Opinião

O Turismo num mundo pós-certezas: entre resiliência, tecnologia e experiência humana

Eduardo Moraes Sarmento, professor do ISEG | Universidade Lisboa*

Vivemos, desde o início do século XXI, num contexto de transformação estrutural profunda. O que durante décadas foi percecionado como estável, crescimento económico contínuo, mobilidade global crescente, previsibilidade política, deu lugar a um cenário marcado pela incerteza.

A pandemia de COVID‑19 funcionou como um catalisador dessa mudança, expondo fragilidades sistémicas e acelerando tendências que já se desenhavam: a crise climática, a instabilidade geopolítica, o agravamento das desigualdades sociais, a pressão sobre recursos essenciais, as migrações forçadas, a crise habitacional e uma disrupção tecnológica sem precedentes, acompanhada por fenómenos como a desinformação e os ciberataques.

Neste quadro, a cooperação internacional deixou de ser um dado adquirido e a fragilidade das instituições democráticas tornou‑se evidente em vários contextos nacionais. A ausência de lideranças amplamente reconhecidas dificulta a construção de respostas globais eficazes a desafios que, pela sua natureza, não conhecem fronteiras.

Paradoxalmente, é neste ambiente de instabilidade que o Turismo se afirma como uma atividade notavelmente resiliente. Tal como a célebre aldeia gaulesa que resiste ao invasor, o Turismo tem demonstrado uma capacidade singular de adaptação e recuperação, assumindo um papel estratégico em inúmeras economias. A sua contribuição para o PIB, a criação de emprego, a entrada de divisas, o desenvolvimento regional e a valorização do património cultural e natural são amplamente reconhecidas e estudadas no meio académico.

Contudo, a sustentabilidade do Turismo não se esgota nos indicadores macroeconómicos. Para que o setor prospere de forma duradoura, é essencial garantir um equilíbrio entre a qualidade da experiência do visitante e o bem‑estar das comunidades locais. Este desafio torna‑se ainda mais complexo num contexto de transição geracional. As gerações que moldaram o Turismo contemporâneo, Baby Boomers, Geração X e Millennials, estão progressivamente a dar lugar às gerações Z, Alfa e, num futuro próximo, Beta. Estes novos viajantes apresentam motivações, valores e expectativas profundamente distintas, exigindo uma reformulação do modelo de oferta turística.

O que observamos, porém, em muitos destinos, é a persistência de práticas desajustadas à realidade atual: massificação excessiva, filas intermináveis em aeroportos, museus e monumentos, pressão crescente sobre os preços, congestionamento urbano e uma proliferação desordenada de soluções de mobilidade turística que agravam o tráfego e a insatisfação dos residentes. A consequência é um sentimento crescente de exaustão social nos territórios mais turistificados, colocando em risco a própria aceitação da atividade.

Perante este cenário, torna‑se imperativo repensar e reorganizar o Turismo. Tal não significa desvalorizar o trabalho desenvolvido por muitos empresários, profissionais altamente qualificados e instituições que têm contribuído para o sucesso do setor. Significa, isso sim, reconhecer que há ainda um longo caminho a percorrer.

A experiência empírica, resultante da observação de diversos destinos nacionais e internacionais, levanta questões incontornáveis. Por que persistem filas físicas quando a tecnologia permite uma gestão inteligente de fluxos através de aplicações e sistemas baseados em inteligência artificial? Por que continua a existir informação tão limitada em muitos locais históricos, frequentemente apenas em português, quando soluções digitais poderiam enriquecer a experiência do visitante? Por que razão tantas entidades turísticas não dispõem de equipas especializadas na gestão da reputação digital e no acompanhamento sistemático do feedback dos clientes? E, sobretudo, por que continua a ser tão reduzido o nível de personalização da experiência turística num contexto em que os dados e a tecnologia o permitem de forma quase imediata?

Responder adequadamente a estas questões é decisivo para a criação de experiências mais imersivas, autênticas e memoráveis. A ausência dessa resposta contribui para a frustração dos visitantes, para o desgaste das comunidades locais e para a degradação progressiva da imagem dos destinos, com impactos negativos ao longo de toda a cadeia de valor do Turismo.

Apesar do tom crítico, a perspetiva aqui apresentada é, em essência, otimista. O Turismo possui um potencial extraordinário para dinamizar economias estruturalmente frágeis e de crescimento anémico. No entanto, já não é suficiente afirmar que somos bons, que acumulamos prémios internacionais ou que dispomos de um património único. É necessário ser mais eficiente, mais profissional e, sobretudo, mais humilde na análise dos erros cometidos.

Uma estratégia de Turismo verdadeiramente sustentável terá de ser inclusiva, intergeracional e orientada para o longo prazo, conciliando tradição e inovação. Como lembrava Fernando Pessoa, “a melhor maneira de viajar é sentir”. No Turismo do futuro, viajar será, acima de tudo, sentir com o apoio da tecnologia, descobrir com propósito e viver com autenticidade. Só assim será possível criar não apenas destinos a visitar, mas experiências capazes de criar mundos significativos para cada viajante.


Eduardo Moraes Sarmento é presidente do CEsA. É docente no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e investigador integrado do CEsA/CSG/ISEG/ULisboa.

Fez as provas de Agregação na Universidade de Aveiro em Gestão com especialização em Turismo. É doutorado em Economia com especialização em Turismo pelo ISEG/ULisboa. Possui vários livros publicados: desde a área da Estatística, à Metodologia Científica e ainda às questões ligadas com o processo de Desenvolvimento Sustentável das pequenas economias insulares. Tem participado assiduamente em diversos eventos científicos (seminários e conferências) no estrangeiro e em Portugal principalmente ligados à Economia, Marketing e Turismo.

Tem competências científicas especialmente na área de Economia e na área do Turismo. É docente de várias unidade curriculares no 1º, 2º e 3º ciclo. É Coordenador do Mestardo em Desnvolvimento e Cooperação Internacional (MDCI).

Tem coordenado inúmeras dissertações de Mestrado bem como de doutoramento em várias Instituições universitárias públicas e privadas. Tem sido convidado pelas principais Instituições de ensino universitário para ser arguente de dissertações e teses. Tem participado em projetos de investigação internacionais pelo CEsA/CSG/ISEG/ULisboa e outras Instituições em Portugal, Rússia, Ucrânia, Grécia, Rep. Checa e Cabo Verde, Angola, Moçambique.

Em termos científicos tem dezenas de artigos internacionais e nacionais publicados no estrangeiro em revistas científicas de renome especialmente nas áreas do marketing e desenvolvimento sustentável do turismo e efeitos do turismo na economia enquanto ferramenta de desenvolvimento. Paralelamente é consultor internacional tendo participado em diversos projetos para o Governo de Cabo Verde e no estudo de localização do novo aeroporto de Lisboa entre muitos outros.

 

* Eduardo Moraes Sarmento, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) | Universidade Lisboa, vai participar como orador no BOOST 2026, no painel “Uma nova geração de Inovadores a moldar o futuro”.

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