizada para alimentar dispositivos e sistemas de iluminação.

“Nós somos natureza”, afirmou Ermi van Oers, defendendo que uma relação mais próxima com o mundo natural pode mudar a forma como as sociedades agem. Para a designer, “a capacidade de criar soluções não depende apenas da ciência e da tecnologia mas também da forma como estas são comunicadas”. O design, explicou, pode despertar curiosidade e empatia, tornando os desafios ambientais mais próximos das pessoas.

Ao longo do encontro, a agenda estendeu-se à agricultura regenerativa, à resiliência costeira, à saúde das cidades, à economia circular, à transformação dos setores têxtil e da moda e ao financiamento das infraestruturas energéticas. As diferentes sessões reuniram representantes de empresas, organizações internacionais e instituições para discutir “como transformar compromissos ambientais em respostas concretas”.

Entre os resultados empresariais do encontro esteve ainda a formalização de uma nova sociedade destinada a promover a agricultura regenerativa e a produção de alimentos saudáveis e nutricionalmente ricos para crianças. A iniciativa, associada à marca First Spoon, prevê iniciar a atividade comercial na Nigéria, mantendo a gestão e a coordenação a partir de Portugal.

A necessidade de reforçar a ligação entre conhecimento, investimento e colaboração marcou os debates do Planetiers World Gathering, onde foi defendida a importância de transformar os compromissos com a sustentabilidade em projetos concretos e resultados mensuráveis.

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