Opinião

Onde está o poder económico, vis-à-vis, empresarial?

David Pereira de Castro, sócio-fundador da consultora Phibon

O que a estrutura legal das multinacionais nos diz sobre controlo, capital e decisão. Seguindo a lógica encadeada dos dois últimos artigos, em que abordei a centralidade das grandes empresas e a fragilidade do mercado de capitais, partilho agora algumas reflexões sobre uma camada raramente discutida, mas decisiva: onde reside, de facto, o poder económico numa economia aberta, e o que Portugal precisa de fazer para o ter mais consigo.

Comecemos por clarificar o conceito. Na perspetiva do interesse público, o poder económico é a capacidade de um país atrair e fixar agentes que nele concentrem as suas atividades de maior valor, da conceção à propriedade intelectual, da marca à relação com o cliente. Na perspetiva privada, trata-se da capacidade de cada empresa de decidir o que produz, onde, com que estrutura legal e como retém margem. É uma decisão sobre atividades de valor, não apenas sobre presença territorial.

Sendo assim, um decisor político atento teria como prioridade garantir que a riqueza gerada em Portugal não resultasse apenas da atividade no mercado interno, mas também da localização, em território nacional, de centros de decisão sobre cadeias de valor mais vastas. As métricas habituais, PIB, IDE, emprego, dizem-nos onde a atividade acontece, mas pouco sobre onde reside o controlo. Uma fábrica em Portugal pode gerar emprego e exportações, enquanto as decisões sobre o que se produz e sobre onde se reinveste o lucro são tomadas noutras jurisdições. Ao território ficam trabalho, salário e fiscalidade. O poder e a margem estão fora.

Os números são duros. De acordo com os dados mais recentes da OCDE, nos automóveis, cerca de três quartos do valor acrescentado gerado em território nacional provêm de capital estrangeiro. Em eletrónica, acima de dois terços. Em farmacêutica e química, perto de metade. Estes enclaves multinacionais têm produtividade elevada, mas dependem de decisões que não competem ao tecido empresarial português influenciar. O capital doméstico concentra-se quase sempre fora dos setores em que reside a sofisticação.

A questão essencial é distinguir três planos, criar valor, capturar valor e controlar valor. Uma economia pode criar sem capturar, e capturar sem controlar. Portugal vive, em larga medida, no primeiro registo. Sempre que vendemos ativos estratégicos, vendemos decisão. Sempre que importamos capital sem contrapartida em controlo, importamos a margem que ele exige. Valor não defendido é valor temporário.

O que Portugal precisa não é mais um pacote de incentivos avulsos, é colocar esta camada no centro da política económica. Avaliar cada decisão fiscal, regulatória ou de atração de investimento pelo seu efeito sobre a localização de centros de decisão e sobre a capacidade de reter margem cá dentro. Premiar quem desenvolve propriedade intelectual em Portugal, atrair investimento que traga mandato global e capitalizar empresas nacionais para que possam adquirir, internacionalizar e defender margem com ambição autoral.

Países pequenos como a Dinamarca, a Suíça ou a Áustria provam-no, não pela dimensão do mercado interno, mas pela arquitetura económica construída ao longo de décadas, capital nacional paciente, propriedade intelectual em casa, marcas com peso global, governança exigente. O poder económico moderno não se vê nos mapas, vê-se nas estruturas. Portugal tem condições para competir por decisão, e não apenas por atividade, mas precisa de querer e de desenhar isso.

Ora, em suma, se o poder económico se organiza desta forma, as regras do jogo, fiscais, regulatórias e institucionais, não são neutras. Alguém as desenha. É esse o tema do próximo artigo.


David Pereira de Castro é investigador na Copenhagen Business School, sócio-fundador da consultora Phibon e presidente do Conselho de Administração da SPOT Nordic. O seu trabalho centra-se em economia política internacional, governação corporativa, finanças sustentáveis e ecossistemas de inovação, com particular enfoque na forma como as empresas multinacionais se estruturam e organizam juridicamente, bem como no papel da diplomacia científica na transformação das economias europeias.

Paralelamente à sua investigação académica sobre greenwashing, transparência financeira e estratégias de controlo em empresas multinacionais, tem estado envolvido em projetos de avaliação estratégica de tecnologias de defesa baseadas em IA, desenvolvimento de ecossistemas de inovação à escala europeia e mapeamentos globais de inteligência artificial e robótica aplicadas ao turismo e ao desenvolvimento regional. Trabalhou anteriormente com a administração pública e em consultoria estratégica, incluindo no Ministério da Economia, onde contribuiu para iniciativas de transformação digital e implementação de políticas públicas.

Na Copenhagen Business School, leciona Economia Política Comparada, Economia Política Internacional Aplicada e Governação da Transição Verde, e orienta teses de licenciatura e de mestrado nas áreas de finanças sustentáveis, regulação e estratégias corporativas de empresas multinacionais. No âmbito das suas funções como presidente da SPOT Nordic e enquanto Jovem Conselheiro da Diáspora Portuguesa no Mundo, adquiriu experiência sólida em diplomacia científica, promovendo a articulação entre a academia, as empresas e os decisores públicos no contexto internacional. Participa regularmente no debate público sobre política económica, inovação e transição verde, com publicações em meios como a Review of International Political Economy, a Bloomberg, o Politiken e o Observador.

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