Projeto “Healthy Spaces, Happy People” desafia empresas a criar espaços de trabalho mais saudáveis

Iniciativa coloca a qualidade dos espaços de trabalho no centro das decisões estratégicas das organizações. No primeiro encontro com empresários e gestores foi abordado o tema da iluminação e a sua relação com o bem-estar e o sono.

O projeto Healthy Spaces, Healthy People, promovido pelo Link To Leaders em parceria com a especialista em Espaços Saudáveis Vanda Boavida e que conta com o apoio do Grupo Altis, nasceu com um objetivo claro: criar espaços de reflexão e partilha que ajudem a repensar os ambientes físicos de trabalho e o seu impacto direto na saúde, no bem-estar, na produtividade e criatividade das pessoas. Até outubro, serão promovidos encontros ao pequeno-almoço, num formato intimista, que cruza evidência científica, boas práticas e experiências reais.

Num contexto global marcado por uma crescente preocupação com o bem-estar, os dados reforçam a urgência do tema. Um estudo recente da Ipsos, realizado em 31 países, revela que a saúde mental é a principal preocupação de saúde a nível mundial, citada por 45% dos inquiridos, ultrapassando o cancro.

“O impacto dos espaços físicos no bem-estar das pessoas é um tema que tem vindo a ganhar cada vez mais relevância.  Mas ainda não chega. Falamos muitas vezes sobre o que fazemos, sobre produtividade, desempenho ou resultados. Mas esquecemo-nos do lugar onde tudo isso acontece. A verdade é que o ambiente onde trabalhamos influencia diretamente a nossa saúde física, emocional e até a nossa energia e capacidade de foco. Porque não é apenas o que fazemos… é onde o fazemos que faz toda a diferença”, sublinha Leonor Pipa, diretora do Link To Leaders.

Erros silenciosos nos espaços físicos com impacto real 

Na sessão de lançamento, que decorreu na passada quarta-feira, no Altis Belém Hotel & Spa, o foco recaiu sobre um conjunto de falhas recorrentes na conceção dos espaços físicos de trabalho, muitas vezes invisíveis para as organizações, mas com impacto direto no bem-estar dos colaboradores.

“Não é necessário investir muito dinheiro para melhorar os espaços, mas os erros continuam a ser grandes. A iluminação, por exemplo, é frequentemente inadequada – por excesso, défice ou posicionamento –, e aquilo que o colaborador vivencia ao longo do dia tem impacto direto no sono”, alertou Vanda Boavida, coorganizadora do projeto. 

A especialista em Espaços Saudáveis destacou ainda a falta de literacia nesta área e a ausência de métricas concretas. “O bem-estar mede-se. É essencial avaliar o antes, o durante e o depois de qualquer intervenção. Hoje, muitas decisões são tomadas sem quantificação do impacto real”, referiu, acrescentando que práticas aparentemente positivas, como a introdução de plantas, podem ser ineficazes ou até contraproducentes se não forem corretamente enquadradas.

Outro dos pontos críticos apontados prende-se com a ausência de especialização. “Um gabinete de arquitetura não substitui uma abordagem integrada de saúde e bem-estar nos espaços. Em Portugal, poucos projetos incorporam princípios de neuroarquitetura ou análise biológica do ambiente”, afirmou Vanda BoaVida.

A personalização surge, neste contexto, como uma das tendências emergentes. Tecnologias de inteligência artificial já estão a ser utilizadas para adaptar variáveis como iluminação, temperatura ou qualidade do ar ao ritmo biológico de cada indivíduo, abrindo caminho a ambientes mais ajustados e eficientes.

O papel invisível da luz na saúde e na produtividade

A primeira sessão contou com a participação especial de Ana Moreira, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Integrativa, que trouxe para o debate a evidência científica sobre a relação entre luz, sono e desempenho.

“A luz é um sinal biológico fundamental que comunica com cada célula do organismo. Regula o nosso ritmo circadiano e influencia diretamente o humor, a concentração e a produtividade”, explicou.

A médica destacou que a exposição insuficiente à luz natural, combinada com o excesso de luz artificial e de luz proveniente de ecrãs, está a contribuir para uma deterioração significativa da qualidade do sono, um problema que já assume contornos de saúde pública.

“Mais de 30% dos adultos não dorme o suficiente. Quando isso acontece, o risco de erro triplica e até 40% da capacidade de raciocínio e tomada de decisão pode ficar comprometida”, alertou.

Dados apresentados durante o encontro indicam ainda que a iluminação pode influenciar a produtividade em cerca de 15%, um impacto particularmente relevante em contexto empresarial. “Espaços bem iluminados promovem a saúde, reduzem o absentismo e aumentam a motivação”, acrescentou.

Ana Moreira chamou também a atenção para o conceito de “edifício doente”, descrito pela Organização Mundial da Saúde, que associa determinadas características dos edifícios, como ventilação inadequada ou iluminação deficiente, ao aparecimento de sintomas e doenças nas pessoas que trabalham nestes espaços.

“Pessoas saudáveis constroem empresas saudáveis. Quando os líderes compreendem que o bem-estar não é um luxo, mas uma condição para a excelência, tudo muda: a produtividade, a criatividade e, acima de tudo, a felicidade de quem trabalha”, sublinha.

Um tema que ganha centralidade dos colaboradores

Ao colocar o foco nos ambientes físicos, o projeto “Healthy Spaces, Happy People” procura alargar o debate sobre bem-estar nas organizações, tradicionalmente centrado em benefícios ou iniciativas isoladas.

A ambição, segundo os promotores, passa por criar uma consciência coletiva e estimular decisões mais informadas, sustentadas em evidência e orientadas para resultados mensuráveis.

Num momento em que as empresas procuram responder a desafios como a retenção de talento, a saúde mental e a produtividade, esta iniciativa assume-se, assim, como catalisador de uma mudança estrutural: olhar para os espaços físicos não como cenário, mas como um ativo estratégico com impacto direto nas pessoas e no desempenho.

O encontro de lançamento contou com a presença de vários líderes empresariais, entre os quais  Rita Nabeiro, da Adega Mayor, Teresa Fiúza, do Banco Português de Fomento, Ana Rita Frazão, da ONE Watch, Diogo Farinha, da IDEA Spaces, Rita Damasceno, da Fundação Ageas, Sandra Silva, da Mary Kay, Marta Passarinho, do Altis Belém Hotel & Spa, e Diogo Fonseca e Silva, do Grupo Altis, refletindo o interesse crescente do tecido empresarial neste tema.

Os próximos encontros do projeto já têm calendário definido e irão decorrer em julho e outubro, dando continuidade a um ciclo de reflexão que pretende consolidar o tema dos ambientes de trabalho saudáveis na agenda empresarial.

O projeto incluirá ainda videocast com especialistas nacionais e internacionais da área para alargar esta reflexão a uma audiência mais ampla.

1º Encontro “Healthy Spaces, Happy People”

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