Opinião
Global Reality Show
Vivemos na era da informação, onde a vida é em écrans e a imagem oculta a verdade. Inevitavelmente surgiria uma conjuntura exclusivamente determinada pelos níveis de audiência.
Em 2024 os americanos escolheram como presidente um apresentador de reality shows. Não admira que o quotidiano fique um interminável e emocionante enredo ficcionado. Donald Trump falhou fragorosamente toda a vida: casamentos, especulação imobiliária, criação de hotéis e casinos, ensino da gestão e até um primeiro mandato presidencial. Teve um único sucesso: a carreira televisiva. Até nos outros empreendimentos, a parte que correu bem foi mediática: há décadas que, por inúmeros motivos, se mantém obsessivamente nos jornais. Como publicista, Trump é um génio indiscutível. Este elemento fornece a única chave plausível para aquilo que a América e o mundo vivem há mais de um ano, explicando o paradoxo de liderança de Washington.
Os acontecimentos recentes, na sua interpretação razoável, parecem um delírio incompreensível e autodestrutivo. A política económica agride violentamente a conjuntura com tarifas, expulsões de imigrantes, cortes fiscais e até a promoção de criptoativos e desregulamentação. Na diplomacia a potência americana enfraquece, alienando aliados e agredindo aleatoriamente. O ataque às instituições nacionais e internacionais, cortes na investigação científica e ajuda humanitária, atropelos à justiça, lei e decência, guerras sem estratégia, tudo carece de razoabilidade. Até do estrito ponto de vista eleitoral, as ações do governo republicano ameaçam o sufrágio intercalar. Esta política parece não ter objetivos económicos, diplomáticos, sociais, institucionais, culturais ou eleitorais. E não tem mesmo.
Levar a sério as ações do presidente na lógica tradicional ignora o elemento absolutamente espantoso, que pode explicar razoavelmente tudo o resto: desde o primeiro dia que Trump se mantêm diária e ininterruptamente na manchete de todos os telejornais. Nenhum político, dentro ou fora do poder, alguma vez conseguiu sequer metade disso. Como reality show, a política americana é um sucesso estrondoso. Golpes de teatro, guinadas dramáticas, plot tricks, surpresas insólitas sucedem-se a um ritmo alucinante e inexorável.
Este é o verdadeiro propósito do presidente: tudo o resto é secundário. Mesmo a inevitável derrota eleitoral nas eleições intercalares faz assim sentido: ela focará firmemente as atenções até novembro e, depois garantirá mais dois anos de monopólio nas audiências. Avaliado do ponto de vista mediático, o segundo mandato de Trump é um êxito incomparável, como ele próprio o proclama obsessivamente desde o primeiro minuto. O resto da realidade, no país e no mundo, simplesmente não interessa.
Interpretando desta forma os acontecimentos, a única que realmente faz sentido, que devemos fazer? Todos nós, na América e no mundo, que insistimos em viver na realidade e continuamos preocupados com as questões económicas, diplomáticas, sociais, institucionais, culturais e eleitorais, como devemos reagir, vendo-nos como meros figurantes na gigantesca telenovela Trump? Alguns ficarão grudados no écran, como o povo MAGA, mais fãs maníacos que eleitores. Os outros devem simplesmente evitar cair na armadilha mediática.
Primeiro, ignorar as declarações, promessas e intenções. Aliás, elas não têm qualquer valor, saltitando sem senso ou nexo. É preciso definitivamente abandonar a busca da lógica subjacente, do sentido escondido, do plano dirigente. Como nas redes sociais, só conta a obsessão narcisista de atenção, aplauso ou repúdio.
Em segundo lugar, temos todos de passar a governar a nossa vida sem contar com a administração norte-americana, apostada neste mandato numa decadência suicida. Isso é mais fácil para os longínquos que para os próximos, e vai contra a experiência dos últimos 80 anos. Mas é possível para todos. O mundo, felizmente, é muito grande e existem inúmeras oportunidade e alternativas.
A única forma sensata de tratar um reality show é mudar de canal.








